Ismael Nery e a essência, 84 anos depois
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Ismael Nery e a essência, 84 anos depois

Sheila Leirner

11 Maio 2018 | 14h48

O título ou parti pris “Ismael Nery: Feminino e Masculino” parece um pouco redutor, e a ênfase nas relações do artista com “androginia”, “provocação”, “sexo grupal”, “erotismo”, etc., tende ao sensacionalismo atual. Como se a obra não transcendesse o anedótico e como se, sem essa apelação, o público não fosse se interessar por sua arte. Mas a exposição de 220 trabalhos que está agora no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), até o dia 8 de Agosto, é uma grande oportunidade para rever ou conhecer um trabalho que vai além das trivialidades e, como é muito raro, lançou os olhos sobre o futuro.

“Autorretrato (Homem de Chapéu)”. Reprodução fotográfica Romulo Fialdini. ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras.

Na comemoração do meio século de sua morte na idade legendária dos trinta e três anos, Ismael Nery (1900-1934) já podia ser compreendido. Hoje, ele também pode ser venerado. Isso porque este artista, grande conhecedor de si mesmo, do homem e do universo em totalidade, projetou sua obra em direção a um futuro (que é o nosso presente), no qual a arte – reflexo dessa conjunção e conhecimento – é capaz agora de oferecer subsídios ideais para compreendê-la.

Essa capacidade prospectiva de Nery – que, entre outras extraordinárias e místicas visões premonitórias (até mesmo da própria morte) “deixou seu cérebro às gerações futuras” – deve-se, portanto, a uma obra que é essencial, universal, mítica e, consequentemente, atemporal. Um conjunto que antecipou o momento no qual a arte conquistou três prerrogativas: uma aguda (e ativa) aproximação com o sujeito; total independência dos dogmáticos apriorismos “históricos”; e principalmente, uma visão ampla no lugar do mesquinho enfoque do formalismo e/ou informalismo a partir da “aparência final” do trabalho.

O formalismo fundamenta-se nos princípios autoritários modernistas, nas doutrinas do progresso técnico e estético (Bauhaus, concretismo, construtivismo etc.), segundo o qual a redução do conteúdo é um dos pré-requisitos para uma arte pura, essencial, adversa ao trivial. Tanto é que, há algumas décadas, os conceitos de “motivação” ou “intenção” foram banidos do vocabulário crítico que trata dessas questões. O informalismo (abstração lírica, tachismo, expressionismo abstrato etc.), por sua vez, apesar de aparentemente antagônico ao formalismo, não é – como se pensa – oposto a ele. Ali, a visão formalista permanece do ponto de vista das “qualidades” formais da obra.

Um artista completo

O que a arte contemporânea felizmente conquistou – por meio do neoexpressionismo, pós-happeningsperformances, etc. – como sempre, de forma dialética, foi um não-formalismo, ou seja, uma espécie de reconquista dos conteúdos, em novos moldes, já com toda a bagagem conceitualista que coloca a ideia acima dos resultados formais.

É verdade que Ismael Nery é um surrealista. Quer dizer, traz à tona imagens e questões do inconsciente. Seu estilo muitas vezes aproxima-se da metafísica de um Carrà ou de um De Chirico. Mas, antes disso, Ismael Nery é um artista completo (poeta, filósofo, pintor, desenhista, gravurista, atleta, arquiteto, escultor, cenógrafo, figurinista), que procurou por meio da pluralidade (renascentista ou pós-moderna?) chegar à essência das coisas, sem se importar com o seu resultado formal.

O essencialismo, sistema filosófico que construiu, era – segundo Murilo Mendes, seu melhor amigo – “baseado na abstração e redução do tempo e espaço, na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência e na representação das noções permanentes que dão à arte a universalidade.”

O homem deveria ser uma bola com pensamento (Ismael Nery)

Nery era adverso às finitudes, aos limites que circunscrevem a ação e o pensamento prosaico. Tanto é que até o seu corpo representava uma espécie de limite que ele queria transcender:  “Meu Deus, para que me destes tantas almas num só corpo? / Neste corpo neutro que não representa nada do que sou / Neste corpo não me permite ser anjo nem demônio / Neste corpo que gasta todas as minhas forças / Para tentar viver sem ridículo tudo o que sou ( … )” (1933).

Segundo o artista, o “homem deveria ser uma bola com pensamento”. Essa rejeição dos nossos “inúteis apêndices” físicos, essa procura da síntese funcional/essencial é a chave para a compreensão da religiosidade e do gênio de Ismael Nery que, como um “Saint Genet” na literatura, não reputa como pecados estéticos nenhuma série de características artísticas que, desde os anos 1980, podemos considerar anti-modernas ou pós-modernas: figurativismo, expressionismo, surrealismo, egocentrismo, narcisismo, romantismo, ecletismo, historicismo clássico. Todas aquelas características, enfim, que interferem na autonomia da obra e no princípio da “arte-como-arte” que, em princípio, rejeita a vida, a natureza etc., tudo o que está “fora” dela mesma.

O desejo de síntese é a chave paradoxal para a compreensão da figuração excessiva, transbordante, de Nery, cheia de conotações físicas, sexuais; uma quantidade de elementos arcaicos, arquetípicos que, justamente por sua profusão e riqueza, tentam transcender a realidade em busca de uma unidade superior. Como se configurassem os movimentos de um balé contemporâneo.

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Até a próxima, que agora é hoje e não sei porque essa insistência atual em levar tudo para o lado do sensacionalismo, no caso as relações do artista com “androginia”, “provocação”, “sexo grupal”, “erotismo”, etc., como se isso fosse prioritário num conjunto que transcende toda questão anedótica e como se, sem essa apelação barata, o público não fosse se interessar por sua arte!