Memória e infância

Memória e infância

Por que os pequenos e pequenas não vão se lembrar de quase nada do que viveram até hoje?

Renato Prelorentzou

09 Fevereiro 2018 | 10h21

Haroldo entra no quarto e pergunta: “Que tá fazendo?”. Sem disfarçar o orgulho e a importância do momento, Calvin responde: “Estou escrevendo minha autobiografia”. A reação de Haroldo sugere um problema: “Mas você tem só 6 anos” – querendo dizer: “ainda não viveu quase nada”. Mas, para Calvin, o problema é outro: “Tenho só uma folha de papel” – como quem diz: “não cabe tudo o que tenho para contar”.

Calvin e Haroldo, por Bill Watterson

Toda criança de 6 anos tem muita história. Basta conferir aí as fotos e vídeos do seu celular para ver a infinidade de coisas que criançada ao redor já falou e fez. Se a gente não se lembra da nossa primeira infância, não é por falta de acontecimentos memoráveis. Mas, então, por que seria?

O fenômeno da amnésia infantil é conhecido há mais de um século. Freud cunhou a expressão para descrever o fato de os adultos não guardarem quase nenhuma lembrança de quando tinham menos de 3 ou 4 anos – um esquecimento que, para ele, decorria de traumas ligados à repressão dos desejos infantis e aos conflitos edipianos, claro.


O resto da comunidade científica preferiu outra explicação: durante décadas, acreditou que essa amnésia vinha de uma simples incapacidade do cérebro infantil para gerar e armazenar memória. Mas, dos anos 1980 para cá, diversos estudos começaram a dizer o contrário.

Aos 2 anos de idade, apontaram esses estudos, a criança já consegue guardar recordações por vários meses, uma memória não-verbal, feita quase que inteiramente de imagens e sensações, cuja capacidade vai aumentando com o tempo. Aos 7 anos, ela se lembra de mais de 60% dos eventos marcantes de seu breve passado. Mas, quando a criança chega aos 8 ou 9, esse número cai para menos de 40%. É o início da amnésia infantil.

Tudo faz parte de uma reorganização geral. Nos primeiros anos, o cérebro vive um intenso processo de neurogênese, com aumentos exponenciais na quantidade de neurônios. Enquanto isso, a criança vai da palavra balbuciada ao domínio fluente da língua materna (às vezes mais de uma). Aprende a empregar pronomes pessoais e verbos no passado, ganha melhor noção do transcorrer do tempo e dos espaços. As conexões neurais vão mudando, assim como a relação com a linguagem, o mundo e a cognição.

Jamais nos esquecemos de várias coisas que aprendemos nessa época: falar, andar, correr, gostar de sorvete de morango. Mas não nos lembramos das situações, porque, à medida que se desenvolve e passa a codificar as memórias em linguagem verbal, o cérebro vai perdendo as lembranças que até então estavam codificadas na linguagem dos sentidos. Isso explica por que nossas reminiscências mais antigas são sempre flashes, gostos, cheiros, impressões, fragmentos. Por algum motivo, elas sobreviveram a essa intensa reorganização.

Aos 11 anos, a criança já apresenta níveis de amnésia infantil equivalentes aos de um adulto. Daí em diante, as memórias de infância se confundem com sonhos e fantasias, imagens que os outros nos mostram, histórias que eles nos ajudam a lembrar e a esquecer.

Aos poucos, esses retalhos e relatos de infância começam a formar um tecido maior e mais complexo: a criança domina a linguagem a ponto de construir narrativas. E, mais que isso, agora ela tem um senso de identidade pessoal, um “eu” em torno do qual compor uma autobiografia.

O começo da vida é um mistério para quem a vive. Mas é aí que se decide muito do que a gente vai ser quando crescer: os traços da nossa personalidade, as formas do nosso afeto, o que cada um sente e pensa de si e dos outros. É meio triste pensar que as crianças vão se esquecer de quase tudo que viveram até aqui. A ânsia com que sacamos o telefone para fotografar e postar e registrar cada coisa fofa, engraçada, significativa e aparentemente insignificante que elas fazem talvez seja prova do fascínio que temos pelo nosso próprio passado esquecido.

O que esses registros infinitos vão fazer com a memória das crianças de hoje ninguém sabe. O certo é que, se não cansamos de registrar passagens de sua infância, é porque achamos que, um dia, tudo isso vai lhes servir como material bruto para a história que elas aprenderão a contar sobre si mesmas, suas pequenas autobiografias futuras.

Talvez não venham a ser a autobiografia que aos 6 anos Calvin imaginou escrever se tivesse mais folhas de papel – um livro que seria extraordinariamente inventivo, imagético e maluco, iluminando partes da vida que um adulto jamais poderia enxergar. Mas, de qualquer jeito, são os registros de hoje que vão nos ajudar a lhes dizer o que foram quando pequenas e quem foram aqueles que já não estão por perto. Todo um passado que, sem poder lembrá-lo, elas só poderão imaginar.

Para Alice

 

Para outras histórias e ficções, me acompanhe no Twitter ou no Facebook 

Mais conteúdo sobre:

memórianarrativainfânciacérebro