Céline, Tarsila e o racismo
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Céline, Tarsila e o racismo

Sheila Leirner

15 Março 2018 | 10h18

“Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!” (Pedro Paulo, universitário brasileiro imaginário, residente em Paris). “Há algo de muito forte e constrangedor naquele peito caído da ‘Negra’ de Tarsila do Amaral, pintora da elite paulista. É difícil não pensar em seu caráter ideológico, que tem marcas raciais.” (professora da Unicamp, não imaginária, em comentário no Facebook.).
É uma ironia muito grande que, no mesmo momento em que alguns “tagarelam” querendo encontrar racismo na arte, outros que lutam de verdade contra o racismo morram assassinados.

“O Postal”, 1928, Tarsila do Amaral

Marido e mulher, ambos profissionais na área da cultura em Paris, se encontram, em sua própria cozinha, na hora do chá. Catherine, francesa, livro embaixo do braço, coloca o bule sobre a mesa; Pedro Paulo, brasileiro, belisca um biscoito pensando que teria preferido um café. Ela diz:

“Ontem reli algumas páginas de Louis-Ferdinand Céline, o começo de Morte a crédito, onde ele conta a sua experiência de médico com as pessoas pobres. Ah grandioso! Hilário! O suprassumo da literatura francesa! Você não leu, leia pelo menos esse trechinho.”

Catherine abre o livro que trazia debaixo do braço e o estende ao marido:

“É preciso ler em voz alta, se possível imitando o sotaque ‘parigot’ (parisiense) tipo Louis Jouvet! Dá pra entender porque Fabrice Luchini, grande ator, recitou essa passagem no palco, ha ha!”

Pedro Paulo lê rapidamente, em voz baixa, e faz uma careta: “É provocação?”

“Como assim?”, ela se surpreende.

“Imagino o Luchini recitando Céline, responde Pedro Paulo, mas não vejo nada de hilário. Isso é um ‘pedaço de horror’ em sua falta de humanidade, bondade, compaixão – o contrário da medicina! Hipócrates ficaria de cabelo em pé!”

“Sinto muito, Pedro Paulo, mas a sua incompreensão de Céline é consternadora. Ou você não leu direito ou, o mais grave, é incapaz de compreender um texto de literatura escrito numa língua que não é a do código civil ou do francês que emprega o apresentador do jornal das 8 na televisão. Estou com a impressão de ouvir o que o nosso peixeiro poderia proferir de Céline!”

O homem, no sublime do seu horror e de sua grandeza

Pedro Paulo joga o resto do biscoito dentro da xícara vazia e retruca:

“A literatura não justifica tudo. Que nojento esse Céline! Que pessoa desumana. A gente se pergunta porque ele escolheu ser médico. Talvez para poder cuspir o seu ódio ‘maravilhosamente literário’ sobre os humanos. Irra!”

Catherine, à beira de um ataque de nervos, tenta maneirar:

“É porque ele era médico justamente, que Céline pôde se aproximar da condição humana e escrever duas ou três obras-primas onde o homem, ou melhor, o fundo da condição humana é apresentado no sublime do seu horror e de sua grandeza.”

“Consternador é o seu autoritarismo e arrogância! Segundo você, só porque é conferencista e professora catedrática na Sorbonne, eu não tenho o direito de falar e sentir de maneira diferente? Inacreditável!”

“Mas Pedro Paulo, é mais forte que Pascal! Simplesmente trata-se de uma imagem paradoxal que não agrada, perturba, decepciona os discursos submissos que embelezam e escondem o fundo de egoísmo, mesquinharia, covardia que os carregam e agitam!”

“Vai comparar com Proust…”, resmunga Pedro Paulo.

“Proust demoliu os esnobes burgueses e a classe decadente da aristocracia do faubourg Saint-Germain e isso dá prazer, não é? Todo mundo perdoa a maldade dele. Céline demoliu os pobres, os pequenos, o ‘povinho’, isso não dá prazer e o consideram um canalha. É a reação dos imbecis que são os cães de guarda do ‘politicamente correto’ que, aliás, não mudou nada desde 1936.”

Tarsila, Cioran, Céline, processos parecidos por razões execráveis

“Catherine, você está me chamando de imbecil? Justo eu que nunca gostei dos ‘bem pensantes’, saí correndo da USP e vim trabalhar em Paris porque pressenti que um dia teria de presenciar a destruição ética e mental que um partido político faria com os meus colegas? Justo eu que vejo com horror, no Facebook e na mídia, esses  pseudo artistas e professorinhas da Unicamp pertencentes à doxa atual, cães de guarda criticando Tarsila do Amaral e a Antropofagia por causa de uma suposta ‘desigualdade racial’?

“Entenda como quiser, Pedro Paulo. Arte não é a minha especialidade, mas em todos os campos a turma de idiotas é igual: sempre prefere falar do que é externo às obras artísticas ou literárias. É mais fácil. Fizeram o mesmo processo a Cioran que a Céline, pelas mesmas e execráveis razões. Para compreender o século 20 é preciso ler Proust, sim, e TAMBÉM Céline. Junto com Kafka, é o tríptico essencial. Todo o resto é tagarelice insignificante.”

“Catherine, eu sempre defendi que o entendimento de qualquer movimento de arte deve se dar longe dos processos rasteiros de cunho ideológico, você sabe. Os mesquinhos não fazem outra coisa do que descrever a si mesmos através de suas acusações. Quando falam que Tarsila tinha uma “ideologia” é da própria ideologia que estão falando, e quando falam de “cegueira ideológica” é a cegueira deles mesmos que descrevem. Reconheço a maestria de um autor, mas Céline me dá engulhos viscerais! Só de olhar o retrato dele… É quase o mesmo sentimento de repugnância que experimento ao ver a expressão e o topete de Trump, ha ha!”

