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Animação brasileira ‘O Menino e o Mundo’ é indicada ao Oscar 2016

O Estado de São Paulo

14 Janeiro 2016 | 11h40

Luiz Carlos Merten

E o Brasil chegou lá. Tem brasileiro na disputa do Oscar, não Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, na categoria de filme estrangeiro, mas Alê Abreu, com O Menino e o Mundo, na de animação. O longa de Alê já deu a volta ao mundo desde o Festival de Annecy de 2014. Annecy é Cannes da animação e O Menino e o Mundo ganhou o Cristal, seu prêmio mais importante. Foi a segunda vez que o Brasil ganhou o grande prêmio em Annecy – no ano anterior, foi com História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, que ‘quase’ foi selecionado para o Oscar.

Talvez prevendo a tempestade – o telefone não parou de tocar em sua produtora Filme de Papel desde que O Menino e o Mundo foi relacionado nas indicações para o prêmio da Academia -, Alê isolou-se no interior de São Paulo, sem celular. Mas acrescentou um post em sua conta do Facebook. Agradeceu a meio mundo e disse algo mais: “Nosso filme nasceu como um grito sincero, de liberdade, de amor, um grito político, latino-americano. Mas, sobretudo, um grito contra o sufoco que a grande indústria cria aos potenciais artísticos, poéticos, e de linguagem da animação. E acho que este grito ecoou onde precisava ecoar”.

oscarbr

Tomara que ecoe – O Menino e o Mundo concorre com pesos pesados da animação dos EUA. Tudo bem que Anomalisa combina os talentos de Charlie Kaufman e Duke Johnson e que Divertida Mente é da Pixar. Fontes confiáveis da internet garantem que Alê fez seu filme com cerca de US$ 500 mil. É quase nada, comparado ao orçamento da viagem pela cabeça da garota. Por mais segredo que se faça quanto aos orçamentos, nenhuma animação da Pixar sai por menos de US $ 100 milhões – e O Bom Dinossauro custou US$ 200 milhões! É a verdadeira luta de Davi e Golias. Na fase de pré-indicação, Alê dizia: “(O Menino) é a prova de que a animação brasileira existe”. Tem existido bravamente desde os tempos heroicos em que Marcos Magalhães ganhou a Palma de Ouro do curta, em Cannes, com Meow, em 1982.

O ator John Krasinski, os diretores, Ang Lee e Guillermo Del Toro e a presidente da Academia de Hollywood, Cheryl Boone Isaacs, iniciaram o anúncio pela TV, pontualmente às 5h30 (de Los Angeles), 11h30 (do Brasil). Depois de ganhar o Globo de Ouro, O Regresso, de Alejandro González Iñárritu, foi o grande vencedor, em número de indicações, incluindo melhor filme, diretor e ator (Leonardo DiCaprio). A surpresa é que, entre as 12, está a de coadjuvante para Tom Hardy, como o homem que mata o filho de DiCaprio (e o deixa para morrer). O filme oferece um relato violento de vingança. Dá de dez em Birdman, também de Iñárritu, que venceu no ano passado. A pergunta que não quer calar – o mexicano vai bisar seu grande prêmio em Hollywood?

Mad Max – Estrada da Fúria ficou em segundo, em número de indicações, com dez – incluindo filme e diretor (George Miller), mas não atriz (a espetacular Charlize Theron). Perdido em Marte, de Ridley Scott, teve sete indicações, incluindo filme, diretor e ator (Matt Damon). Spotlight – Segredos Revelados, de Tom McCarthy, ficou com seis indicações, o mesmo número de Ponte dos Espiões, de Steven Spielberg. Ponte crava dois recordes – Spielberg torna-se o produtor/diretor com maior número de indicações para filme (nove!), e uma delas inclui Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood. E o compositor John Williams conseguiu sua 50.ª indicação – 50!

De volta a O Menino e o Mundo, e à presença do Brasil na 88.ª premiação da Academia – em 28 de fevereiro, no Kodak Theatre -, vale lembrar alguns nomes (e números). O Brasil concorreu a filme estrangeiro com os irmãos Barreto – Fábio, em 1995, com O Quatrilho; Bruno, com O Que É Isso, Companheiro?, dois anos mais tarde – e com Walter Salles em 1998, com Central do Brasil, pelo qual até Fernanda Montenegro foi indicada para melhor atriz. Outro filme de Salles, Diários de Motocicleta, venceu o prêmio de canção em 2005, mas o cantor e compositor de Al Otro Lado del Río era o uruguaio Jorge Drexler. Em 2012, compositores brasileiros (Carlinhos Brown e Sérgio Mendes) concorreram a melhor canção, por Real in Rio, mas perderam para o tema do filme dos Muppets. No ano passado, um diretor brasileiro, Juliano Salgado, codirigia com Wim Wenders o documentário O Sal da Terra, sobre seu pai, o grande fotógrafo Sebastião Salgado, que disputava o prêmio da categoria. De novo, não deu.

Em 2001, Paulo Machline concorreu ao prêmio de curta com Uma História de Futebol. E não se pode esquecer de Hector Babenco. Após o sucesso internacional de Pixote, a Lei do Mais Fraco – o filme ganhou prêmios importantes nos EUA -, Babenco dirigiu, em coprodução Brasil/EUA, O Beijo da Mulher Aranha, e William Hurt venceu o Oscar de ator. Na sequência, adaptou Ironweed, do escritor William Kennedy. Jack Nicholson e Meryl Streep foram indicados para o Oscar. Não levaram, mas a reputação de grande diretor de Babenco já estava formada.

Leia mais sobre o filme.

++ Veja os outros indicados ao Oscar 2016