Vidas dispersas na timeline

Vidas dispersas na timeline

Todos os dias morrem mais de mil pessoas com perfis de Facebook. Quem for vivendo vai ver o ano em que a rede social terá mais mortos que vivos: um cemitério que não será feito de pedra e das datas de nascimento e morte, mas de todas as datas, de qualquer mínimo acontecimento

Renato Prelorentzou

19 Maio 2017 | 23h31

Sim, cheguei a conhecê-la.

Não posso dizer que fomos amigos. Mas por um tempo nos vimos nos mesmos lugares, convivemos nas mesmas mesas, como que encantados pelas mesmas pessoas.

Na noite de domingo, 15 de maio de 2016, um homem resolveu fazer coisas de homem: bebeu até cair, pegou o carro, acelerou. Invadiu a calçada de um bar onde ela estava com o marido e um amigo. Não foi acidente. Foi crime.

Nas áreas de comentário dos portais que deram a notícia, toda a perversidade obscurantista dos desconhecidos: “Bem feito”. “Mereceu”. “Não tinha nada que estar no bar”. “Se estivesse em casa com a família, ainda estaria viva”. Como se a culpa fosse da vítima. Como se a vida regrada e piedosa impossibilitasse a morte absurda. Como se o universo tivesse alguma lógica ou moral com que quisesse nos sacanear ou redimir.


No Facebook, o amparo sensato e sofrido dos conhecidos: “Por um pouco, era ela que estava lá. Por um pouco, não era qualquer um de nós”. Vamos lutar para que não seja mais ninguém. Se for dirigir, não beba. Se estiver dirigindo, não use o celular. “Não seja irresponsável. Não mate, não morra”.

Os amigos logo se uniram às muitas campanhas que não se cansam de pedir justiça e responsabilidade no trânsito. Juntaram uma grana, fizeram uma passeata para homenageá-la. Penduraram faixas e cartazes na calçada onde ela morrera. Deram abraços. Pintaram flores no asfalto.

Um velho amigo deixou no seu mural versos de uma canção que ela adorava. Depois me escreveu: poderia ter sido eu. Poderia ter sido minha namorada, poderia ter sido sua mulher.

Foi a esposa de um rapaz que só vi uma vez, há muitos anos, numa mesa de calçada a três quadras dali. O rapaz sobreviveu àquele instante. Agora o vejo falar para sempre no vídeo que ele gravou para o Movimento Maio Amarelo: “Perdi meus sonhos. Perdi meus cinquenta anos de casamento feliz. Perdi a capacidade de ser feliz. O potencial maravilhoso que ela tem para fazer o bem”. Tudo o que poderia ter acontecido. Ela tinha 32 anos.

Não, nunca cheguei a vê-lo.

Mas desde sempre seu nome e seu trabalho dominaram o mundo onde vivo.

Na madrugada da última sexta-feira, 12 de maio, ele faleceu. “Estamos em paz, ele esteve lúcido até o fim e não sofreu”. Poucas vidas parecem mais plenas e realizadas que a sua: escreveu vários dos livros mais importantes das letras brasileiras. Lecionou mundo afora. Viveu suas décadas de casamento feliz com uma mulher brilhante. Juntos criaram mais três mulheres brilhantes. Ele tinha 98 anos.

Nos necrológios da imprensa, as homenagens àquele que era o maior crítico literário brasileiro, o último dos grandes pensadores do Brasil. Com ele morre toda a delicadeza, toda a generosidade, diziam. É o fim de uma era. Mais um desamparo neste país.

No Facebook, muitos de seus leitores agradeciam o legado, diziam como a leitura de seus livros lhes fora essencial para a formação, homenageavam a vida que o grande professor dedicara à literatura, arriscavam análises sobre sua obra monumental.

Muitos outros preferiam compartilhar algo bem menos desmensurado: a foto da folha de rosto de um livro que o mestre autografara. O relato de uma vez em que o vira falar para um auditório em absoluto silêncio. “Um dia o reconheci entrando num táxi a três quadras da Paulista e fiz questão de expressar minha gratidão”. “Um dia trombei com ele nos corredores da faculdade e, de tanta vergonha, quis desaparecer”. Um momento, não foi nada. E, no entanto, parecia ser tudo o que se podia dizer.

As redes sociais são o instante: estar aqui agora. Nos acostumaram a percorrer a linha do tempo para ver o que os outros estão fazendo e falando neste exato momento, no mundo inteiro. Amanhã já é outra coisa.

Mas a internet nunca esquece. E esse acúmulo de instantes vira um registro total das coisas mais ínfimas: memes que ela curtiu, links que compartilhou, lugares que conheceu, pessoas com quem esteve alguma vez, num dia nem tão especial.

Esta semana, enquanto a timeline registrava os escândalos políticos, muitos ainda lembravam a recente morte do velho professor, um ano da morte da moça assassinada. E não é assim que se escrevem as biografias? A vida de uma pessoa no seu tempo, sua trajetória singular misturada aos grandes fatos da história.

Alguém irá se ocupar de escrever uma canônica biografia dele. A dela já está aí, escrita, fotografada, dispersa. Sua lembrança será uma história que nos vem junto com todas as outras. Sem cerimônia, sem hierarquia, sem distinguir momentos grandiosos ou mínimos, na superfície de uma tela de rolagem infinita que não paramos de ler enquanto escrevemos nossas pequenas autobiografias, o tempo todo, quase sem querer, mas para sempre.

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