Na França, o grande kitsch temático da arte
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Na França, o grande kitsch temático da arte

Sheila Leirner

18 Agosto 2017 | 21h18

“A França é um gigantesco parque de diversão para turistas russos, indianos ou chineses.” (Michel Houellebecq, em “O Mapa e o Território”, 2010)
“Em cinquenta anos, vejo a França como um grande parque turístico.” (Gerard Depardieu, ator, em entrevista de 2016)
Até mesmo as artes plásticas possuem o seu parque de diversão. Ao lado de Disneyland Paris, Puy du Fou, Futuroscope ou Parque Asterix, há o “Les Carrières de Lumières”, lugar dedicado ao que chamam de “exposições de arte imersiva”. De Michelangelo, Leonardo, Bosch, Klimt, Monet, Renoir e Chagall, até Gauguin e Van Gogh, milhares de telas gigantes são projetadas em 7,000 metros quadrados como em uma coreografia, sob fundo musical clássico e moderno.

 

No fundo, “A Torre de Babel”, de Pieter Brueghel (1525-1569), pertencente ao Kunsthistorisches Museum de Viena. À direita “O Jardin das Delícias” (1490-1500), de Hieronymus Bosch (c.1450-1516), do Museu do Prado. Exposição “Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e maravilhoso”.

O “Les Carrières de Lumières”, inaugurado em 2012, fica em Les Baux-de-Provence, comuna turística perto de Provença-Alpes-Costa Azul. Apresenta neste momento, o espetáculo “Bosch, Brueghel, Arcimboldo. Fantástico e maravilhoso” (até 7 de Janeiro de 2018). O nome não é muito original e a exposição tampouco. Como em desfile alegórico de rua ou uma narrativa de narrativas (o que é bastante redundante) 2 mil imagens movimentam-se pelos muros, no espaço de 7,000 metros quadrados, durante 30 minutos. E tudo isso sob fundo musical de Carmina Burana (Carl Orff), Quatro Estações (Vivaldi), peças de Mussorgski e Led Zeppelin.

Difícil adivinhar o que a grande arte e a imaginação sem limites dos grandes mestres do século 16 fazem nestes cenários, músicas e animações, já que não são roupas ou acessórios de moda como as que foram mostradas na linda e feérica retrospectiva Christian Dior.

Ver esses trabalhos transformados em clipe tridimensional é triste! Pior do que ouvir os “remix” musicais onde os DJ’s desrespeitam compositores e intérpretes.  Ao dar volumes reais aos volumes virtuais dos artistas e outros truques, os virtuoses espertalhões esvaziam a linguagem dos mestres, transformando obras-primas em assombrosos e gratuitos exercícios técnicos.

Fica como se o Jardim das Delícias, a Tentação de Santo Antônio (telas de Hieronymus Bosch) e outras preciosidades como as frutas de Giuseppe Arcimboldo ou as festas campestres de Brueghel, fossem ilustrações ou decorações para a grandiloquência artificial e sensacionalista de um show de cabaré. Certo, pode ser muito bonito, mas será que estas maravilhas pictóricas (em si) precisam de “efeitos especiais” para que cheguemos a elas?  Até mesmo uma pequena reprodução em cartão postal pode ser mais fiel à nossa percepção…

De 2012 para cá, o lugar atraiu mais de 2,1 milhões de visitantes. O sucesso levou a instituição a abrir uma filial deste seu “parque temático” kitsch numa antiga fundição do século 19 em Paris, onde será inaugurado em abril de 2018. Mais de 3,300 metros quadrados serão dedicados a estes shows feitos com a técnica AMIEX® (Art & Music Immersive Experience).

Até a próxima que agora é hoje e os que se vendem ao mundo do espetáculo, ao invés de levar arte ao povo – em nome da diversão, vulgarização e consumo – acabam por afastá-lo cada vez mais da verdadeira experiência estética!