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Sugestão de leitura: “Itinerários extraterritoriais”, ensaio de Juan Villoro

Ricardo Lombardi

08 Setembro 2014 | 18h02

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Muito bom o ensaio “Itinerários extraterritoriais“, de Juan Villoro, publicado na mais recente edição da revista Serrote. “Vítima do exotismo e enredada no olhar multicultural, a América Latina continua sob o risco de ser representada como um parque temático”, resume o editor. Publico aqui o trecho inicial — mas reserve um tempo para ler o artigo completo, por favor:

“Em uma planície que algum dia pertenceu ao México, Walt Disney construiu seu peculiar resumo do mundo, uma cida­dela de plástico com habitantes disfarçados de ratos de fel­tro. Na Disneylândia, tudo parece honestamente artificial. Sem respeitar outra lógica que não seja a do capricho, o lugar oferece sua própria versão dos canais de Veneza, da con­quista do Oeste e das futuras epopeias no espaço cósmico. Ali a realidade está de férias: a torre Eiffel é de marzipã e os crocodilos bocejam com motor elétrico.

Os parques temáticos exploram as possibilidades fantás­ticas de um entorno conhecido. A América Latina costuma ser vista da Europa e dos Estados Unidos como uma reserva fascinante por seu atraso, pelo que preserva de um mundo primitivo, agitado, experimental, um laboratório dos exces­sos. Ali o estranho pode ser descrito como pitoresco, e pelo visto resiste às explicações racionais. As formas de represen­tação desse entorno parecem mais autênticas quando estão determinadas pela magia ou pela intuição, por procedimen­tos quase rituais em que o artista atua como um xamã teme­rário. Verdade seja dita: também nós, latino-americanos, temos dificuldade de entender ou sequer descrever os vários mundos a que chamamos de América Latina.

Se fossem combinados os esforços do arquiteto Frank Gehry, dos técnicos da Disney World e de um colegiado de antropólogos, seria possível construir um parque temático que resumisse os tópicos “latino-americanos”, com o efeito seguro de que a realidade ficasse de fora, um horizonte protegido, de uma pureza indefinida. (…)”