“Financeirização” da arte: o lobo em pele de cordeiro
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“Financeirização” da arte: o lobo em pele de cordeiro

Sheila Leirner

24 Dezembro 2016 | 14h38

Convidada por um instituto na Costa Oeste dos Estados Unidos – mais especificamente em Los Angeles, na Califórnia, onde permaneceu dois meses – uma historiadora da arte, curadora e professora brasileira relata uma de suas experiências. A universitária, muito aplicada, conta em uma de nossas revistas especializadas, a consequência da “enorme transformação no sistema internacional da arte que assistimos na última década”, onde “a produção, mercado e instituições artísticas sofrem reconfigurações”. Segundo ela, hoje podemos perceber “o quanto esta mudança é sintomática de uma tendência à ‘financeirização’ e à especulação da arte.”

Hauser & Wirth2

Instalação de Martin Creed na galeria Hauser & Wirth

Entretanto, depois destas considerações bastante justas, o leitor brasileiro fica sabendo que a “grande novidade” na América é a galeria de arte fantasiada de museu. Não uma espécie de kitsch, mas uma impostura com todas as letras: um estereótipo de estabelecimento comercial de arte, gênero “loja gigante de departamentos” que pretende encarnar os valores da tradição cultural. E que também não tem nada de inocente: é lobo na pele de cordeiro que conhece e visa com precisão o seu público/alvo.

Corpos anômalos do ‘Art World’

De novidade, não há nada. Mas trata-se de uma tendência que atrai de fato as instituições artísticas, sendo que ela “inverte o papel” das galerias e não dos museus, como quer a pesquisadora. Os museus estão lá, continuam os mesmos. Mas o que são estes corpos anômalos do “Art World” americano, que sempre se instalam onde o poder aquisitivo é mais alto?


A professora dá como exemplo a casa suíça Hauser & Wirth (aliada ao ex-MoCa Paul Schimmel) no centro de Los Angeles e com filiais também em Zurique, Somerset, Londres e Nova York. Como se, de fato, a “grande metrópole da Costa Oeste dos EUA” com a expansão do seu chamado Arts District, ameaçasse “roubar o brilho de sua irmã do Leste (Nova York)”. E como se estratégias pudessem ter algum efeito a longo prazo e realmente roubar ou desviar as funções e atribuições de alguma coisa.

Claro, ela não emite nenhuma opinião sobre o assunto e as suas interrogações são um pouco vagas. Apenas aponta a colaboração de especialistas nestes espaços “imensos e deslumbrantes”, organizados com a “consultoria de arquitetos renomados”, na organização de mostras “históricas” que duram seis meses (!). E se surpreende com o fato de entrar num lugar comercial que, “além de se assemelhar a uma área de museu, usa das estratégias do museu de arte contemporânea para se legitimar, com equipamentos museológicos, catálogo primoroso, ensaios curatoriais encomendados, estudiosos reconhecidos, monitoria, livraria, restaurante” e tudo mais! O slogan e o jingle do empreendimento deveriam ser inspirados naqueles da bebida Canadá Dry, na França: “tem cor de museu, parece museu e… não é museu!”

No final, como se não soubéssemos o que esperar de um museu de arte contemporânea, a especialista conclui que é “fundamental discutir o que se espera de um museu de arte contemporânea”. Erro de lógica. O essencial, isto sim, seria discutir o que se espera de uma galeria de arte! Mas penso que ela esqueceu também que viu o fenômeno nos Estados Unidos, onde a desmesura é hábito. Atrai até mesmo os suíços que não encontram igual tamanho de terreno (em todos os níveis) em seu país ou na Europa.

Hauser & Wirth e outras me lembram o “World Showcase” (Mostruário do Mundo”) de EPCOT (Experimental Prototype Community Of Tomorrow), a Disneylândia de Orlando que possui 11 pavilhões, cada um reproduzindo exatamente as características de um país, suas lojinhas e produtos. O novo mundo americano dos “department store” de arte, assim como os parques temáticos de diversão, também reproduzem características e constituem mostruários feitos para venda. A única diferença em relação a EPCOT, é que a Disneylândia não quer ser outra coisa além do que é, enquanto que Hauser & Wirth (entre outras) enganam o público, dourando dólares com “cultura”.

O que nos consola é saber que o país, onde este “deslumbrante” e “novo” modelo se desenvolve, não possui apenas EPCOT. Agora, não por acaso, também tem Trump na Presidência. Ou seja, tão cedo não será modelo, e muito menos de mercado da arte, para nenhum país no mundo. Felizmente.

Até a próxima que agora é hoje!