Keith Richards, um “sem noção” liberado para crianças

Keith Richards, um “sem noção” liberado para crianças

Muitos o consideram o mais "sem noção" dos roqueiros. Mas nem só de uma vida marcada por excessos com drogas, álcool, histórias folclóricas e rock-and-roll vive o guitarrista Keith Richards, dos Rolling Stones. Às vésperas de completar 71 anos e de voltar pela quarta vez ao Brasil, ele se prepara também para lançar, no próximo dia 9, um livro infantil sobre seu avô, Gus. Com cinco netos, Keith disse que, com o livro, quer homenagear o homem que lhe deu a primeira guitarra e o apresentou à música, além de aprofundar o relacionamento com os filhos de seus filhos. Por trás da cara de durão, desligado e desleixado, existe um homem agradecido, gentil e de coração mole.

Carlos de Oliveira

01 Setembro 2014 | 08h55

Keith e sua filha Theodora: livro é  homenagem ao homem que apresentou a música ao rolling stone.

Ele pode até parecer um velho e impiedoso pirata, desses de fazer andar na prancha e meter medo em crianças. No fundo, porém, trata-se de um pirata gentil. A pouco mais de três meses de seus 71 anos, Keith Richards, o indefinível guitarrista dos Rolling Stones, tira sua roupa de homem pródigo em excessos e mergulha fundo em sua infância. Inspirado nas lembranças que tem de seu avô, Theodore Augustus Dupree, ou apenas Gus, Keith lança, no próximo dia 9, o livro infantil intitulado Gus & Me: The story of my granddad and my first guitar (Gus & Eu: A história de meu avô e da minha primeira guitarra), a ser publicado em papel e em versão eletrônica. Ilustrado por sua filha, a artista plástica Theodora Dupree Richards, Keith presta uma carinhosa homenagem a quem lhe deu a primeira guitarra e o apresentou à música.

A capa do livro de Keith Richards, ilustrado por sua filha.

Família – Em entrevista à imprensa inglesa na Little Brown, editora britânica especializada em publicações infantis, Keith se mostrou uma pessoa preocupada com a vida familiar. “Acabo de me tornar avô pela quinta vez, então sei do que estou falando. Esse laço especial entre crianças e avós é único e deve ser valorizado. Essa é a história de um desses momentos mágicos. Espero ser tão bom avô como Gus foi para mim”, disse o Stone. Mas o que Gus Dupree tinha de tão especial?

Malagueña – O velho Gus era um músico de medianas qualidades. Tinha uma orquestra e gostava de jazz. Tinha também um violão que chamava a atenção do pequeno Keith. Ao notar o interesse do neto, Gus chamou-o de lado e ensinou-lhe as notas básicas de Malagueña. Desse hino espanhol para o rock foi um longo caminho, mas Keith é agradecido até hoje. “Gus me colocou na música e então eu pensei que essa história era algo a ser passado para, quem sabe, despertar outras crianças e outros avôs. Agora quero procurar o talento em meus netos e alguns deles o têm. Por que não influenciá-los de alguma maneira”?,  disse o stone.

No rosto de Keith, marcas dos excessos.

Embora diga que sua vida e sua carreira não inspirem grandes reflexões, Keith se desmente ao se revelar um homem reflexivo: “Você sabe, eu já fiz o meu show e começo a viver rumo ao final da cadeia. Certas coisas começam a ter mais importância. A paternidade é  boa, mas ser avô está além disso, pois as crianças começam a perceber que somos os pais de seus pais e subimos no conceito delas”, refletiu.

O guitarrista completará 71 anos em desembro

“Vida”: autobiografia foi primeira experiência em literatura.

Autobiografia – Essa, na verdade, não é a primeira incursão de Keith Richards no mundo da literatura. Em 2011 ele lançou sua autobiografia, intitulada “Vida”, com 576 páginas de revelações pitorescas, outras engraçadas e outras lúgubres, tais como sua queda diante da heroína entre os anos 60 e 70.

De fato, a vida de Richards sempre foi marcada por inúmeras passagens polêmicas, geralmente regadas a álcool e drogas. Uma dessas passagens é relativamente recente e ocorreu em 2006. De férias em Fiji, depois de uma turnê dos Stones, Keith, provavelmente bêbado, caiu de um coqueiro e teve de ser operado na Nova Zelândia, para a retirada de um coágulo no cérebro.

Cheirou o pai – No ano seguinte,  em entrevista à revista britânica NME, Keith disse que havia  cheirado as cinzas de seu pai, o patriarca Richards Bert, morto em 2003, aos 84 anos. Foi o que bastou para que logo corresse 0 boato de que o guitarrista teria misturado cocaína às cinzas do pai e cheirado a mistura. Mais tarde, em sua autobiografia, ele esclareceu essa passagem: “A coisa mais estranha que eu já tentei cheirar? Meu pai. Eu cheirei meu pai. Ele foi cremado e quando fui jogar suas cinzas aos pés de uma árvore, um pouco caiu sobre uma mesa”. Para não ficar com o sentimento de que jogaria fora um pouco de seu pai, Keith disse que juntou a cinza derramada e a cheirou, mas sem cocaína. “Caiu bastante bem e ainda estou vivo”. Vale lembrar que por essas e por outras histórias, sua autobiografia já vendeu mais de dois milhões de exemplares.

Keith e Johnny Depp na saga “Piratas do Caribe”: experiência como ator em dois fimes da franquia.

Cinema – Richards teve também duas experiências cinematográficas na franquia “Piratas do Caribe”, em 2007 e 2011, no papel do Capitão Teague, pai do nada heróico Jack Sparrow, interpretado por Johnny Depp.  Além dos dois filmes, a carreira de ator de Keith inclui uma participação sem crédito na produção alemã “O Tirano da Aldeia”, em 1969, e emprestou sua voz no episódio “How I Spent My Strummer Vacation” , em 2002, na série “Os Simpsons”.

Gus & Me: The story of my granddad and my first guitar, foi escrito por Keith em colaboração com Barnaby Harris e Bill Shapiro. Segundo Megan Tingley, da editora Little Brown, “quem não daria as boas-vindas à oportunidade de conhecer Keith Richards quando criança? Gus & Me convida o leitor a assistir ao eletrizante momento em que Keith pega uma guitarra pela primeira vez”, afirmou.

“Não era assim” –  Filha Theodora, cujo nome é uma homenagem de Keith a seu avô, disse que teve muito trabalho para produzir as ilustrações, pois ficava imaginando como seria a Londres dos anos 40, como seria seu bisavô. Segundo ela, o livro a aproximou mais ainda de seu pai. “Adoro vê-lo com seus cinco netos. Há dez anos, ele faria pouco de qualquer musical. Hoje ele vai ver filmes enlatados e todas as coisas da Disney com os netos. Não era assim quando eu era criança”, disse.