Que sorte as artes plásticas não terem Nobel!
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Que sorte as artes plásticas não terem Nobel!

Sheila Leirner

13 Outubro 2016 | 20h38

Cada vez que eu via o nome de Bob Dylan no ranking dos “nobelizáveis”, pensava que era um trote. Se a Academia sueca jamais reconheceu Jorge Luis Borges, como poderia premiar o menestrel dos anos 1960 que eu adorava?

Dylan é maravilhoso, porém qual é a sua “obra literária”? Você tem noção dela por inteiro? Fora do que todos conhecemos, discernir um prêmio assim, me parece um enorme desprezo pelos escritores que dedicaram vida e alma à escrita pura.

Diziam frequentemente, no começo, que o maior talento de Bob Dylan era “semear a confusão na nossa cabeça”. Depois, afirmaram que ele foi uma pessoa cheia de máscaras, um camaleão – alguém sem qualquer identidade. Pelo menos é o que conta Christophe Lebold, especialista de literatura americana, no jornal Le Monde (13/10).

Culto, porém tipicamente americano, Dylan não fez mais do que “colagens”. No final, chegaram a condená-lo como um plagiador. Às vezes o celebraram como um mestre da citação à maneira de Kurt Schwitters, e até mesmo de Walter Benjamin, cuja grande ambição (não realizada)  era produzir um imenso e original trabalho filosófico, constituído inteiramente de citações.


Não sei se realmente amei Blowin’ in the Wind. De tanto ouvi-lo, em diferentes maneiras –  carinhosa, desleixada, sonhadora, zangada, determinada, insegura – acabei gostando. Mas daí ao prêmio Nobel? Sem medo de parecer elitista (afinal, a láurea foi um pouco popularucha) penso que – sinal dos tempos – cada vez mais, este prêmio se ridiculariza e, infelizmente, reafirma a decadência da literatura e da poesia. Não é difícil imaginar a calamidade que hoje representaria esta distinção sueca às artes plásticas. Sorte, passaram longe!

Mas ok, já que as coisas chegaram a este ponto, eu gostaria então de ver um próximo Nobel fitício (para pessoas vivas e mortas também) dividido entre Serge Gainsbourg, Leonard Cohen, Patti Smith, Jim Morrison, Nick Cave, Georges Brassens, Léo Ferré, Jacques Brel, Joaquin Sabina, Joan Manuel Serrat, Fabrizio De Andre e Vinícius de Moraes.

E pediria um Grammy póstumo para Borges e outro atual para Philip Roth e Don DeLillo, mesmo sabendo que invariavelmente seria uma injustiça. Há tantos escritores extraordinários no planeta!

Até a próxima, que agora é hoje e um novo Nobel injustiçoso… só no ano que vem!

 

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Leonard Cohen em sua casa em Los Angeles. Setembro de 2016. Foto: Graeme Mitchell para o “New Yorker”.

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