9 verdades, 1 mentira e 13 porquês

9 verdades, 1 mentira e 13 porquês

Sobre um desafio de internet, uma série de Netflix e como as histórias podem dar início a boas conversas

Renato Prelorentzou

21 Abril 2017 | 15h39

Está aí no seu Facebook. 9 verdades e 1 mentira. Mais um desses desafios que aparecem de vez em quando nas redes sociais. Você escreve um post contando nove fatos que realmente fazem parte de sua vida e, no meio deles, esconde uma informação falsa.

A graça é confundir os amigos para que não descubram sua mentira. E, claro, tentar descobrir a mentira nos posts dos outros. Quanto mais inusitadas, absurdas e detalhadas as verdades e as mentiras, mais difícil — e divertido — distinguir uma coisa da outra.

Como sempre acontece, já tem muita gente cansada da brincadeira, dizendo que é só mais um jeito de chamar atenção e se vangloriar no Face. Talvez seja isso mesmo. Mas quem só xinga perde a chance de ver o lado bom.

Porque, nos comentários desses posts, as verdades e mentiras vão crescendo com a curiosidade, o espanto, as risadas, as lembranças e a colaboração de quem interage. A brincadeira logo vira uma conversa em que conhecidos e desconhecidos se aproximam, trocam interesses, segredos e descobertas. E não é assim que a gente conta histórias desde sempre?


Muito antes das séries, filmes e livros, as pessoas ouviam histórias em volta das fogueiras e, milênios depois, das mesas. Nessas ocasiões, não era incomum que as narrativas fossem contadas a partir de estímulos, como jogos verbais, objetos encontrados, cartas de baralho e até mesmo dados da sorte. A ideia era que cada participante da brincadeira usasse as palavras, imagens e sugestões desses estímulos como ponto de partida para contar uma história.

Essa tradição de narrar de maneira lúdica e colaborativa está na origem de algumas brincadeiras infantis, dos jogos de tabuleiro, do RPG e até dos chamados writing prompts de escrita criativa, nome que se dá aos exercícios que os escritores usam para estimular a criatividade e disparar a escrita de uma história.

E tudo isso está na origem dessas brincadeiras de Facebook. Contar 9 verdades e 1 mentira pode parecer um negócio bobo e exibicionista. Mas, no fundo, serve como estímulo para que alguém conte sua história de vida de um jeito diferente — e assim envolva os amigos numa conversa.

13ReasonsWhy

Por uma dessas coincidências do mundo, a brincadeira das 9 verdades acabou surgindo no mesmo momento em que outro assunto também inunda as redes: a série Os 13 porquês, da Netflix.

A série gira em torno de Hannah Baker, uma jovem que deixa gravados 13 lados de fita K7, cada um explicando uma das razões que a levaram ao suicídio e culpando um de seus colegas de escola. Daí vem parte do suspense que a série tenta passar: haveria alguma mentira escondida no meio das 13 verdades de Hannah?

Mas a série e a brincadeira de Facebook têm mais algo em comum. No pequeno documentário que começa logo depois dos episódios de Os 13 porquês, várias pessoas da produção contam como foi participar dessa história sobre temas tão difíceis e tão necessários.

“Nessa série não tem nada suave”, diz um ator. “É uma história feita para começar uma conversa”. Um dos produtores executivos reforça o tom: “Somos storytellers. Contamos histórias para entreter e divertir. Mas um material como este é muito sério, e a gente espera que comece um longo debate”.

Dá para ver que as intenções da série foram as mais nobres. Dá para ver também que suas falhas e irresponsabilidades são incontáveis (acho que ninguém as descreveu melhor que o crítico de cinema Pablo Villaça, aqui e aqui). Mas, se Os 13 porquês falhou como série, deu super certo como estímulo a uma conversa.

É como se série fosse um imenso post de Facebook com as 13 verdades de Hannah. Debaixo dele, uma infinidade de comentários de conhecidos e desconhecidos se aproximando para conversar sobre cyberbullying, machismo, assédio, estupro, abandono, solidão, depressão, suicídio.

Às vezes começa com uma brincadeira em volta da mesa ou na frente do computador. Outras vezes, começa com uma série problemática de Netflix. O importante é que a conversa continue.

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