Lições de história do maior best-seller da atualidade

Lições de história do maior best-seller da atualidade

Há anos nas listas de livros mais vendidos em todo o mundo, ‘Sapiens’ explica por que é fundamental questionar mitos e fazer perguntas difíceis

Renato Prelorentzou

02 Março 2018 | 11h09

É uma história de sucesso. Yuval Noah Harari levava a vida dando aulas sobre Cruzadas e Europa medieval numa universidade de Israel. Um belo dia, foi chamado para ministrar um curso introdutório sobre a história do mundo. Tinha uns 30 anos e mal sabia que seu curso daria origem a um dos livros mais vendidos e influentes dos nossos tempos.

Sapiens: uma breve história da humanidade também fala de uma trajetória de sucesso, pelo menos à primeira vista: a de um animal insignificante que se tornou senhor absoluto do planeta.

Os sapiens nasceram na África Oriental há uns 200 mil anos e viveram muitos milênios quietos no seu canto. Não faziam nada particularmente sofisticado, nem tinham qualquer vantagem sobre as outras espécies de humanos (sim, 100 mil anos atrás existiam pelo menos seis espécies do gênero Homo, ou seja, de humanos).

Mas, há cerca de 70 mil anos, os sapiens começaram a fazer coisas notáveis: inventaram arcos, flechas, barcos, lâmpadas a óleo e agulhas para costurar roupas quentes. Criaram religiões, mercados, moedas e estratificações sociais. Tomaram continentes inteiros. Exterminaram incontáveis espécies. Construíram impérios.

Tudo isso só aconteceu por causa da Revolução Cognitiva: os sapiens desenvolveram uma linguagem capaz de falar de coisas que não estavam presentes ou nem mesmo existiam. Hoje se sabe que muitos animais têm linguagens para descrever a realidade ao seu redor (o que lhes serve para alertar sobre presas e predadores, por exemplo). Mas o que os sapiens adquiram foi a capacidade de conceber um mundo imaginado em cima dessa realidade objetiva. O segredo dos sapiens foi a ficção.

Com sua capacidade de contar histórias, os sapiens inventaram lendas, mitos, deuses e religiões – e logo depois valores, leis, nações, dinheiros, empresas, progresso. Assim, puderam se unir em grupos cada vez maiores de indivíduos que acreditavam nas mesmas coisas e, por isso, cooperavam entre si. As histórias que imaginavam coletivamente não eram mentiras, mas sim uma “cola mítica”, um universo de coisas abstratas que lhes permitiram dominar e transformar as coisas concretas.

Isso abriu uma via expressa de evolução cultural, contornando os engarrafamentos da evolução genética”, diz Harari. Nos outros seres vivos, as mudanças significativas só ocorriam a partir da biologia, um processo que levava milênios e dependia do acaso de mutações nos genes ou de variações no meio ambiente. O Homo erectus, por exemplo, permaneceu igual por 2 milhões de anos.

Já os sapiens evoluíram rápido porque puderam transmitir informações não só pelos genes, mas pela linguagem: hábitos mais seguros, técnicas mais poderosas, formas mais abrangentes e complexas de cooperar, tudo passava nas histórias contadas de geração em geração. Não vivemos nenhuma mudança fisiológica significativa nas últimas dezenas de milhares de anos. Foi o conhecimento acumulado que revolucionou e diversificou as culturas.

A partir de então, as narrativas biológicas não foram mais suficientes para explicar o desenvolvimento do Homo sapiens. Eram necessárias narrativas históricas. E Harari conta muitas delas.

Conta como os caçadores-coletores caíram na armadilha da Revolução Agrícola. Como a revolução científica foi realizada por cientistas e também reis e exploradores. Como em pouco tempo a Europa deixou de ser um fazendão na periferia dos grandes impérios do Oriente para se tornar a dona do mundo. Como uma mudança na forma de encarar o futuro difundiu o crédito financeiro e originou o capitalismo.

Talvez Harari não as conte com todo o pormenor e precisão que os acadêmicos exigem – e talvez exatamente por isso seu livro seja tão instigante, com inúmeras sacadas e interpretações provocativas. Poderia soar apressado ou superficial se todas suas reflexões não fossem amarradas por uma lição necessária.

Essas “ordens imaginadas”, diz Harari, têm raízes tão profundas no mundo concreto e definem tanto do que somos, pensamos e desejamos que podem nos convencer de que são mais que “mitos compartilhados”.

Trata-se de uma “lei férrea da história que toda hierarquia imaginada negue suas origens ficcionais e afirme ser natural”, ou mesmo divina, como se refletisse uma “verdade cósmica eterna, e não um processo histórico causal”. Mas o fato é que a “as hierarquias sociopolíticas carecem de base lógica ou biológica – elas não passam da perpetuação de eventos ocasionais sustentados por mitos”.

É bem óbvio, mas parece cada vez mais necessário repetir: homens, brancos, ricos ou europeus não são naturalmente superiores a mulheres, negros, pobres ou índios. Não existem diferenças naturais entre os diversos grupos de sapiens. O que existem são processos históricos que produzem e reproduzem relações de poder.

Esse é um bom motivo para se estudar história. “Quanto melhor se conhece determinado período histórico, mais difícil explicar por que as coisas aconteceram de um jeito, e não de outro”, diz Harari. “Aqueles que têm um conhecimento apenas superficial tendem a se concentrar apenas na possibilidade que realmente ocorreu. Fornecem um relato exato para explicar, em retrospectiva, por que determinado resultado era inevitável”. Quem desconhece a história acaba se aferrando a esse determinismo – que pode ser bem confortável.

Mas “aqueles que têm um conhecimento mais profundo são muito mais conscientes das estradas não percorridas”, sabem que o estudo do passado nos aproxima da compreensão do que aconteceu e também do que poderia ter acontecido. “Estudamos história para ampliar nossos horizontes, entender que nossa situação presente não é natural nem inevitável e que, consequentemente, existem mais possibilidades diante de nós do que imaginamos”.

A ficção, a extraordinária ferramenta cognoscitiva que nos possibilitou cooperar e evoluir, foi utilizada também para justificar todo tipo de segregação e destruição do mundo e dos outros, em nome de um deus, de um país, de uma ideia, do progresso. Com uma clareza propícia a tempos como os nossos, Harari ensina que pensar historicamente é desmistificar essas ordens imaginadas e fazer as perguntas difíceis, desconfortáveis.

Setenta 70 mil anos depois da Revolução Cognitiva, o Homo sapiens está “prestes a se tornar um deus”, pronto para criar vidas sintéticas e burlar a própria morte. “Mas diminuímos a quantidade de sofrimento no mundo?”, Harari se pergunta. “Estamos caminhando para o desastre ecológico ou o paraíso tecnológico?”. Construímos e destruímos tudo “visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação. E existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis?

Para outras histórias e ficções, me acompanhe no Twitter ou no Facebook