Quando a política atravessa a vida

Quando a política atravessa a vida

‘A noite da espera’, mais recente romance de Milton Hatoum, primeiro volume da série ‘O lugar mais sombrio’, fala de um tema caro a nossos tempos: a tensão entre a vida pessoal e a política

Renato Prelorentzou

23 Março 2018 | 11h00

A noite da espera começa em dezembro de 1977, mas é um romance para nossos dias.

Exilado em Paris, Martim relê anotações sobre os tempos de juventude em Brasília, “cadernos, fotografias, folhas soltas, guardanapos com frases rabiscadas, cartas e diários de amigos, quase todos distantes, alguns perdidos, talvez para sempre”.

Nessa releitura, tenta reconstituir traços de sua vida desde o natal de 1967, quando a mãe anuncia o divórcio e ele então é obrigado a se mudar com o pai para a nova capital federal. É lá que, aos 16 anos, Martim vai conhecer a arte, a amizade, o amor, a política e a violência da ditadura militar.

Aí está o argumento do livro de Milton Hatoum: alguém que viveu na infância uma promessa de família feliz e país progressista de repente vê seu mundo convulsionado por uma ruptura pessoal e outra pública, a separação e o golpe militar, um trauma íntimo que se espelha no político.

A partir daí, é assim, meio sem querer, arrastado pela força das circunstâncias, que Martim faz seus primeiros amigos, entra para um grupo de teatro amador e começa a se dedicar à publicação de uma revista de arte engajada.

Ele nunca sabe muito bem o que se passa com a vida da mãe, do pai, do país. Tudo o que vê e ouve fica ecoando em sua cabeça, sem lhe criar qualquer clareza ou convicção. Vai à faculdade, às reuniões da revista, aos ensaios da peça, aos encontros políticos, mas nunca parece estar presente por inteiro, nem nos estudos, nem no amor, nem na militância.

Há sempre algo que o faz hesitar. Martim anota, mas não escreve. Estuda, mas não milita. Odeia, mas não explode. Falta alguma coisa – algo que vem de sua estranha orfandade, da sensação de abandono diante do passado e também do futuro.

“Os pesadelos, a violência e tudo que vem acontecendo na vida de muitas pessoas dão a Brasília um sentimento de destruição e morte”, Martim escreve numa carta para a mãe. “O poder, essa política destruidora, o Brasil nas mãos desses brutos ignorantes”, ele ouve de uma amiga. É um presente que arruína o futuro. Para uns poucos, a saída é luta política. Para muitos outros, resta “a raiva da impotência”. Para Martim, fica apenas a apatia.

Talvez seja isso que faz dele um personagem tão real, sintomático. “Os jovens eram como Martim, não como os amigos mais combativos e politizados que ele fez em Brasília”, Hatoum falou sobre seu protagonista numa entrevista ao El país. “É um ingênuo, imagina uma vida em uma casinha caiçara enquanto o Brasil implode”.

Às vezes, dá mesmo vontade de que a vida seja só isso, pequenina e protegida de tudo que está lá fora. E, se fosse só isso, já seria muito – muito feliz e muito triste, plena de passagens marcantes, de esperas e esperanças, todas únicas, especiais.

Mas essa ilusão de felicidade privada cobra seu preço, claro.

“Não tive pretensão de escrever ficções políticas” disse Hatoum ao Jornal Rascunho. “Mas todo ser humano é político”. Por mais que queira se alienar ou distrair, por mais que muitas vezes deseje uma casa longe de tudo, sua vida inteira está determinada pelas relações de poder, muitas vezes difusas, muitas vezes concretas, que se impõem sobre seu corpo, seus afetos e seu destino.

Essas várias formas com que o público atravessa o pessoal ocupam o centro dos melhores romances e também das maiores biografias. Porque a ficção e a não ficção falam sobretudo das possibilidades de uma pessoa e sabem que essa tensão entre o que o mundo nos causa e o que lhe causamos em resposta é a própria história acontecendo.

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