"Verdades pouco ditas no meio literário", por Michel Laub
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"Verdades pouco ditas no meio literário", por Michel Laub

Ricardo Lombardi

16 Março 2009 | 06h07

Circular:Sobre o crítico – Martin Amis diz que um dos problemas da crítica literária é que seu instrumento de expressão, o texto, é o mesmo usado pelo objeto de sua análise, diferentemente do que acontece na música, no cinema, nas artes plásticas, no teatro. Ou seja: ao decretar que um escritor não sabe escrever direito, o crítico no mínimo terá de fazê-lo numa prosa com algum sabor e algum brilho, o suficiente para não perder sua  autoridade e cair num certo ridículo. Para irritação dos críticos, que acham essas questões mundanas demais para serem discutidas nas esferas elevadas onde atuam, o fato é que todo escritor, ao ler uma resenha negativa de seu livro, instintivamente trata de avaliar o texto do seu algoz – e na imensa maioria dos casos, claro, chega a uma conclusão não muito lisonjeira a respeito.

 Sobre o escritor – Embora as honrosas exceções, que são em número muito menor que o anunciado, toda obra literária é autobiográfica. Não só naquele sentido geral e cômodo – “o que penso sou eu” ou “a forma como digo é como sou” –, mas diretamente mesmo: pessoas ao redor do escritor, fatos, cenas, sensações, é virtualmente impossível que isso não seja transportado, de uma forma ou de outra, com os devidos disfarces e perfumes, para dentro dos seus livros. Como esse escritor está sempre em busca de assunto, sua vida muitas vezes passa a ter uma função utilitária, num processo que John Updike definiu mais ou menos assim: até decidir se dedicar à literatura, o sujeito sofre as coisas de verdade, porque ainda tem tudo a perder; a partir do momento em que passa a ver nas experiências ruins uma possível matriz de ficção, não é muito difícil transformar “dor em mel”. Dá para acrescentar que, como ainda se acredita que esse mel será mais doce se houver mais dor, em alguns casos patéticos – juro que estou falando em tese, gente – o sofrimento passa a ser quase desejado.

 Sobre o escritor que é também crítico – Bem, aí a gente precisa se defender como pode, construindo meia dúzia de argumentos que justifiquem intelectual e moralmente as mesquinharias acima. Num ótimo ensaio que andou circulando há um ou dois anos, Zadie Smith disse algo interessante sobre T.S. Eliot, segundo quem a personalidade do autor não interessa, ou, num resumo mais grosseiro, texto e autor são inconfundíveis. Pergunta Zadie: será que Eliot não dedicou seu enorme talento para defender essa tese, entre outras razões, porque em sua biografia constava o fato de ter abandonado a própria mulher num hospício?”

(Michel Laub, lá no ótimo blog dele). Para ilustrar o post, óleo sobre tela de Serban Savu.