Cura de desintoxicação com Proust, em Balbec
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Cura de desintoxicação com Proust, em Balbec

Sheila Leirner

11 Outubro 2016 | 13h28

Quando, antes de publicá-lo, revelei o tema deste post a um leitor, ele perguntou gentilmente: “Ainda no século 19? Depois de Baudelaire, porque insistir na busca do tempo perdido?” Respondi que, mesmo em imaginação, a herança preciosa desta população desaparecida – Proust, Zola, Flaubert, Balzac, Victor Hugo -, é sempre um ótimo antídoto contra a atualidade tóxica, sobretudo a que se presencia nos “parquinhos infantis” dos políticos nas Américas do Norte e Sul. Em que “países adultos”, culturalmente desenvolvidos, ouviríamos debates do nível Trump/Clinton, ou veríamos dirigentes que – entre outras coisas muito piores – se fazem retratar por Romero Britto? Nem Gabriel García Márquez teria sido capaz de imaginar uma entrevista/armadilha tão reveladora, tanto da entrevistada quanto do entrevistador, como aquela da Folha (de 9/10) na qual caiu a nova primeira-dama de São Paulo.

Grand_Hotel_Cabourg

Grande Hotel de Cabourg, na Normandia

Assim, se quisermos salvar o Homo Sapiens e a (segundo outra letrada política) “mulher sapiens” que dormem em nós, um bom exercício é nos elevarmos e desintoxicarmos pelo espírito, transportando-nos, por exemplo, à Balbec, cidade imaginária de Marcel Proust (1871-1922) no Em Busca do Tempo Perdido, seu monumento literário de 7 volumes com 2,500 personagens fictícios e reais. Um pouco como se ele tivesse retratado minuciosamente, no romance, a metade de todos os seus possíveis amigos do Facebook.

Balbec é uma estação balneária situada na Normandia, cujo principal hotel – frequentado pela aristocracia – possui um açude para o mar e a casa do pintor também imaginário Elstir, cujas marinhas misturam terra e mar. Claro que, como em toda obra literária, a ficção apenas empresta fragmentos da realidade. A Balbec de Proust é um patchwork onde encontramos igualmente os traços de outras estações de praia ou de águas como Trouville e Dieppe, ou ainda Evian. A inspiração principal, todavia, vem de Cabourg e seu Grande Hotel que visitei.

Mais ainda do que conhecer o Hotel também frequentado por George Sand, onde Proust viria com a avó, depois sozinho em 1890, ano do seu serviço militar, e bem mais tarde já no século 20 – eu quis sobretudo sentir o clima vivido pelo personagem Elstir. Ele é um pintor provavelmente impressionista, uma mistura de personalidades inspirada por Claude Monet, Helleu, Édouard Manet e Whistler a quem deve o seu nome por anagrama aproximativo. Na obra romanesca de Proust, foi Elstir quem ensinou ao narrador a ver as coisas com um “novo olhar”. Frequentou o salão de Madame Verdurin sob o nome de Biche e em seguida trocou o mundanismo pela solidão, indo trabalhar na Normandia. Pintou, aliás, Odette de Crécy, futura Madame Swann, num retrato andrógino chamado “Miss Sacripanta”. Além de tudo, é Elstir que apresenta Albertina Simonet ao narrador.

Perto de mim, alguém sussurra: “É o senhor Proust.”

Evidentemente, não pude deixar de fazer trabalhar um pouco a minha imaginação:

Cabourg, uma noite de 1907. Sou uma rica “villégiaturiste” (naquela época não existia ainda a palavra “turista”). Vim de Paris para escapar das obras do metrô. Reservei um quarto neste lugar de luxo do século passado que foi reformado e acaba de abrir as suas portas. Minha fortuna me permite. Reinaugurado com grande pompa no dia 7 de julho, o velho Grande Hotel  (de quando Proust era criança) agora é o estabelecimento mais moderno da costa normanda. Tem eletricidade (ninguém tem), aquecimento central e, coisa rara, banheiros em todos os quartos! Mais raro ainda, ele é construído em cimento armado. Em estilo rococó muito em voga e de cor creme. Parece um bolo!

Chego às 18 horas em ponto, trazida por um táxi de uma companhia monegasca desde a estação de Dives-sur-Mer (Calvados). Nem me passa pela cabeça que pouco mais de um século depois eu teria Uber. Enquanto admiro as ondas da baía de frente para o Canal da Mancha, um empregado de libré abre a porta de vidro do elevador para deixar passar um homem. Subitamente, paro de me interessar pelo mar. Esta extravagante e elegante criatura de  36 anos, cabelos pretos e pele muito alva quase diáfana, parece um corvo. O seu casaco de alpaca é cinza pérola, forrado de seda violeta. Ele calça botinas envernizadas, veste luvas brancas listradas de preto, um chapéu melão cinza claro e uma echarpe branca. Perto de mim, alguém sussurra: “É o senhor Proust.”

