A verdade das mentiras de Elena Ferrante

A verdade das mentiras de Elena Ferrante

Renato Prelorentzou

06 Outubro 2016 | 22h39

Essa semana caiu uma bomba no mundo das letras. Claudio Gatti, jornalista investigativo italiano, revelou a identidade de Elena Ferrante, nome que assina a “Série Napolitana”, tetralogia que é um dos maiores fenômenos literários do momento.

(Nenhum spoiler sobre os livros. Mas alguns sobre a identidade de Elena Ferrante)

A amiga genial

Ao acabar com o mistério, Gatti talvez estivesse esperando o aplauso dos críticos e o agradecimento dos fãs. Só que não. Foi devidamente espinafrado. Por ter invadido a privacidade de Elena Ferrante. Por ter transformado esse esconde-esconde literário em uma feroz investigação policial. E, sobretudo, por ter se recusado a aceitar a opção de Ferrante pelo anonimato — mais uma prova da velha incapacidade masculina de entender que quando alguém diz não é não. E ponto.


Gatti tentou se justificar. Disse que sua descoberta é um serviço de utilidade pública para os leitores que estão aguardando o lançamento de Frantumaglia, livro que reúne fragmentos de cartas, entrevistas e relatos autobiográficos de Elena Ferrante. Nas palavras de Gatti, “são seus únicos escritos pretensamente não ficcionais”. Mas, para ele, “essas migalhas de informação foram concebidas apenas para satisfazer o apetite dos leitores por uma história pessoal que pudesse ter relação com o cenário napolitano dos romances”. É por isso que ele avisa: “Nenhum dos detalhes corresponde à vida e à trajetória” da pessoa que de fato os escreveu. “É tudo mentira.” Um dos raros artigos que defende a postura de Gatti reforça a denúncia: “Estão pedindo para os leitores pagarem 13 dólares por Frantumaglia, sem avisar que seus detalhes pertencem a uma pessoa que não existe”.

Todo esse ímpeto de acusar o caráter ficcional de uma pretensa autobiografia soa meio ridículo. Parece exigir que o código de defesa do consumidor obrigue as editoras a esclarecer o que é verdade e o que é fictício. Parece supor que inventar biografias ficcionais seja um crime, e não um pressuposto literário. Ignora que a ambiguidade entre real e ficção sempre foi um dos maiores artifícios de todo romance que se preze, desde Cervantes e Defoe.

Mas Gatti não parou por aí. Além de alertar que Elena Ferrante não existe de verdade e que seus romances não trazem nenhum traço autobiográfico da pessoa que de fato os escreveu, ele se permitiu contar a trajetória real da mãe dessa pessoa, fugitiva dos horrores do nazismo. Com mais essa indiscrição, parece ter tido a pachorra de explicar a Ferrante que aí sim estava a história que deveria ser contada. A autobiografia de uma pessoa que existiu de verdade. História verdadeiramente “baseada em fatos reais”, e não mera invenção.

Quem escreveu os romances de Elena Ferrante devia ter vários motivos para proteger seu anonimato sob um pseudônimo. Uma simples timidez. Uma legítima estratégia de marketing. Uma crítica a este nosso mundo de celebridades. Uma preguiça da imagem pública de romancista em noites de autógrafos e feiras literárias. Uma necessidade de se libertar dos estigmas do gênero “literatura para mulheres” ou do peso de seu trauma familiar. Um desejo de fugir de todo o resto e se dedicar apenas ao que de fato interessa: a escrita. Assim como a protagonista de seus romances napolitanos, Elena Ferrante fez de tudo para desaparecer. Pois o desaparecimento é uma forma de liberdade.

Mas, com técnicas de policial e ares de delator, Gatti e os sites que o publicaram parecem pensar que seu anonimato não passa de uma fraude. Como se fosse reprovável o gesto literário de alguém que inventou sob o nome Elena Ferrante não apenas um pseudônimo, mas uma “pessoa real” que dá entrevistas, escreve cartas e publica fragmentos autobiográficos. Como se fosse inadmissível que alguém tenha julgado necessário — ou mais interessante ou mais divertido — apresentar uma série de romances não como mera ficção, mas como ficção “baseada em fatos reais” da vida de uma romancista, com o detalhe de que a romancista é tão ficcional quanto seus personagens. Tudo bem que Gatti não saiba jogar esse jogo. Só não precisava ter estragado a brincadeira dos outros.

 

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