A entrevista com Jean Daniel (agora em português)
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A entrevista com Jean Daniel (agora em português)

Ricardo Lombardi

02 Março 2009 | 06h25

O caderno Mais! da Folha publicou a tradução daquela entrevista com Jean Daniel, diretor da Nouvel Observateur, que eu sugeri aqui. Um trecho:

PERGUNTA – Em seu livro sobre Camus, leem-se quatro diretrizes que resumem as obrigações de um jornalista: “Reconhecer o totalitarismo e denunciá-lo. Não mentir e saber admitir o que se ignora. Negar-se a dominar. Negar-se sempre, sob qualquer pretexto, a praticar qualquer tipo de despotismo, incluindo o provisório”. Quais são, para o sr., as obrigações de um jornalista hoje?
DANIEL
– A lista de Camus ainda é válida. O que é preciso acrescentar a ela? Provavelmente a capacidade de conhecer as novas armadilhas da tecnologia. Quando Camus enumerou essas obrigações, ainda não existia a televisão. E o reinado da imagem mudou tudo, incluindo a forma de escrever. Imagine um romancista que escrevesse um romance e em cada parágrafo alguém lhe dissesse que seu nível de audiência estava caindo ou subindo. Escrever em razão da reação imediata do leitor! A grande inovação que intensificou os temores enunciados por Camus é a simultaneidade, a onipresença, o fato de que, quando alguém fala, faltam segundos para que a Terra toda saiba o que diz. Isso é algo extraordinário.

PERGUNTA – O sr. diz que a ameaça à vida privada é o pior defeito do jornalismo atual.
DANIEL
– Há muita gente que pensa que a transparência é algo muito importante e que, se a vida pública se misturou à vida privada, o leitor tem o direito de conhecê-la. Há pessoas de alto nível que pensam que, se [o premiê italiano, Silvio Berlusconi mistura sua vida pública com seus interesses privados, temos o direito de conhecer detalhes desses fatos. Há pessoas que não são desonestas, mas que pensam dessa forma. E isso nos pode levar muito longe.