Apesar de Sting, Paris não é mais uma festa
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Apesar de Sting, Paris não é mais uma festa

Sheila Leirner

13 Novembro 2016 | 15h39

O ateliê de Romain Naufle situava-se a alguns passos de onde moro, a 2 km do Bataclan, casa de show em Paris. Por esta razão, desde que tinha sido aberto há seis anos, tomei o hábito de sempre parar em frente de sua vitrina, durante alguns minutos, apenas para vê-lo trabalhar. Eu não era a única. Romain, reparador e vendedor de instrumentos musicais de corda, foi um jovem lutiê querido por todos no bairro, e a sua butique, um lugar vivo, modesto e acolhedor.

À esquerda ficavam os violões, guitarras e violinos pendurados na parede. À direita, numa espécie de banco de madeira cor de mel, ele colocava as ferramentas que se pareciam com aquelas usadas pelos marceneiros. Os passantes detinham-se fascinados com os pedaços de madeira, alinhados atrás da vitrine, que um dia seriam braços de algum instrumento de corda. Ele costumava contar que uma certa “madeira africana era excelente para tocar blues”.

Hoje, nas ruas de Paris, exceto os sapateiros, é muito raro ver um artesão trabalhar. De fora, podia-se observar o seu crânio, precocemente calvo, encurvado sobre um destes instrumentos. Em 2015 ele não tinha mais do que 31 anos, mas trabalhava com a serenidade de um homem de experiência.

Amor à música e à liberdade


Romain Naufle, o apaixonado “médico dos violões”, como era chamado, estava no Bataclan para festejar com amigos e morreu no dia 13 de novembro de 2015, há exatamente um ano, crivado de balas dos terroristas que ensanguentaram Paris. Desde que a porta de ferro de sua lojinha permaneceu cerrada e cobriu-se de flores e mensagens, a nossa vida não é mais a mesma. As crianças colaram ali palavras ternas e pungentes: “obrigada pelo violão”, escreveu Candice; “você é meu companheiro”, assinou Paul. E eu não posso passar pelo número 18 daquela rua sem me lembrar que há um ano a sua calçada não era mais uma calçada e sim uma “capela ardente”.

Sinto muita falta da figura de Romain e do que ela representava em termos de amor à música, ao seu ofício e à liberdade. Até a próxima que agora é hoje e ontem à noite, dia 12, o vibrante Sting ressuscitou o gosto pela festa no Bataclan, porém não conseguiu trazer de volta a despreocupação e alegria do mundo do jovem lutiê!

Romain era um destes artesãos apaixonados que viviam da música, e pela música. Ele foi uma das 89 vítimas do Bataclan, há um ano, na sexta-feira, dia 13 de novembro (foto: Manuel DeCastro)

 

Fotos Estadão – Ataques terroristas em Paris completam 1 ano

 

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