“Pedro Paulo! Que comparação!!! E que incoerência! Você defende a Antropofagia e ataca Céline!!! O seu pai, que era um dos homens mais cultos do Brasil e te fez prometer que você leria certos autores nacionais e estrangeiros, coisa que você não cumpriu, teria tido vergonha da sua reação.”

“Ele teria tido vergonha de ouvir o tom e a falta de humor com o qual a minha mulher me fala! Eu li, sim, uma parte do que ele me fez prometer. Um volume de Proust, dois de Dostoievski… Também nunca ouvi muita música de Schoenberg, Alban Berg, Messiaen, Stockhausen ou Webern. Não preciso entender de tudo. Mas isso não me impede de julgar.”

Leitores e espectadores inteligentes não julgam.

“Julgar? Livros, antes de julgar sem conhecer ou compreender, é preciso LER. Mas os leitores inteligentes não julgam, eles estão além do julgamento. Diante de obras-primas, eles ficam silenciosos. Claro, eles se veem e se reconhecem no espelho que autores como Proust, Céline e Kafka lhes oferecem. É a força e a grandeza da literatura. Mas é a força e a grandeza da arte igualmente. Tão ridículos e tolos quanto os que dizem ficar ‘constrangidos diante do que existe de racial’ em Tarsila, são aqueles que dizem  ‘gostar dela” ou, pior, os que exclamam ADOOORO TARSILA!!! Não dá para aguentar… ”

“A força e a grandeza da literatura às vezes dá de cara com uma realidade que não é tão grandiosa assim. Li bastante sobre essa polêmica de publicar ou não os textos antissemitas de Céline. Pierre-André Taguieff, autor do livro “Céline contre les Juifs ou L’École de la haine” (“Céline contra os Judeus ou a Escola do Ódio”), lançado este ano aqui em Paris, disse numa entrevista que entre os esnobes e conformistas acadêmicos de esquerda e direita é de bom tom se declarar ‘céliniano’. O que significa se identificar com um pretenso ‘rebelde, vítima da inveja e do ódio dos medíocres e dos maldosos’. Essa é a imagem que o paranoico do Céline conseguiu impor à posteridade. Acho estranho você não perceber isso igualmente, Catherine.”

“Esse Pierre-André Taguieff é um asno. Ele faz parte desses pseudo-intelectuais provocadores e venenosos chamados ‘novos reacionários’ que procuram um lugar ao sol. Fica ao lado do Éric Zemmour.”

“Mas Taguieff tem um pouco de razão, não? O ‘estilo’ lava tudo: o pro nazi, o propagandista anti-judeu, o colaboracionista. Quando se possui a sorte de ter ao seu lado a Sorbonne, Gallimard, a imprensa cultural e tantos personagens mediáticos como Michel Audiard, Nicolas Sarkozy e Fabrice Luchini, tudo é possível. Uma certa França adora amar os ‘párias’ ou os ‘malditos’. É o oposto do que acontece em um certo Brasil.”

Catherine fica em silêncio. Arruma a louça no lava-pratos enquanto suspira dando de ombros como se o marido fosse um “caso perdido”. Ou talvez essa discussão fosse importante, para que os dois descobrissem no final onde é que as suas ideias, aparentemente divergentes, convergiam.

“Claro, continua Pedro Paulo, cada um tem o seu Céline: o autor da Viagem não é o mesmo da Féerie e dos panfletos. O suposto pacifista agrada alguns, o “médico dos pobres” agrada outros. Viagem ao fim da noite ou Morte a crédito têm, com razão, muitos fãs. Mas, quer saber? Pessoalmente estou pouco ligando para o talento e os fãs do senhor Louis-Ferdinand Céline. Penso que o melhor que possa acontecer à sua memória é ele ser esquecido!”

Catherine dirige-se à porta, porém antes de sair da cozinha, dispara:

“OK, Pedro Paulo, mas posso te pedir um favor? Dá para você parar de ser brasileiro – ou, pelo menos, parar de ser brasileiro pelo pior lado? Merci!


Até a próxima, que agora é hoje e é uma ironia muito grande que, no mesmo momento em que alguns “tagarelam” querendo encontrar racismo na arte, outros que lutam de verdade contra o racismo morram assassinados como a vereadora carioca Marielle Franco!

“A Negra”, Tarsila do Amaral, 1923

 

Primeiras páginas de “Morte a crédito”, de Louis-Ferdinand Céline.

 

LEIA TAMBÉM AS ANÁLISES:

 

 

“Se o potencial erótico de corpos modelados não deixa as pessoas indiferentes, isto quer dizer que elas talvez sofram de “agalmatofilia”, que é um desvio sexual bastante estranho…”; análise de Sheila Leirner

 

 

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Digamos que este artista possui a rara capacidade de provocar suspense, fascínio e curiosidade; análise de Sheila Leirner

 

 

“Todos os pais têm defeitos. Uns mais, outros menos. Porém, quando as imperfeições tornam-se destrutivas, podemos defini-las como “tóxicas.”; análise de Sheila Leirner

 

 

“Racionais e rigorosos – jamais fortuitos, aleatórios ou arbitrários – seus trabalhos são como fórmulas matemáticas com as suas soluções já embutidas nas imagens.”; análise de Sheila Leirner