Os esqueletos sonoros da velha Rússia

Os esqueletos sonoros da velha Rússia

Na União Soviética do pós-guerra, ouvir música americana, especialmente jazz, blues e as big bands, era crime. Esses estilos representavam o "lixo capitalista", capaz de infectar os jovens. Com mãos de aço, o ditador Josef Stalin reprimiu a entrada de discos dos Estados Unidos em seus domínios. Mas os russos bolaram uma maneira mais do que criativa para vencer essa imposição: prensaram música americana em velhas radiografias descartadas pelos hospitais locais. Nasciam os "discos de ossos", vendidos num arriscado mercado clandestino, sempre vigiado pela polícia do estado. Os "roentgenizdats" só saíram de cena nos anos 70 e hoje são valiosas peças disputadas por colecionadores.

Carlos de Oliveira

08 Setembro 2014 | 08h24

Um “disco de osso” da  extinta União Soviética. Segundo as autoridades da época, eles reproduziam “lixo” americano.

Polarização e bipolarização são as palavras da vez nesta reta final de campanha eleitoral. Houve um tempo, não muito tempo, em que elas remetiam às duas grandes superpotências do pós-guerra, à Guerra Fria. Era uma época de ameaças de fim do mundo, de boicotes, de escaramuças, de tiros (muitos tiros) aqui e acolá, na Coreia e no Vietnã, e um incansável arreganhar de dentes. No fundo, nada muito diferente do que é hoje.

Ideologias – Os Estados Unidos e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) lideravam blocos mais ou menos bem definidos, num embate entre o bem e o mal, o capitalismo e o comunismo, os crentes e os ateus, a segurança e a insegurança nacional. O preço da liberdade era a eterna vigilância, advertiam os salvadores da pátria, em oposição aos apregoeiros da desgraça. Essa era a linguagem e a ideologia daqueles tempos.

Mas este não é um blog sobre geopolítica ou coisas assim. A conversa aqui é sobre música e o tema de hoje será a música durante a Guerra Fria, mais especificamente na União Soviética de um Stalin carrancudo e nada chegado aos sons decadentes e degenerados do ocidente, segundo rotulava o regime da época. O que se segue é uma prova de engenhosidade e de resistência de pessoas que queriam apenas ouvir música, especialmente americana, pessoas que gostavam de jazz, de blues e, numa fase pós-Stalin, de rock.

Josef Stalin não gostava nem um pouco de música americana

 

“Parasitas” – Como era crime ter discos desses gêneros musicais (e a punição podia ser até uma temporada em algum gulag siberiano), russos e demais soviéticos passaram a gravar álbuns de jazz, de blues e de big bands em radiografias descartadas por hospitais. Eram os chamados “discos de ossos”, feitos de maneira rudimentar, mas que abasteciam um comércio crescente e, claro, perigosamente pirata para “parasitas contaminados pela cultura do capitalismo”.

Radiografias foram matéria-prima para a confecção dos “discos de ossos”

A repressão aos “roentgenizdats” era rigorosa na velha URSS

Na União Soviética, esses discos eram chamados de roentgenizdat e sua origem, do ponto de vista técnico, ainda é um tanto obscura. Há algumas versões a respeito. Uma delas informa que os  roentgenizdat derivaram dos victory discs, gravações que os soldados norte-americanos, durante a Segunda Guerra, faziam para mandar notícias para casa. Os equipamentos de gravação eram rústicos e oferecidos pelo governo dos Estados Unidos às suas tropas. Terminada a guerra, várias dessas máquinas, que gravavam em celulóide o som captado por um microfone, foram abandonadas pela Europa e sua rudimentar tecnologia copiada.

O formato arredondado era feito com tesoura. O furo no meio, com cigarro aceso.

Raio-X – Comandada com mãos de aço por Josef Stalin, havia na URSS escassez de celulóide. Por obra da sorte ou da coincidência, pouco importa, o fato é que o governo russo decidiu que os hospitais locais deveriam se desfazer de suas chapas de raio-X, acumuladas ao longo do tempo, por serem altamente inflamáveis. Estava resolvido o problema de matéria-prima para a confecção de discos. Com imagens de fraturas, vértebras, falanges, pulmões, crânios e artelhos, os amantes não apenas da música clássica (a única admitida pelo regime, mesmo assim com reservas) começaram a prensar o “lixo musical” ocidental nessas radiografias. Foi nesse contexto que nasceram os “discos de ossos”.

Até março de 1953, quando Josef Stalin morreu, a repressão aos roentgenizdat foi sistemática. Jovens foram presos apenas por gostarem de jazz e, mais tarde, de rock. O governo russo até adotou uma maneira grotesca de contra atacar esse mercado pirata em expansão. Passou a imprimir  seus próprios “discos de ossos”. Só que em vez de música, ele reproduziam ofensas e ameaças a seus compradores.

Os “discos de ossos” viraram objetos de desejo de colecionadores

Restaurada e modernizada, uma antiga máquina de criar “discos de ossos” é hoje peça de colecionador.

Com a subida de Nikita Krushev ao poder e a denúncia dos crimes cometidos por Stalin, a repressão foi abrandada, mas, nem por isso, extinta. Com o advento do rock-and-roll, novos “discos de ossos” foram impressos e vendidos às escondidas por um rublo, contra os cinco cobrados por um disco de vinil autorizado. E mesmo esse único rublo era uma soma alta para os padrões soviéticos da era comunista.

Rústicos – Os roentgenizdat continuaram a ser prensados até o fim dos anos 60 e começo dos 70. Com o surgimento das fitas cassete, eles começaram a rarear. Hoje são objetos disputados por colecionadores. De qualidade muito ruim, eles reproduziam apenas uma música. O furo central era feito com uma ponta acesa de cigarro. A forma mais ou menos arredondada era obtida com uma tesoura imprecisa. O nível de chiado era alto, mas tudo valia a pena para satisfazer o gosto musical dos jovens reprimidos.

O DVD “Paul McCartney in Red Square” aborda os “discos de osso” na ex-URSS

O DVD Paul McCartney in Red Square, concerto que o ex-beatle fez em 2003 na Praça Vermelha, em Moscou, com Vladimir Putin na plateia, aborda a questão da repressão musical na antiga URSS. Deixando de lado os exageros (passa-se a impressão de que os Beatles foram os responsáveis pelo fim do comunismo), a produção do DVD ouviu vários russos que viveram essa época de limitações e citaram os “discos de ossos” como a alternativa  encontrada para divulgar discos de jazz e de rock, entre eles os dos Beatles. Vale a pena conferir. Veja vídeo de Paul cantando Back in the USSR, na Praça Vermelha: