A liberdade de expressão e a ‘Peste’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A liberdade de expressão e a ‘Peste’

Sheila Leirner

17 Outubro 2017 | 08h28

Ontem eu lia, por acaso, a crônica de uma jovem colunista deste jornal com o qual também colaboro há mais de quatro décadas. Lia com prazer e rindo bastante pois – embora o texto não pretenda alcançar grandes alturas literárias e esta não seja a minha área – ela trata da questão do machismo com graça e humor, por meio de uma escrita fina e talentosa.

 

Louis-Léopold Boilly (1761 -1845)

Fui ler os comentários esperando reações parecidas com as minhas, talvez inconscientemente na esperança de encontrar os “bons leitores” do Estadão e não os linchadores e os haters ( “Hater” é um termo usado na internet, não existe em português) a que costumo ver desbocar nos meus e em outros textos mais polêmicos dos críticos, colunistas, blogueiros e jornalistas efetivos deste órgão de imprensa.

Infeliz engano. Desde os primórdios da humanidade, tudo que é positivo também atrai o negativo. Os linchadores estavam lá a postos, proferindo as mesmas violências nascidas da ignorância, preconceito e atraso de costumes. Como sempre, falta a educação básica. Quase nenhum é capaz de escrever com propriedade e dar uma opinião lógica e decente, mesmo que seja contrária. Em um de meus últimos artigos, um deles (cujo comentário evidentemente foi deletado pelo mediador do jornal), louvou o nazismo para justificar a sua vontade de “sacar o revólver quando ouve a palavra ‘cultura’.”  Na crônica que li ontem, alguém chegou a insultar a família da articulista, o que também foi suprimido.

Opiniões divergentes sempre se aceita. Voltaire dizia: “Eu defenderei as minhas opiniões até morrer, mas darei a minha vida para que você possa defender a sua.” Inadmissíveis e deploráveis são os jorros de agressividade, racismo, incitação ao ódio e injúria quando se aborda certos assuntos “sensíveis”. Percebe-se claramente a “sede de sangue”, expressão de uma querida amiga, competente jornalista cultural, que está com muita vontade de atravessar definitivamente o oceano Atlântico. Eu a compreendo. Do jeito que estão, muitos leitores brasileiros e o país não merecem o belo trabalho que ela lhes oferece.

A vala comum, onde maus leitores e dejetos se confundem

O livro “A Peste” de Albert Camus (1913-1960), prêmio Nobel de literatura, continua atual. Já na epígrafe, que ele tirou do Robinson Crusoe de Daniel Defoe, Camus nos convida a assimilar aquela epidemia a várias analogias. Em seu sentido metafórico, portanto, o mal contagioso transmitido pelos ratos pode representar todas as pestilências, inclusive a degenerescência da política e da sociedade brasileira com os “maus leitores” de hoje.

Não importa se a estes trazemos preciosas informações, reflexões, imagens e testemunhos. Não importa o nosso esforço em compartilhar experiências e conhecimento, às vezes de muitos anos, da melhor forma que nos é possível. Sabe-se que o trabalho cultural é mal pago, mas também não importa a generosidade. Por felicidade tudo isso cai também em boas mãos como as de uma leitora que me comoveu quando comentou que, graças aos nossos textos, o mundo dela “fica maior e melhor”. Contudo, em geral, cai igualmente numa vala comum onde muitos nadam entre os dejetos dos “ratos da peste”, confundindo-se com eles.

Nos tempos da ditadura – eu que jamais pertenci a algum partido, nunca me considerei de esquerda ou de direita, tirando de cada lado o que julgava mais justo – fui pessoalmente protegida pelo Estadão contra as arbitrariedades da repressão. Até a próxima que agora é hoje, vence a liberdade e, com ela, o lado positivo do jornalismo opinativo. O único instrumento que nos permite medir o quanto estão doentes e carentes – e de que remédio precisam – a sociedade e os leitores médios brasileiros!