“Senhor quem?”, penso eu. Na época, o dândi vestido daquele jeito ainda não é o autor genial dos sete volumes. Ou melhor, sim, um pouco talvez, pois afinal é nesse ano que, segundo os especialistas, ele começou a ficar mais maduro na literatura… O primeiro volume, No Caminho de Swann (que é onde todo mundo empaca) só vai aparecer em 1913. “Se ele é conhecido aqui”, falo para mim mesma, “é como um rico que vive de rendas, um mundano que sai nas colunas sociais dos jornais, uma espécie de ‘people’ que só publicou uma antologia de poemas e textos curtos (Les Plaisirs et les Jours), assim como algumas traduções de John Ruskin”.

O famoso “linguado frito com manteiga” que dizem que ele gostava, a julgar pelo preço, deve ser um animal em ouro maciço.

Logo desisto de fazer trabalhar a minha imaginação. Vou ao salão de chá do Hotel e, mesmo sem estar hospedada lá, peço duas “madeleines” e uma Perrier com limão convencendo-me que adoraria fazer como Marcel Proust. Ora, ele veio em todos os verões, dois meses por ano, durante sete anos, ou seja ficou ali 421 dias exatamente. E sempre no mesmo apartamento (n° 414) do quarto andar, com vista para o mar, às vezes alugando mais dois quartos pegados ao seu, um de cada lado.

Observo de longe o restaurante que Proust chamava de “o aquário” em À Sombra das Raparigas em Flor. O famoso “linguado frito com manteiga” que dizem que ele gostava mas eu duvido, a julgar pelo preço deve ser um animal em ouro maciço. Imagino a festa de reabertura do Hotel naquele aquário. Assim que Proust descobriu o evento numa reportagem do jornal Le Figaro, ele decidiu voltar ao Hotel da praia normanda para aliviar mais uma vez a asma que o fatigava desde a infância.

Saía pouco do quarto, nunca descia antes da tarde, frequentava o cassino, recebia amigos à noite. Sobretudo escrevia muito, e até tarde da noite, os primórdios daquela que seria um dia uma das obras-primas da literatura mundial. Foi o último cliente a deixar o lugar em 1914, quando o Hotel teve que ser transformado em hospital de guerra.

Terminei as minhas madeleines pensando que Proust, ele, comia como um passarinho. Nutria-se quase que exclusivamente de café com leite e croissants que os garçons levavam ao quarto. Em Paris fazia o mesmo, pedindo fracas refeições no Hotel Ritz. Por esta razão, terminou em estado de desnutrição avançada e caquexia, uma fraqueza profunda de suas funções vitais.

Se Proust ressuscitasse, ficaria surpreso de ver que São Paulo também tem os seus jornalistas viperinos e as suas Madames Verdurin.

Na mesa ao lado, um senhor idoso parecia conhecer muito bem essas histórias. Ele contava pormenores maliciosos a duas mulheres boquiabertas. Devia saber tudo sobre o escritor, a obra, a vida, as fofocas. Um proustiano que fazia muita impressão e “comme il faut, quoi!” Mas devia ser do mesmo modo um ator, pois quando imitou Proust tendo uma crise de asma, com a respiração assobiante e tudo mais, os clientes se viraram assustados. E na hora que parecia desmaiar asfixiado para explicar melhor a situação, o garçom foi buscar o telefone para chamar uma ambulância.

Aquele “ator” combinava bastante com o lugar “glamour” no qual Cabourg se tornou. Foi o local predileto de muitas obras cinematográficas. A começar pelas adaptações de O Tempo Reencontrado (1999) de Proust, pelo chileno Raoul Ruiz que, aliás, eu havia conhecido dois anos antes, na inauguração da escola Le Fresnoy em Turcoing, norte da França. Nina Companeez realizou a Procura em 2011, no Grande Hotel, porém não foi a única. Jacques Doillon, Olivier Nakache e Eric Tolédano filmaram lá, entre outros.

O Hotel inspira. Mas principalmente desintoxica. Até a próxima que agora é hoje e se Proust ressuscitasse, ficaria surpreso de ver que São Paulo também tem os seus jornalistas maldosos e as suas Madames Verdurin! Com a diferença de que os primeiros não merecem nem mesmo um tapa do marquês Robert de Saint-Loup. E certas madames do Jardim Europa, até nos defeitos, não chegam aos pés da burguesa estúpida, pretensiosa e inculta do Quai de Conti.