Art Garfunkel sobre Paul Simon: “Eu criei um monstro”.

Art Garfunkel sobre Paul Simon: “Eu criei um monstro”.

Eles cantavam juntos desde 1957, quando frequentaram a mesma escola secundária em Nova York. Paul Simon sempre foi baixinho e, por isso, era alvo de bullying. Art Garfunkel, em entrevista ao 'Sunday Telegraph', disse que sentia dó do colega e que, por isso, sempre foi solidário a ele. "Mas eu criei um monstro". A dupla Simon & Garfunkel, dona de grandes sucessos, sempre viveu em clima de gato e rato. Art e Paul separaram-se em 1970, voltaram a se reunir para concertos pontuais, entre eles o de 1981, no Central Park, em Nova York, para 500 mil pessoas. O futuro de ambos aponta para caminhos separados.

Carlos de Oliveira

25 Maio 2015 | 22h26

Paul Simon e Art Garfunkel tinham tudo para encerrar suas carreiras com a harmonia que sempre identificou seus vocais ao longo dos últimos 50 anos. Mas harmonia é algo que, tudo indica, sempre passou ao largo das relações pessoais e profissionais desses dois músicos americanos. Nos palcos ou fora deles, nos estúdios ou não, pequenas tiranias permearam a vida de ambos.

Art Garfunkel (esq.) e Paul Simon: brilhantes, mas separados por incompatibilidades.

Art Garfunkel (esq.) e Paul Simon: brilhantes, mas separados por incompatibilidades.

“Em vão” – A dupla que revelou-se ao mundo folk e pop com a música The Sounds of Silence, de 1964, muito provavelmente está condenada ao silêncio eterno, principalmente depois da entrevista que Garfunkel deu, na semanada passada, ao britânico The Sunday Telegraph. “Minha bondade com Simon foi em vão. Criei um monstro”, desabafou um ressentido senhor, hoje com 73 anos, que agora aposta no sucesso musical do filho Art Garfunkel Junior, seu clone mais que perfeito.

Juntos desde 1957, conheceram-se na escola, onde Simon sofria 'bullying' por causa de sua baixa estatura.

Juntos desde 1957, conheceram-se na escola, onde Simon (esq.) sofria ‘bullying’ por causa de sua baixa estatura.

Art e Paul conheceram-se na escola secundária, em Nova York. Com um pouco mais de um metro e meio, Paul Simon era vítima de bullying por causa de sua baixa estatura. Condoído, Garfunken disse que, por compaixão, dava todo suporte moral ao colega, cujo talento musical era inversamente proporcional a seu tamanho físico. Simon era bom guitarrista e um sensível compositor. Mas era também um pequeno tirano, um castrador segundo definição de Garfunkel. “Ele tem complexo de Napoleão”, disse.

Simon & Garfunkel cantam Mrs. Robinson, tema do filme ‘A Primeira Noite de um Homem’, de 1968:

Garfunkel comparou-se ao beatle George Harrison, eclipsado por outro Paul.

Garfunkel comparou-se ao beatle George Harrison (foto), eclipsado por outro Paul.

Os “Pauls” – Em sua entrevista, o cantor disse que sempre se sentiu ofuscado por Simon, comparando-se ao beatle George Harrison. “Uma vez, numa festa, George se aproximou de mim e disse:

_ O meu Paul é para mim o que o seu Paul é para você.

“Com isso, Harrison quis dizer que, psicologicamente, os dois Pauls (McCartney e Simon) tinham o mesmo efeito sobre nós. Eram dois Pauls nos marginalizando. Acho que George Harrison sempre se sentiu oprimido por Paul McCartney e se identificou comigo. É verdade que McCartney era e continua sendo um tremendo músico, mas ele também fugiu com toda a  glória”, disse Garfunkel ao Telegraph.

Simon & Garfunkel fizeram muito sucesso e muitas de suas músicas frequentaram as paradas de todo o mundo. The Boxer, Cecilia, Kodachrome, Mrs. Robinson (tema do filme A Primeira Noite de um Homem) são algumas delas. Em 1970, poucos dias depois de terem lançado Bridge Over Troubled Water, seu álbum de maior sucesso, a dupla se separou.

Matemática – Ambos não resistiram às desavenças havidas durante a fase de gravação do disco, marcada por diferenças conceituais sobre o trabalho. Simon continuou em carreira solo e Garfunkel mudou-se para Connecticut, onde passou a lecionar matemática, uma disciplina que sempre o atraiu, desde os tempos de faculdade, na Columbia University.

“Eu tinha acabado de me casar e havia uma escola preparatória nas proximidades, onde fui lecionar matemática. Foi uma fase estranha da minha vida. Deixar Simon & Garfunkel, no auge do nosso sucesso, e me tornar um professor de matemática. Eu procurava conversar com os alunos sobre um problema de matemática, perguntar se alguém tinha alguma dúvida, e eles só queriam saber como eram os Beatles”, disse Garfunkel ao Telegraph.

Ouça Bridge Over Troubled Water, composta por Simon e cantada por Garfunkel:

Para se ter uma ideia do nível de disputas entre ambos, vale lembrar que Paul Simon sempre ficou muito incomodado com a ideia de que alguém pudesse creditar a Garfunkel a autoria de Bridge Over Troubled Water. Isso porque é a voz de Garfunkel que se ouve nessa gravação, sem a participação de Simon.

Art Garfunkel com Art Junior, em 2002: investimento na carreira do filho.

Art Garfunkel com Art Junior, em 2002: investimento na carreira do filho.

Disputas – “Eu também ouvi essa citação. Agora, quantas vezes eu cantei solo em nossas gravações e nem por isso eu quis participar de um tour de force. Ele se ressente e eu acho isso tudo muito pouco generoso”, disse Garfunkel. Ao saber que Simon está em Londres se apresentando com Sting no O2, quis logo saber se ambos cantaram Bridge Over Troubled Water.

Se Simon é inseguro em relação às suas composições, Garfunkel é zeloso de suas interpretações. Se Simon está em excursão por Londres, Garfunkel prepara a sua para o outono europeu, com apresentações marcadas para sete cidades inglesas e um concerto no Royal Albert Hall, em Londres.

Sem voz – Em 2010, Garfunkel passou por um drama pessoal, ao sofrer uma paresia (perda de movimento) das cordas vocais que quase o deixa mudo. Ainda hoje ele tem  dificuldades para alcançar notas mais agudas e lamenta não ter recebido apoio de seu ex-companheiro de dupla. “Mas eu não estou chateado. Estou acostumado com a ideia de que somos apenas personagens diferentes”, disse Garfunkel ao Telegraph.

Futuro – Mais do que personagens diferentes, Simon e Garfunkel mais parecem dois pavões, orgulhosos demais de suas histórias e cientes de suas capacidades e empatia com o público. Talvez por isso, de quando em quando, se reúnam para concertos pontuais, como o que realizaram em 1981, no Central Park, em Nova York, para meio milhão de pessoas. Em 2004 fizeram outra lucrativa turnê e estava tudo pronto para repetirem a dose em 2010, quando Garfunkel perdeu a voz.  O futuro da dupla,a julgar pelas últimas declarações de Garfunkel, não se apresenta muito claro. Está mais para sons do silêncio ou para águas turbulentas.

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