A história do mundo segundo Jorge Drexler

A história do mundo segundo Jorge Drexler

Em ‘Salvavidas de hielo’, seu último álbum, o cantor e compositor uruguaio reafirma seu talento para contar histórias

Renato Prelorentzou

13 Abril 2018 | 13h06

Lá pelo meio de sua palestra TED sobre poesia, música e identidade, Jorge Drexler se pergunta onde teria surgido a milonga, ritmo musical que seus conterrâneos acreditam ser tão próprio do Uruguai.

A verdade, diz ele, é que o padrão rítmico que lhe deu origem veio da África. No século IX, já estava na Pérsia e, no XIII, em Espanha. Centenas de anos mais tarde, viajou dali para a América e também para os Balcãs, onde se misturou à escala cigana e, depois, emigrou com judeus ucranianos até Nova York para, então, seguir com a comunidade italiana até o rio da Prata, juntando-se aí ao tango argentino e, enfim, à milonga uruguaia.

“As coisas só são puras para quem que as vê de longe”, diz Drexler. “As canções, as pessoas: quanto mais nos aproximamos delas, mais complexa fica sua identidade, mais cheia de matizes, de detalhes”, pois, desde o início do mundo, deu tempo para tudo se confundir e também diferençar. “Tão importante quanto saber de onde viemos, é entender que somos de nenhum lado de todo e de todos os lados um pouco”.

Se fosse apenas uma palestra, já seria uma lição de história necessária para estes tempos cada vez mais cindidos. Mas essas ideias estão também nas canções de Drexler, especialmente no último disco, Salvavidas de hielo.

Assim que nos pusemos de pé / começamos a migrar pela savana”, dizem os primeiros versos de “Movimiento”, música que abre o álbum. “Perseverantes, sobreviventes”, com as crianças nos ombros atravessamos desertos, geleiras, continentes. “Vamos com o pólen no vento / Estamos vivos porque estamos em movimento”.

A partir daí, Drexler trama linhas que parecem envolver toda a história do mundo. Em “Mandato”, fala dos cromossomos, jugo “poderoso mas silente” que governa cada gesto, suspiro e segundo. Em “Telefonía”, exalta os meios de comunicação, dos papiros da antiguidade aos guardanapos dos bares de hoje. Em “Silencio”, oferece o gesto de calar-se num mundo saturado de ruídos e sentidos. Em “Pongamos que hablo de Martínez”, conta a origem de sua própria carreira numa noite bêbada em Montevidéu – porque uma história só se completa quando inclui a vida de quem a conta.

Mas o mais bonito talvez seja perceber que, para contar essas histórias, Drexler se vale de uma mesma imagem: a água.

Nos primórdios da vida, “fomos a gota de água viajando no meteorito”. Hoje, somos a geração que terá de se despedir das geleiras, tema de “Despedir a los glaciares”. Já em “Salvavidas de hielo”, canção que encerra e dá nome ao disco, ouvimos dois amantes dizendo um ao outro: “Seu amor durou tanto quanto um salva-vidas de gelo”.

Boiando em seu próprio elemento, um colete salva-vidas feito de água congelada não dura para sempre, salva sua vida só por um instante. É assim que Drexler fala do adeus, do sentimento diante de algo que já não tem solução, e conta nossa relação com o planeta como uma história de amor que vai chegando ao fim.

“Num mundo doente de vontade de eternidade”, ele disse numa entrevista, “as coisas que nos mantêm à tona são efêmeras”.

Ouvindo Salvavidas de hielo, você entende que essas coisas efêmeras podem ser uma música, uma geleira, um lugar, alguém, toda a natureza, nossos detalhes, nossa identidade, aquilo que sempre julgamos eterno, o que acreditamos nos ser tão próprio e descobrimos que é também de muitos outros. Elas nos mantêm à tona por uns instantes, uns milênios antes de nos perdermos num mar daquilo de que também somos feitos: ritmos, ruídos, sentidos, migrações, cromossomos, movimentos.

Tudo isso podia ser tema para conversas sérias. Drexler preferiu fazer um punhado de músicas lindas. O bom é que dá para dançar.

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