O olho de Baudelaire e nós
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O olho de Baudelaire e nós

Sheila Leirner

07 Outubro 2016 | 18h48

Courbet_portrait_de_baudelaire

“Retrato de Charles Baudelaire”, Gustave Courbet, cerca de 1848

Visitei a exposição L’Oeil de Baudelaire (até o dia 29 de janeiro de 2017) no Museu da Vida Romântica, em Paris, com a esperança de experimentar um pouco do spleen baudelairiano, aquele estado de mágoa pensativa, tédio existencial, desânimo profundo que o poeta exprime em As Flores do Mal. Pura ilusão! A exposição é euforizante, o museu é lindo, o pessoal simpático e o jardim onde fica o salão de chá, é deslumbrante. Saí de lá muito mais contente do que entrei.

Nas salas, uma centena de pinturas, esculturas e estampas evocadas pelo poeta nos convidam a confrontar o nosso próprio olhar à sua sensibilidade artística e a compreender como é que ele pôde inventar aquela definição da “beleza moderna”, a partir de uma “concepção dupla que exprime o eterno no provisório”. Além disso, tudo faz lembrar que ele proclamou o primado da imaginação, a “rainha das faculdades”, e a “função essencial da cor para a expressão de sensibilidade.” Dá para sentir tédio?

As obras e documentos retraçam o percurso de quem começou a sua carreira literária pela crítica de arte. Animador! O primeiro texto publicado sob o seu nome foi sobre o “Salão de 1845”. Esta primeira crítica foi seguida por outras sobre os “salões” de 1846, 1855 e 1859 e vários ensaios. Segundo a vontade do poeta, depois de sua morte, todos os seus textos sobre arte foram reunidos em duas antologias intituladas Curiosidades estéticas e A Arte romântica. Fiquei contente pelos críticos que – com mais livros prontos para o prelo – também só possuem dois volumes publicados. Isto, muito embora ninguém possa dizer que foi amigo de Courbet em sua juventude, e sobretudo que foi teórico do romantismo, fervoroso admirador e exegeta de Delacroix.


Em sua obra poética e nos textos críticos, Baudelaire elaborou a noção de uma modernidade ligada à vida urbana, em Paris. Isto é outra coisa agradável de se descobrir, sobretudo quando passamos o nosso tempo praguejando contra o mau humor e falta de civilidade dos parisienses, a sujeira nas ruas e o pesadelo do metrô. Seu olho e sua pluma souberam captar e magnificar este heroísmo da vida moderna, desvendado na arte romântica.

Cada obra possui o seu comentário. É como se percorrêssemos, ao lado do poeta, as mutações que se operam entre o romantismo e o impressionismo por meio dos expoentes daquela época – Delacroix, Ingres, Camille Corot, Rousseau, Chassériau -, artistas que souberam agradá-lo ou irritá-lo profundamente. Como Manet, por exemplo, cuja pintura ele jamais conseguiu gostar.

Findo o percurso, abri a porta da saída e dirigi-me à pérgola do jardim onde se encontra o salão de chá. Enquanto tomava um expresso, tentei imaginar a razão desta incompreensão. Afinal, Manet é um gigante. Só porque parecia “realista” aos seus olhos (o que não é verdade) Baudelaire precisava rejeitá-lo? Ele que havia sentido toda a riqueza dos desenhos de Daumier, ainda assim, passou longe da obra de Manet? Será que eram parecidos demais? Trocavam amizade, adoravam o dandismo, frequentavam os mesmos amigos e cafés. E, não obstante, Baudelaire reprovava a “decrepitude” da sua arte.

Pior do que isso, preferiu Constantin Guys, artista fraquinho cujo trabalho ele transformou no arquétipo pictórico da vida moderna! Mesmo presente em uma das telas emblemáticas de Manet, Música no Jardim das Tulherias, o autor de As Flores do Mal não captou nada da importância desta obra do autor da famosa Olympia. Deixou a um certo Émile Zola, ainda jovem e desconhecido escritor, a tarefa de acolher “comme il fallait” a imensa obra do mestre. Enfim… vá entender as fricções entre grandes inspirados!

Até a próxima que agora é hoje e, como diz o próprio Charles Pierre Baudelaire em seu Spleen de Paris, contrariando toda e qualquer ideia de tédio existencial, “às vezes é bom ensinar aos felizes deste mundo que existe felicidade superior à deles, bem maior e mais refinada”. Claro, ela pode estar no simples contato com a energia do espírito e da arte, coisa que se apresenta – sempre e em quaisquer lugares – à disposição de todos nós!