Léger: uma visão comovente e universal do trabalhador
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Léger: uma visão comovente e universal do trabalhador

Sheila Leirner

01 Maio 2018 | 11h08

Em cada país, o Dia do Trabalhador tem uma história e um sentido diferente. Na arte, Fernand Léger (1881-1955) tornou este dia universal.

Os Construtores, Fernand Léger, 1950. No Museu nacional Fernand Léger, em Biot. Óleo s/ tela, 300 x 228cm, doação Nadia Léger et Georges Bauquier, 1969 © ADAGP, Paris 2014 © cliché RMN Gérard Blot

Há 137 anos, nascia em Argentan mais um sábio mecânico tipicamente francês. Aquele que tranquiliza o estrangeiro quando há uma pane no motor de seu carro, enrolando um cigarro Gauloise entre os dedos: Ah, m’sieu, c’est la bonne chance, ce n’est rien… (Ah, senhor, por sorte, não é nada…).

Troncudo, atarracado, de alma e ombros largos, com um rosto talhado como por um açougueiro e um nariz agressivo, este mecânico foi, todavia, Fernand Léger. Um dos pesos pesados, uma das massas brutas da pintura moderna, na qual ele canta em todas as cores a civilização mecânica, o sortilégio social. Um homem que sabia o que fazer diante da pintura quando algo “quebrava” ali, e que podia sempre fazê-la “andar”.

Assim era Léger. Desde o seu primeiro trabalho dos dias de aprendiz, ele sempre foi competente em seu serviço manual. Como um especialista em máquinas, sabia exatamente o que queria fazer. É possível, talvez, que as tarefas que ele se propôs não tenham sido as mais complexas na história da pintura, mas cada uma delas foi concebida com clareza, economia e acabada com limpeza e expediente. De fato, pode ser dito até mesmo que a objetividade de Léger ultrapassou todos aqueles problemas da pintura moderna que não são imediatamente demonstráveis, ao admitir uma solução simples e racional ao invés de soluções expressivas, mentais ou verbais.

Léger foi um homem como o da Renascença

Creio que Léger certamente não teria sido Léger se não fosse francês. E mesmo assim sempre nos esquecemos que, dos maiores cubistas, apenas Braque e ele foram franceses. O primeiro, amadurecido dentro do cubismo. O último, suficientemente jovem para passar pelo cubismo como uma forma de adolescência antes de descobrir o seu próprio estilo. Pode-se dizer, entretanto, que eles dividem entre si a expressão gálica do cubismo: macio e duro, feminino e masculino, engenhoso e manipulativo, “midinette e méchanicien” (sentimental e mecânico), patrão e camponês. O resto do cubismo é internacional, nascido em megalópole, exceto a Espanha Negra de “sangue e areia” de Picasso.

Não há abstração na pintura de Léger. Seus trabalhos são retratos de coisas, do homem e de um povo. Coisas tão palpáveis, simples e rudes quanto as ideias e os assuntos de seu pequeno, direto e maravilhoso Funções da Pintura, publicado pela primeira vez em 1956 (e editado no Brasil em várias edições). Léger não é de, maneira alguma, um pintor moderno no sentido formal que frequentemente depreendemos de seu trabalho — e que Tarsila nos trouxe, no começo do século, do seu contato com o artista.

O que fica agora mais em evidência é que Léger foi um homem como o da Renascença, um compositor de objetos no espaço representativo, um pintor de arquétipos humanos isolados. Na verdade, as realizações deste artista constituem uma tal soma de invenções — invenção da cor, da forma e do espaço — que ele não teve mesmo nenhuma necessidade, como Kandinsky ou Mondrian, de se refugiar na abstração. Seus trabalhos têm a dimensão humana mais pura. Apesar de restritos à focalização de uma classe e uma terra, eles são, em síntese, o próprio artista e, portanto, testemunhos universais decisivos na evolução da arte contemporânea.

Nenhuma outra pintura teve, com efeito, maior influência sobre as demais artes. Cartazes, tipografia, luminosos, publicidade e mesmo o cinema. É necessário remontar, talvez, a J. L. David e, mais ainda, a Le Brun para encontrar na França um pintor que tenha exercido uma ação tão determinante no âmbito da vida cotidiana.

Quando instalaram Os Construtores na cantina das usinas Renault, em Billancourt, os metalúrgicos zombaram do quadro. “Como os operários”, perguntavam, “podiam trabalhar com mãos como estas?” Eram mãos enormes como só Léger sabia pintar com seu espírito essencialmente épico.

Perdido na massa operária quando montava a sua pintura, o artista tomava tristemente a sua sopa na cantina assistindo, silencioso e concentrado, a este primeiro julgamento da sua grande tela. Voltou oito dias mais tarde, os metalúrgicos não riam mais. Eles haviam se habituado às suas cores, tons, estilo e sobretudo à sua generosidade e violência. Assimilaram a “linguagem moderna”, não apenas porque ela falava o que lhes dizia respeito, mas porque Os Construtores são, na verdade, os construtores da França de uma outra época; posterior a tantos anos de guerra, desordem e traição. Mas, mais do que isso, são também universais.

Até a próxima que agora é hoje, dia dos trabalhadores, estes seres humanos que talvez nem os artistas do Egito ou da Renascença conseguiram retratar de forma mais comovente do que Léger!

 

Há quatro anos o Museu nacional Fernand Léger, de Biot, apresentou Os Construtores, obra-prima de sua coleção, na fábrica Renault em Flins.

 

Museu nacional Fernand Léger, Biot, França.