A história de uma dor inimaginável

A história de uma dor inimaginável

‘O Pai da Menina Morta’, primeiro romance do editor Tiago Ferro, é uma investigação delirante sobre a perda e os limites da literatura

Renato Prelorentzou

06 Abril 2018 | 10h56

Você sabe, perder uma filha é a pior coisa que pode acontecer. Todo mundo sabe. E ninguém precisa perder uma filha para saber.

Tiago Ferro perdeu. E, desde o primeiro dia, viveu sua perda em praça pública. Falou sobre a morte da filha de 8 anos no Facebook, na revista Piauí e, quando passou a fase mais aguda do luto, começou a escrever O Pai da Menina Morta.

O Pai da Menina Morta, pela Editora Todavia

“Ainda faço parte deste mundo?”, o narrador se pergunta, um narrador que nem tem outro nome além de Pai da Menina Morta, sua identidade e condição definitiva. “É justo jogar na cara dessa gente a minha tragédia?”

De fato, não é um livro fácil de ler. Difícil imaginar o que foi escrevê-lo. Parece um diário, mas o tempo não avança: uma entrada marca o dia de hoje e, na seguinte, já é 1980 e depois é outono, ou domingo, ou silêncio, e depois é hoje de novo.

Os dias se confundem e se perpetuam. A missa de sétimo dia da Menina Morta “será realizada amanhã e todos os dias até a extinção da espécie humana”. As páginas vão mostrando a própria feição do delírio. Tudo está presente o tempo todo, o antes e o depois do que aconteceu, a infância lembrada do Pai e o futuro imaginado da Filha, a sensação e a vontade de estar vivo e morto: “Nunca abandona o papai, tá?”, o Pai da Menina Morta se lembra de dizer ao caminhar por uma rua movimentada. “Se essa menina morrer, eu me mato. Eu não tenho certeza se já não cometi suicídio”.

A perda é absurda, mas a realidade sempre interrompe. Você está no fundo de sua dor e alguém lhe exige: “Responda: enterrar ou cremar?” De cada interrupção resta um fragmento: memórias, fotografias, e-mails, listas de supermercado, mensagens de redes sociais, verbetes fantasiosos de uma enciclopédia digital, uma conversa, uma leitura, confissões, autorretratos, histórias sobre si e sobre os outros – filhas perdidas de Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Gilberto Gil, Eric Clapton.

E, então, assim como a vida, a escrita também se interrompe, como se sempre faltasse alguma coisa a dizer, as coisas que nunca aconteceram: “Namorados que nunca existiram, sonhos jamais sonhados, biscoitos não assados, fotos novas desbotadas”.

Nas entrevistas, Ferro diz que não está interessado em questionar os limites entre o autobiográfico e o ficcional e que, por isso, não se deve enquadrar seu livro na chamada “autoficção” – gênero que, em seus exemplos menos instigantes, acaba prescrevendo uma visada voyeurística, ansiosa só por saber se aquilo que está no romance de fato aconteceu na vida do autor.

Mas, se dá para dispensar o questionamento dos limites entre a autobiografia e a ficção, logo se impõe, mais forte, mais interessante, uma indagação sobre o laço entre escrita e experiência.

O que você lê pode não ser toda a verdade da vida de Ferro, mas o livro seria possível sem essa sua vida? Seria perdoável? A dor pode virar uma canção como Tears in heaven ou um romance como O Pai da Menina Morta, mas isso é consolo? O que Clapton e Ferro não dariam para jamais terem sentido a necessidade de criar o que criaram?

Em 1964, Italo Calvino escreveu o prefácio a uma reedição de A trilha dos ninhos de aranha, seu primeiro livro, publicado 17 anos antes. Na época, não se falava em “autoficção” e ninguém perguntou a Calvino o que havia de autobiográfico naquele romance sobre um jovem soldado da guerra de resistência partigiana. Estava claro que, para ele, a questão era outra: a experiência que talvez lhe pudesse valer a escrita de seu último livro acabou lhe servindo para escrever apenas o primeiro.

Pode ser que O Pai da Menina Morta nunca mais venha a publicar nada. Nem por isso deixo de imaginá-lo escrevendo esse seu primeiro livro para si mesmo ainda hoje, e depois no outono, ou no domingo, em silêncio, e depois hoje de novo e amanhã e todos os dias até a extinção da espécie humana. Páginas que não vamos ler – ou que leremos, cifradas, em seus próximos ensaios e posts de Facebook, nos textos que vier a sugerir e editar. Porque, não, nunca vai passar. “Você não tem cura”.

Resta, sempre, “aquilo que você não tem” e, talvez, a potência da escrita que procura dar forma a essa falta. Quase já nem se trata de literatura. Escrevendo para si a experiência de sentir todo o absurdo de tudo, o Pai da Menina Morta acaba dizendo a você, que nunca perdeu uma filha, que nunca vai perder, que não, você não consegue entender. Mas talvez possa imaginar o inimaginável na beleza crua e nunca vista das palavras mais simples que nos cercam. “Nunca abandona o papai, tá?”

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