Bob Dylan, um narrador

Bob Dylan, um narrador

Renato Prelorentzou

14 Outubro 2016 | 13h45

A Academia Sueca anunciou o ganhador do Nobel de Literatura. A internet não soube lidar. Foi uma infinidade de artigos, textões e tuítes sobre as ousadias, as injustiças e as incoerências da escolha. Mas a única coisa que não me saía da cabeça era um filme dos irmãos Coen.

Inside Llewyn Davis começa com um cara cantando e tocando violão em um palco escuro. Quando termina, ele diz: “Vocês já devem ter ouvido essa. Se não é nova e não envelhece, é música folk”.

O filme é de 2013 mas se passa em 1961. Conta as desventuras desse tal Llewyn Davis tentando sobreviver de sua arte no bairro nova-iorquino de Greenwich Village. Sem grana e num frio desgraçado, ele erra pelas ruas da cidade, em busca de um lugar para tocar e outro para dormir.

Nos seus descaminhos, Llewyn vai ouvindo as canções dos outros e cantando as próprias canções. Música folk. Sempre com letras que falam de soldados que voltaram da guerra, de pescadores que fizeram a vida no mar, de andarilhos que estiveram por toda parte, de amantes que partiram por rumos diferentes, para um dia voltar ou nunca mais se ver.

“Quem viaja tem muito o que contar”, disse o filósofo alemão Walter Benjamin no ensaio O narrador — um desses textos para se reler de quando em quando e para sempre. “O narrador é alguém que vem de longe”. Foi ver o mundo e voltou para dizer como é. Acaba de chegar e já está de partida. É alguém que, nos seus caminhos, vai colecionando as histórias dos outros e vivendo as próprias histórias.

Inside Llewyn Davis se encerra com o mesmo cara cantando e tocando violão, de volta ao mesmo palco escuro. Quando termina, Llewyn dá lugar a um jovem cantor. Pela voz e pela gaita, a gente sabe: quem chega à cena é Bob Dylan. Mas a letra de sua canção logo diz: “Adeus, meu amor. Vou partir de manhã cedo, qualquer dia a gente se vê”.

Nos anos seguintes, esse mesmo Dylan vai sair desse mesmo bairro de Greenwich Village para conquistar meio mundo e revolucionar a música folk. Quase sem querer, os irmãos Coen acabaram contando a história de como o folk faz uma ponte entre a tradição dos narradores antigos e o Nobel de Literatura de 2016.

bobUns dizem que é um prêmio merecido e inovador. Outros, que é a velha mania de glorificar homens brancos, que tinha gente melhor na fila, que foi jogada de marketing, que os versos de Dylan nem são tão bons assim. Podemos debater infinitamente essas e outras ousadias, injustiças e incoerências da Academia Sueca. Só não dá para dizer que Dylan não é um grande contador de histórias do nosso tempo.

Em 1936, quando escreveu O narrador, Benjamin falava de uma mudança fundamental: as histórias que os narradores antigos cantavam e recitavam em voz alta tinham dado lugar ao romance moderno, com suas palavras escritas, presas dentro de um livro. E o romance se tornou um tipo de narrativa tão poderoso que muitos o confundem com a própria ideia de literatura. Mas literatura é só romance?

Ano passado, a polêmica se deu em torno do Nobel de Svetlana Aleksiévitch, jornalista bielorrussa que escreveu sobre a guerra e o desastre de Tchernóbil. Foi uma infinidade de questionamentos: seus livros são romances? São história ou ficção? Jornalismo é literatura?

Em seu discurso de agradecimento, Svetlana rebateu: “Ouvi mais de uma vez e ainda ouço que isso não é literatura. Mas o que é literatura hoje? Quem pode responder?” A seu modo, a Academia Sueca sugere que a resposta pode ser mais complexa — e interessante — do que muitos ainda pensam.

Afinal, a literatura não é nova nem envelhece. Está viva desde sempre porque muda o tempo todo. Cada época tem seus próprios narradores e entende a literatura de seu jeito. Hoje nos surpreende que o Nobel tenha ido para um cantor pop. E o dia que for para um roteirista de cinema?

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