Brasileiro dialoga com a arquitetura de Perret, em Paris
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Brasileiro dialoga com a arquitetura de Perret, em Paris

Sheila Leirner

26 Outubro 2017 | 10h57

Só ontem, no seu último dia, consegui ver “Porticus” do escultor brasileiro Artur Lescher, no Palais d’Iéna em Paris. Bela exposição que, entre os dias 17 e 25  deste mês, ocupou este espaço emblemático  no qual as peças – algumas fabricadas especialmente para o lugar – “dialogaram” com a arquitetura.

Vídeo de Andres Otero

Sem entrar no mérito e nas questões estéticas desta obra silenciosa e coerente que acompanho desde que Artur expôs em nossa 19a Bienal de São Paulo, em 1987, a mostra me deixou especialmente feliz. Não porque um brasileiro ocupou, no coração da cidade, espaço tão importante de Auguste Perret, arquiteto mal compreendido e mal amado pelos franceses. Não porque seus trabalhos conseguiram conversar perfeitamente com uma arquitetura prodigiosa que se quisermos entender de verdade temos que nos deslocar ao Havre, como eu fiz, para conhecer a sua história peculiar e visitar tudo que a revela.

Se estou feliz é porque a ironia do destino quis que as obras de um artista chamado Artur Lescher preenchessem o espaço de um arquiteto antissemita, anticomunista, anti-maçonaria, herdeiro direto de Le Corbusier e tão “vichysta”* quanto ele.

Me deixa especialmente contente testemunhar que um escultor brasileiro – com o rigor, a depuração e o belo acabamento das formas que desenvolve – transcende de longe o brutalismo do concreto armado de Auguste Perret. Brutalismo que inspirou até mesmo a arquitetura totalitária da União soviética nos anos 1930.

Até a próxima que agora é hoje e de vez em quando, felizmente, ainda posso me orgulhar do meu país!

* Vichysmo: doutrina empregada pelo regime de Vichy durante a ocupação nazista da França.