‘O Rio não precisa de intervenção militar’, diz Caio Blat, vencedor do Prêmio Shell
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‘O Rio não precisa de intervenção militar’, diz Caio Blat, vencedor do Prêmio Shell

Leandro Nunes

21 Março 2018 | 02h44

Os espetáculos Refluxo e Grande Sertão: Veredas foram os vencedores do Prêmio Shell de Teatro, entregue na terça-feira, 20, no espaço Villa Vérico, na Vila Olímpia. A primeira montagem ganhou nas categorias autor, de Angela Ribeiro, e cenário, de Eric Lenate.

Apesar da dramaturgia repleta de personagens planas e tipos estridentes, a peça retrata a vida de moradores de um prédio. Na concepção, Lenate criou um elevador cenográfico que abre e fecha suas portas para a plateia, revelando os diferentes andares, com direito a alterações em colunas e detalhes do prédio, o que dá a impressão de que o mezanino no Centro Cultural Fiesp se deslocava para cima e para baixo. “Não existe cenário sem a luz de Aline Santini, sem a música de L.P. Daniel e todos que fizeram parte desse projeto”, agradeceu.

Grande Sertão: Veredas também faturou dois troféus, pela direção de Bia Lessa e a atuação de Caio Blat. A montagem adentrou o sertão de Guimarães Rosa ao narrar, em uma maratona de quase três horas, a vida e morte de Riobaldo e seu bando. “É muito bom dizer as palavras desse Brasil profundo e viver meu ofício em sua plenitude”, agradeceu o ator.

Na categoria atriz, a mera indicação para o prêmio surpreendeu Ilana Kaplan. Ela brilhou em Baixa Terapia – Uma Comédia no Divã, dirigida por Marco Antonio Pâmio e ao lado de Antonio Fagundes, Mara Carvalho, Alexandra Martins, Fábio Espósito e Bruno Fagundes. “Eu quase tive um ataque do coração”, afirmou. “É muito difícil comédia e seus humoristas serem indicados para prêmios de teatro. Talvez por uma ideia de que seja inferior”, completou a atriz que dedicou o troféu a todos os artistas do gênero.

O destaque na categoria música, dado a Marcelo Pellegrini, por Pagliacci, recordou o projeto iniciado pelo ator e palhaço Domingos Montagner, morto em setembro de 2016. O espetáculo do Grupo LaMínima foi inspirado na ópera italiana sobre uma trupe circense e fez um elogio ao circo-teatro. “Dedico ao gênio do palco e do picadeiro, que esteve com a gente em tantos trabalhos e sonhou com a gente.”

Cerimônia. Vencedores do 30º Prêmio Shell, apresentado pela atriz Cláudia Ohana FOTO: Leandro Nunes

A luz de Wagner Pinto foi celebrada na montagem Dilúvio, de Gerald Thomas. Já Ronaldo Fraga levou a estatueta pela criação dos figurinos na peça A Visita da Velha Senhora, com Denise Fraga – que ainda competia na categoria atriz. “O figurino de uma peça seria um amontoado de panos se não houvesse um ótimo time de atores para vesti-los”, disse Fraga. O espetáculo de Friedrich Dürrenmatt retrata a oferta que um senhora milionária faz a uma cidade falida. Em troca, alguém deve assassinar o homem por quem a mulher foi apaixonada.

Na categoria inovação, a turma do Grupo XIX foi premiada – tardiamente – pela ocupação na Vila Maria Zélia. Desde 2004, a companhia desenvolve sua residência artística na primeira vila operária de São Paulo, na região do Belenzinho, berço de peças como Hysteria, Hygiene e a mais recente Teorema 21. “Tudo começou com uma invasão”, disse o diretor Marcos Luiz Fernando Marques. “É uma ação que não combina com a cidade. Nosso trabalho é compartilhar.”

A cerimônia apresentada por Cláudia Ohana homenageou o ator Ney Latorraca, com quem contracenou, entre outros trabalhos, na saudosa novela Vamp. “Foram muitos personagens, espetáculos, programas e novelas’, descreveu a atriz. Grato à plateia, o ator relembrou a atriz Marília Pêra, morta em 2015. “Foi minha madrinha no teatro’, afirmou Ney.

A festa ainda teve espaço para protestos. Muitos relembraram o assassinato da vereadora Marielle Franco, morta na quarta, 14, no Rio. “Parem com essa guerra contra as drogas, contra os negros, contra as mulheres. O Rio não precisa de intervenção militar, mas de intervenção social e educação”, disse Caio Blat. A autora de Refluxo dedicou o prêmio à vereadora. “Não vão nos calar.”

 

 

Confira a lista de vencedores:

Autor

Angela Ribeiro por “Refluxo”

Munir Pedrosa e Herbert Bianchi por “Hotel Mariana”

Marcia Abreu, Grace Passô e Nadja Naira por “Preto

Newton Moreno por “Imortais

Direção

Eric Lenate por “Refluxo”

Nelson Baskerville por “Eigengrau – no escuro

Bia Lessa por “Grande sertão: veredas”

Gabriel Vilella por “Boca de Ouro

Ator

Ary Fontoura por “Num lago dourado

Sergio Guizé por “Oeste verdadeiro

Caio Blat por “Grande sertão: veredas

Daniel Warren por “Ponto de vista de um palhaço”

Atriz

Amanda Lyra por “Quarto 19”

Ilana Kaplan por “Baixa terapia, uma comédia no divã

Mel Lisboa por “Boca de ouro”

Denise Fraga por “A visita da velha senhora

Cenário

Eric Lenate por “Refluxo”

Veronica Valle e Mateus Viana por “Constelações

Marisa Bentivegna por “Enquanto ela dormia

Daniela Thomas e Felipe Tassara por “Selvageria

Figurino

Bia Pieratti, Carol Reissman e Lenin Cattai por “Pessoas brutas”

Telumi Hellen por “Esperando Godot”

Ronaldo Fraga por “A visita da velha senhora”

Fabio Namatame por “Cantando na chuva

Iluminação

Adriana Ortiz por “Monólogo público

Domingos Quintiliano por “Constelações”

Wagner Pinto por “Dilúvio

Aline Santini por “A serpente”

Música

Marcelo Pellegrini por “Pagliacci

Wagner Passos por “Fuente Ovejuna”

Gregory Slivar por “Tchekhov é um cogumelo

Egberto Gismonti por “Grande sertão: veredas”

Inovação

Mundana Companhia pela ocupação de espaços urbanos não convencionais com a adaptação do espetáculo “Na selva das cidades” de Bertold Brecht.

Teatro de Contêiner Mungunzá pelo uso arquitetônico inédito voltado para o teatro, inserido em região degradada do Centro de São Paulo.

“Grupo XIX de Teatro” pela manutenção da sede na Vila Maria Zélia, zona leste, e parceria com artistas de áreas diversas.

“Teatro do Sol” pela intensa atividade artística em diálogo direto com a plateia da zona norte.

Homenagem

Em São Paulo, o homenageado da edição 2018 será Ney Latorraca por sua performance artística e engrandecimento da cena teatral. Este ano, o ator reviveu nos palcos um de seus personagens mais queridos e marcantes nas novelas, o vampiro Vlad, no musical “Vamp”.