Masp, um mau exemplo para o povo brasileiro
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Masp, um mau exemplo para o povo brasileiro

Sheila Leirner

20 Outubro 2017 | 15h29

Qualquer responsável por uma instituição cultural sabe que neste momento político de exceção – hora de “clamor popular” retrógrado e moralista – não é sensato apresentar exposições deste teor. Até na sabedoria milenar do I Ching, o oráculo chinês, existe um hexagrama que, em outras palavras, aconselha: quando o tempo não está propício, aguarda-se a poeira abaixar. Qualquer responsável digno sabe igualmente que se houver cerceamento das liberdades básicas e dos direitos civis, a sua instituição não deve jamais submeter-se.

“Himeneu travestido durante uma cerimônia a Priapo” é o título desta obra de Nicolas Poussin (1594-1665), pertencente ao Masp, que foi restaurada e, em 2009 recuperou o falo camuflado de Priapo, o deus grego da fertilidade, durante muitos séculos. O quadro, que está na exposição “Histórias da Sexualidade”, pertenceu à família real espanhola e é provável que as camadas de tinta que recobriam esta parte da tela tivessem sido feitas no século 18, quando a Espanha era um país muito católico e puritano. Com as guerras napoleônicas, a obra caiu nas mãos de aristocratas ingleses e foi vendida em seguida a ao colecionador francês Georges Wildenstein que, por sua vez, a vendeu em 1953 a Francisco Assis Chateaubriand, fundador do MASP, em 1947. Foto – Paulo Mauricio Lima AFP

Em psicanálise, o processo de caráter defensivo pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou moralmente aceitável para atos, ideias ou sentimentos cujos motivos verdadeiros ele não percebe (ou percebe, porém não quer que outros percebam), chama-se racionalização.

Foi exatamente o que aconteceu nas explicações fornecidas pelos curadores do MASP quanto à proibição da exposição Histórias da Sexualidade (até o dia 9 de fevereiro de 2018), que faz parte do foco temático do Museu este ano, para menores de 18 anos que não podem entrar nem mesmo se acompanhados dos pais.

Não há um só país civilizado que use de proibição taxativa em exposições de arte e, menos ainda, de controle de idade. Que país é este, onde um aviso na porta e uma indicação etária não sejam suficientes para alertar se uma exposição é inconveniente para crianças?

Mesmo assim, em vez de encontrar alternativas expográficas (agrupando as obras mais problemáticas em espaços exclusivos) para liberar o acesso a todas as idades ou, em caso de impossibilidade, cancelar ou adiar esta mostra até segunda ordem, questionando e se insurgindo contra a pressão do Juizado de Menores, os curadores declararam: “precisamos aceitar a proibição, atendendo a três requisitos que caracterizam atividades para maiores de 18 anos”.

O paradoxo não para aqui. Os curadores disseram ainda que “só tiveram duas opções para realizar a mostra: abrir mão de quase um terço das obras ou transformar a faixa etária numa questão política”, sendo que escolheram a segunda para “não perder a pesquisa”. E clamaram ao público para que este “saia às ruas em protesto”, como se fosse possível transformar uma medida injusta, já aceita e assumida pelo museu, em debate público.

Na verdade, por uma questão de coerência e lógica, se não fosse possível encontrar formas museológicas de contornar o problema (o que é pouco provável visto o peso institucional que tem este museu), os responsáveis deveriam ter optado por abrir mão da totalidade da mostra, renunciar circunstancialmente à sua pesquisa (que, sem dúvida, poderia ser utilizada mais para frente) e aí, sim, transformar este caso em uma gigante questão política e de sociedade!

Ao contrário, escolheram trabalhar numa exposição “na companhia de advogados” (?!), abrir mão de mediadores para mostrar arte a alunos do Ensino Médio, e submeter-se covarde e oportunisticamente à aplicação arbitrária de requisitos que podem servir a outras atividades, porém certamente não são compatíveis com as artes plásticas. O “nudismo” por exemplo.

Não se trata de “culpar” instituições, trata-se de chamá-las às responsabilidades básicas que devem ter com o público, a sociedade e o país. Não é somente à classe artística e à sociedade que cabe pressionar o governo! As pessoas devem ir às ruas, sim. Mas as Instituições precisam ser a primeiras a descer de suas confortáveis e gratificantes torres de cristal para reclamar garantias de direitos sociais e civis, a fim de que o vírus obscurantista não se espalhe a outras áreas, além das artes plásticas.

Como já escrevi no artigo anterior, nos tempos da ditadura – eu que jamais pertenci a algum partido, nunca me considerei de esquerda ou de direita, tirando de cada lado o que julgava mais justo – fui pessoalmente protegida pelo Estadão contra as arbitrariedades da repressão. Desde então, é a primeira vez que vejo o mesmo tipo de repressão repetir-se na história do nosso país. E não como farsa.

Até a próxima, que agora é hoje e se representantes de um museu de prestígio como o MASP vêm a público com racionalizações para desculpar o fato de que a instituição submeteu-se, não tomou qualquer atitude, não se manifestou e tampouco se revoltou contra essa medida de exceção (jamais usada em museu brasileiro pois é, inclusive, anticonstitucional), como exigir a mesma coisa do povo? Como pedir que ele saia às ruas?

EXEMPLO DE TOLERÂNCIA E ABERTURA. Recusada pelo Louvre que a julgou brutal demais, a escultura gigante que evoca um homem copulando com um animal, foi finalmente exposta no Centro Pompidou – lugar mais tolerante e aberto à arte contemporânea. Como costuma ocorrer em toda parte, “Domestikator”, trabalho do holandês Joep Van Lieshout, foi mal interpretado. Segundo o diretor do Pompidou, a obra trata de “utopia” e para o escultor “ela representa também, simplesmente, a questão da ‘domesticação’ na sociedade de hoje.”