‘Visões do incêndio’: a possível mostra da sucessão presidencial
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‘Visões do incêndio’: a possível mostra da sucessão presidencial

Sheila Leirner

30 Março 2018 | 08h18

Há 12 anos fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon. Me perguntei se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras. Hoje o museu deveria estar apresentando “Visões do incêndio”.

William TURNER (1775-1851). “O Incêndio na Câmara dos Lordes”(1835). Cleveland Museum of Art.

Em 2006, quando fui visitar a exposição “Visões do dilúvio” no museu Magnin, em Dijon, não pude deixar de me perguntar se o curador tinha se inspirado nas eleições brasileiras:

“Será que o povo que havia votado em Collor, Maluf, Clodovil, Ciro Gomes, Russomanno, ACM Neto – os cinco deputados mais votados no país – (ou aquele outro povo naïf que iria votar no “chefe da cacaria”*) estaria representado na visão premonitória das telas pré-rafaelitas?”

A minha pergunta tinha algo de ingênuo, mas continuo convencida de que aquela mostra sobre a inundação cataclísmica da superfície terrestre que está no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, era também o preâmbulo simbólico do que iria acontecer no Brasil de hoje. Se julgarmos por esta pintura-emblema da exposição, de Jean-Baptiste Regnault, é possível que fosse um desfile do mau-gosto do renascimento até o século 19. Mas penso que o mau gosto atravessou os séculos, chegou ao século 21 e, hoje, floresce no nosso país. Hélas!

Jean-Baptiste Regnault, “O Dilúvio”, 1789 Paris, Louvre, Pinturas ©Foto RMN/Christian Jean – Na exposição “Visões do Dilúvio”.

Agora, ao lado de outras ameaças de teor igualmente incendiário feitas pelo “chefe”, quando se ouve de um pré-candidato à presidência do Brasil a “apologia ao uso de armamento de fogo, inclusive por civis”, como se isso fosse a única garantia de nossa liberdade, sendo que – segundo ele – um “Presidente tem que meter bala em vagabundo”, isto deveria inspirar ao curador do museu Magnin uma nova exposição: “Visões do incêndio”, com imagens aterrorizantes de Turner, Goya, Brueghel e tantos outros.

Sim, pois nos dois lados, esquerda e direita, trata-se no fundo de uma autorização da violência, inclusive guerra civil. Faroeste, bangue-bangue! Mentalidade arcaica de pirômanos que, é claro, não têm confiança nos poderes públicos, mas estão assoprando para ver o circo pegar fogo.

Na França, apesar de todos os problemas sociais, racismo, violência, terrorismo, etc., o porte de armas por civis é proibido desde o século 13, apenas maus cidadãos defendem o direito de possuir ou levar consigo uma arma de fogo, e na atualidade isto só é concedido se a pessoa “provar que está ‘específicamente’ em perigo”. Neste país civilizado, um apelo a “corretivos”, “exércitos”, “mortes” mas sobretudo  às “armas”, como o que foi feito ontem, dia 29, no Paraná, seria considerado “perturbação da ordem pública e social” e um pré-candidato bélico, certamente iria para a prisão.

De minha parte, a última convocação me faz pensar de imediato nas palavras de Groucho Marx: “‘inteligência militar’ é uma expressão contraditória.” Até a próxima que agora é hoje e, nessas horas, o voto certo e responsável é o mais importante de tudo!

 

*Cacaria = Grupo ou antro de ladrões. Sinônimo: quadrilha.

Francisco de Goya (1746-1828). “El Fuego en La Noche”, 1793.

Pieter Bruegel, o Velho (1525/1530 -1569). “Dulle Griet”, 1562. Musée Mayer van der Bergh, Antuérpia.

 

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