Kate Bush traz de volta sua voz perturbadora em uma caixa ao vivo

Kate Bush traz de volta sua voz perturbadora em uma caixa ao vivo

Kate Bush está de volta. A menina inglesa que em 1978, aos 20 anos, deixou muita gente intrigada (e encantada) com sua voz de soprano, vai lançar um novo álbum. Na verdade, um super álbum ao vivo, sem mixagens, sem overdubs. "Before The Dawn" virá a público no dia 25 de novembro na forma de três CDs ou quatro LPs. O conteúdo será o espetáculo de mesmo nome apresentado pela cantora em agosto de 2014, ao longo de 22 concorridos concertos no Hammersmith Apollo, em Londres. "Before the Dawn" marcou o retorno de Kate Bush aos palcos, depois de 35 anos sem se apresentar ao vivo.

Carlos de Oliveira

02 Outubro 2016 | 15h31

“Before the Dawn”: capa do novo álbum da cantora inglesa Kate Bush, que reúne material ao vivo gravado durante concertos apresentados em Londres, em 2014.

A primeira impressão foi de um justificável espanto. Afinal, aquela não era uma voz comum. Tinha algo de dramático, operístico, perturbador. Ao mesmo tempo, soava infantil em alguns momentos. Madura e poderosa em outros. Uma soprano em formação diriam os ouvidos musicalmente educados. Na verdade, uma soubrette. Tantos predicados para um nome tão curto: Kate Bush. Em janeiro 1978, aos 20 anos, seu ‘single’ Wuthering Heights chegou rapidamente ao primeiro lugar na Inglaterra e invadiu rádios e clubes de vários países, o Brasil entre eles.

David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, encantou-se com o talento de Kate Bush e financiou suas primeiras fitas demo. Ambos chegaram a se apresentar juntos algumas vezes.

David Gilmour, guitarrista do Pink Floyd, encantou-se com o talento de Kate Bush e financiou suas primeiras fitas demo. 

Por trás do sucesso, uma carreira construída lentamente, em silêncio, nos bastidores, no distrito de Bexley, na Grande Londres, a 20 quilômetros do centro da cidade. Filha de um médico inglês e de uma enfermeira irlandesa, a jovem Catherine teve educação formal em um convento escolar em Abbey Wood, com estudos avançados de piano e violino.

Gilmour – Aos 16 anos, surge um padrinho da mais alta qualidade musical: David Gilmour, o virtuoso guitarrista do Pink Floyd. Impressionado com o talento da menina, financiou suas primeiras fitas demos. O material foi apresentado à gravadora EMI, que logo ofereceu um contrato a Kate, com uma ressalva: só lançaria um álbum seu quando ela estivesse cem por cento madura. Até lá, ela concluiria seus estudos, dando prioridade à música, à dança e à mímica.

Acrobática – A somatória de todos esses talentos culminou com o álbum The Kick Inside, de 1978, com 13 faixas, todas compostas por Kate. No Brasil, a música de trabalho foi Strange Phenomena, mas nenhuma superou o sucesso de Wuthering Heights, título original de O Morro dos Ventos Uivantes, a obra de Emily Jane Brontë (1818-1848). Não bastasse a voz peculiar de Kate, o clip da música mostrou uma artista jovem, bonita, ágil, acrobática, características que marcariam sua carreira.

Veja Wuthering Heights, com Kate Bush, em gravação de 1978:

Kate escreveu a música quando tinha 18 anos, depois de ter visto na TV uma adaptação da obra para o cinema. Concentrou-se nos dez minutos finais do filme. Na letra da música usou algumas falas da personagem Catherine Earnshaw, especialmente na construção do refrão (Let me in! I’m so cold!).

Solo – Wuthering Heights termina com um belo solo de guitarra que chegou a ser creditado a seu amigo e mecenas David Gilmour. O solo, porém, foi executado por Ian Birnson, guitarrista que fizera parte do Alan Parsons Project. A guitarra foi colocada em volume baixo na mixagem final da música. Tempos depois, o engenheiro de som Jon Kelly admitiria ter se arrependido de não ter aumentado o volume do instrumento e deixá-lo soar livremente.

Vovó – Em 1980, Kate Bush voltaria ao topo das paradas com Babooshka. A música conta a história de uma esposa que tenta testar a fidelidade de seu marido enviando-lhe bilhetes assinados por uma mulher mais jovem que se identifica apenas como Babooshka (vovó em russo).

Ouça Babooshka, com Kate Bush, de 1980:

Hoje, aos 58 anos, praticamente reclusa e bem mais gorda, Kate fala sobre Before the Dawn, a série de concertos que em agosto de 2014 deu origem ao álbum agora anunciado para novembro. Ela lembra que o trabalho é creditado ao KT Fellowship, companhia artística que fez o espetáculo no Hammersmith Apollo.

 

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Kate Bush hoje, aos 58 anos e em 1978, aos 20 anos.

Kate Bush hoje, aos 58 anos e em 1978, aos 20 anos.

Jejum – Há dois anos, no dia 21 de março, ela anunciava que interromperia um jejum de 35 anos dos palcos para se dedicar a um grandioso espetáculo em Londres intitulado Before the Dawn. A programação inicial previa 15 concertos, mas a procura de bilhetes foi tão grande que os organizadores tiveram de estender o número de apresentações para 22.

“Foi uma das experiências mais extraordinárias de minha vida”, escreveu Kate em seu website, logo após a conclusão dos shows. “Amei todo o processo. Particularmente colocar a banda, o coro e a equipe técnica num trabalho conjunto. Realmente foi a melhor combinação de talentos no mundo da música e do teatro. Nós nos tornamos uma família e eu realmente sinto falta de todos terrivelmente”.

Ouça Running Up That Hill, com Kate Bush, de 1985:

Militante – Nos anos 80, Kate Bush engajou-se no movimento mundial da Anistia Internacional pela libertação de presos políticos, entre eles Nelson Mandela. Apresentou-se ao vivo com David Gilmour, do Pink Floyd, e gravou com Peter Gabriel, ex-Genesis.

Ouça Running Up That Hill com Kate Bush e David Gilmour, ao vivo, nos anos 80:

Ouça Don’t Give Up, com Peter Gabriel e Kate Bush, do álbum So, de Peter Gabriel:

Ao vivo – Os três CDs ou os quatro LPs do novo álbum de Kate Bush são o registro fiel dos concertos de 2014, sem mixagens ou qualquer outro recurso técnico que tire a originalidade do espetáculo. Por ora, os fãs da artista só terão acesso ao registro sonoro dos concertos. DVD ou Blu-ray ainda não estão nos planos. “Quem sabe em mais 35 anos”, brincou um dos organizadores.