Quando a história encontra a ficção científica

Quando a história encontra a ficção científica

Lembrando clássicos da ficção científica e distópica, ‘Homo deus’ é uma narrativa provocativa e alarmante sobre futuros possíveis

Renato Prelorentzou

09 Março 2018 | 11h25

Nos últimos anos, clássicos da ficção científica e distópica de repente pareceram mais atuais que nunca, figurando entre os livros mais vendidos e adaptados para as telas. Há uma sensação difusa de que hoje vivemos num mundo imaginado décadas atrás por visionários como Orwell, Bradbury e Atwood.

Talvez não seja por acaso que as obras desses ficcionistas dividam as listas de best-sellers com livros de um historiador: Yuval Noah Harari, que, depois de estudar nosso passado em Sapiens: uma breve história da humanidade, indaga nosso futuro em Homo deus: uma breve história do amanhã.

A coincidência do interesse por esses livros se explica pela impressão de que está cada vez mais difícil separar o real do imaginário. Em inúmeras passagens de Homo deus, Harari se vê obrigado dizer: “isso pode soar como ficção científica, mas já é realidade”.

Isso porque estamos no limiar da maior revolução da história e também da biologia, diz ele. Por 4 bilhões de anos, todas as formas de vida evoluíram sob as leis da seleção natural, sujeitas à bioquímica orgânica e às condições específicas da Terra.

Mas agora a elite dos sapiens tem uma nova agenda: em sua busca por imortalidade e felicidade, ela aprimora a genética, funde o orgânico com o inorgânico, promove uma reengenharia do corpo e da mente, cria super-humanos e, assim, vai se elevando à condição de Homo deus.

Como resultado, a vida da inteligência artificial vencerá a barreira da biologia e do planeta e “assumirá formas que não podemos vislumbrar mesmo em nossos sonhos mais loucos”, diz Harari. “Afinal, esses sonhos ainda são produto da química orgânica”.

Por mais que tentemos pensar além, estamos presos aqui. “Quando pensamos no futuro, nossos horizontes ficam limitados pelas ideologias e sistemas sociais do presente”, diz Harari. “No máximo, reciclamos ocorrências passadas e pensamos nelas como futuros alternativos”. O nazismo e o comunismo do século XX servem de modelo para inúmeras distopias e “autores de ficção científica utilizam legados medievais para imaginar cavaleiros Jedi e imperadores galácticos”.

É inevitável – mas não muito evidente – que mesmo as ficções mais futuristas sejam fantasias antropocêntricas, fundadas na nossa memória e condição atual, com androides que buscam uma identidade humana ou heróis que se valem de sentimentos humanos (amor, compaixão, espiritualidade) para vencer a guerra contra máquinas ou ditaduras que querem esmagar nossa individualidade, nosso humanismo.

Mas o mais provável, diz Harari, é que, depois que cedermos nossos corpos à biotecnologia e nossa consciência aos algoritmos, nem haja humanismo para esmagar. E, mesmo que houver, as máquinas não se darão ao trabalho de esmagá-lo. Simplesmente porque o futuro não será humano.

“Muitos estudiosos tentam prever qual será o aspecto do mundo em 2100 ou em 2200. É uma perda de tempo. Qualquer previsão, para ser válida, deve levar em conta a capacidade de reengenharia das mentes humanas”, o que nos é impossível. Podemos até imaginar “o que pessoas com mentes como as nossas fariam com a biotecnologia”. Mas jamais saberemos o que mentes inorgânicas fariam.

Só dá para prever que, longe do que imagina a ficção científica escrita até aqui, nossos desejos, medos e horizontes já não estarão no centro do universo. Livros se tornarão desimportantes demais para que algum poder se incomode em queimá-los e mesmo o planeta que tentamos defender será desprezível para os seres artificiais que vão viver nas realidades virtuais e não virtuais “da vastidão do reino inorgânico”.

Acima, Rutger Hauer, o androide humanista de ‘Blade Runner’, adaptação do clássico de Philip K. Dick. Abaixo, Michael B Jordan queimando livros em ‘Fahrenheit 451’, adaptação da HBO para a distopia de Bradbury.

Neste momento, muitos escritores e escritoras mundo afora devem estar escrevendo obras de ficção científica e distópica a partir do que leram em Homo deus. Imagine o que vai acontecer quando a inteligência artificial tirar o emprego de bilhões de humanos que se tornarão economicamente inúteis, diz Harari. Imagine quando uma elite de super-humanos fundidos com tecnologia inorgânica se tornar amortal. Pense no abismo da desigualdade, nas corporações digitais, nas novas formas de discriminação e controle. Calcule o que vai restar da democracia, da moral, das religiões.

Na tentativa de projetar esses e outros cenários, muitas páginas de Homo deus se aproximam dos exercícios especulativos da ficção científica e distópica. Nisso, Harari reivindica para a história aquilo que havíamos delegado à ficção: o direito, o dever de projetar cenários e imaginar o futuro.

Pode parecer um gesto banal, mas foi isso que levou Homo deus para as mãos de líderes mundiais e os fóruns de decisão política, sob o entendimento tácito de que as narrativas sobre o futuro – venham da ficção científica ou do conhecimento histórico – podem alertar para as consequências das contradições do presente. Ainda que, para isso, essas histórias que hoje conseguimos contar sobre o amanhã precisem assumir suas limitações.

Na história que conta em Homo deus, Harari se limita a vislumbrar um horizonte de eventos de poucas décadas, até a desintegração deste mundo que inventou o humanismo, pois imagina que, a partir daí, o futuro será projetado por uma inteligência inorgânica, tornando tudo inimaginável para nós.

É assim que Harari acaba por fazer uma profecia diminuta, quase despercebida: os maiores livros de ficção científica ainda estão por ser escritos. Serão obra da geração que viverá para ver em tons mais nítidos e sombrios esse limiar do pós-humano. Mas esses livros, desimportantes para mentes inorgânicas, já nem serão ficção e, sim, história, o testemunho real do último sapiens.

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