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Unicef: máquina de culpa

Sheila Leirner

19 Outubro 2016 | 08h38

Aqui está uma experiência sócio-psicológica tipicamente americana que se eu tivesse visto antes, teria escrito sobre ela no dia da crianças. Não é uma performance artística, mas poderia ser. Trata-se de um vídeo que, segundo a indignada jornalista brasileira que o apresenta (julho de 2016), “está virando um hit no mundo inteiro”. Julguei muito educativo e, se não fosse trágico, acharia até mesmo cômico no caso de ser usado como fonte de inspiração para algum filme dos irmãos Coen.

Assista ao vídeo abaixo antes de ler o que se segue…

É claro que a questão infantil no mundo é grave, nos toca profundamente. Quando vemos crianças como vítimas, sofremos demais. Choramos até. Pelo menos, é o meu caso. É claro que a Unicef tem boas intenções quando faz uma publicidade como esta mas, veja bem: não é preciso ler Barthes para saber que a roupa é uma linguagem e que as situações são simbólicas.

Crianças sujas e mal vestidas em restaurantes ou em ruas de grandes cidades, remetem imediatamente ao uso que mendigos, bandidos e ciganos fazem delas para pedir esmola e, o que é pior, para roubar. Infelizmente, por trás de uma criança maltrapilha que parece estar sozinha em espaço público, em geral há um adulto ou uma quadrilha (em Paris e Nova York é muito comum). Uma criança limpa e bem vestida sozinha na rua, é porque está perdida de fato. Pode não ser assim, mas a interpretação imediata que as pessoas normais fazem é essa. Se as reações delas não são as “esperadas” em situações “ideais”, não significa sejam necessáriamente más ou indiferentes.


A experiência de “câmera escondida” da Unicef, portanto, apesar da intenção, é falaciosa e desonesta. É um vergonhoso instrumento de manipulação psicológica construído para “criar culpa”. Além disso, é uma contradição absoluta que a Unicef, ao querer “defender as crianças”, empregue o mesmo método antiético dos que usam menores para chegar aos seus objetivos: comete o absurdo de fazer sofrer a própria criança de seis anos usada para a tal publicidade!

Há outras formas honestas de sensibilizar. Nos comovemos todos os dias com as tragédias vividas por seres humanos de todas as idades no mundo inteiro. Não precisamos de pegadinhas e, no entanto, a maior parte das pessoas – jornalistas inclusive – cai nesse tipo de armadilha feita sob medida para a simploriedade humana.

Até a próxima que agora é hoje e está na hora desta maioria fazer uso de suas cabeças. Perigo para crianças é a estupidez dos adultos!