Wilco, em show para 800 pessoas, explora a delicadeza e fragilidade dos versos de Jeff Tweedy
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Wilco, em show para 800 pessoas, explora a delicadeza e fragilidade dos versos de Jeff Tweedy

Pedro Antunes

10 Outubro 2016 | 10h53

Depois da apresentação no Popload Festival para 7,8 mil pessoas, banda subiu ao palco do intimista Auditório Ibirapuera

Wilco no Auditório Ibirapuera (Foto: Chema Llanos / Divulgação)

Wilco no Auditório Ibirapuera (Foto: Chema Llanos / Divulgação)

“I’ve been puking.”

“Eu tenho vomitado”, canta Jeff Tweedy, vocalista e líder do Wilco, em Company In My Back, a quarta canção do segundo show consecutivo da banda em São Paulo.


Em vez de 7,8 mil cabeças a sua frente, como na noite de sábado, 8, quando Tweedy e banda se apresentaram no ótimo Popload Festival, realizado no Urban Stage, em São Paulo, eles tinham 800 fãs diante de si – o show especial foi organizado para completar os dez anos do Popload.

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A arena a céu aberto foi trocada pela acústica de tirar o chapéu do Auditório Ibirapuera, na zona sul da cidade. Ali, entre os seus, o dono da alma e o cérebro do Wilco foi capaz de mostrar sua fragilidade cantada em canções mais intimistas, vagarosas e delicadas.

Tweedy, aos 49 anos, é há quase 30 anos, com a banda Uncle Tupelo, um cantor e compositor de dores ardidas, mesmo quando ele afirma que suas canções nem sempre nascem de questões pessoais (como ele disse nessa entrevista ao Estado aqui).

Nos discos do Wilco, principalmente  na fase que vai de Being There (1996), passa por Summerteeth (1999), Yankee Hotel Foxtrot (2001), A Ghost Is Born (2004) e chega a Sky Blue Sky (2007), Tweedy entregou seu coração em frangalhos. Um sujeito quebrado, com fantasmas atrás de si, atormentado pela solidão e pela própria cabeça inquieta.

Não é por acaso que das 28 canções escolhidas para a apresentação deste domingo, 9, 18 tenham sido dessa safra de cinco álbuns (veja o setlist completo abaixo).

Isso também não significa que o restante da banda, John Stirratt (baixo e backing vocal), Glenn Kotche (bateria), Mikael Jorgensen (teclado), Nels Cline (guitarra) e Pat Sansone (guitarra, teclados e até xilofone), tenha deixado de entregar uma performance vigorosa.

Pelo contrário.

Wilco no Auditório Ibirapuera (Foto: Chema Llanos / Divulgação)

Wilco no Auditório Ibirapuera (Foto: Chema Llanos / Divulgação)

A acústica privilegiada do espaço proporcionava àqueles que conseguiram os ingressos disputados a tapa a ouvir cada pequeno detalhe das intrincadas e bem construídas harmonias dessas quase 30 canções. Sim, era possível ouvir Sansone batucar singelamente seu xilofone, de costas para o restante da banda no palco, enquanto os outros cinco integrantes martelavam seus instrumentos com vontade.

O Wilco não é só Tweedy, e isso já ficou claro faz muito tempo. Com essa formação estabelecida desde 2004, a banda também já não se prende ao gênero de alt-country, como foi rotulada logo que Tweedy e Stirratt fundaram o grupo, com a dissidência do Uncle Tupelo. Passaram por um  power pop rebuscado e, hoje, como pode ser ouvido nos álbuns mais recentes, os bons Star Wars (2015) e Schmilco (2016), eles vão para onde suas canções mandarem. Aderiram às inspirações jazzísticas de liberdade sonora e entregam músicas repletas de improbabilidades.

No palco, Tweedy divide protagonismo com a guitarra de Cline, um indie-guitar-hero moderno que não se contenta em criar ruídos somente com seu(s) instrumento(s). Com uma mão nas cordas da guitarra, outra nos aparelhos de efeito dispostos ao seu lado e um pé numa pedaleira, ele produz sozinho sons de outro mundo.

Num ambiente mais pomposo como o Auditório, o público se manteve sentado e com aplausos apenas ao fim de cada canção por muito tempo. Até mesmo Tweedy pediu por mais bagunça. “Vocês não precisam se comportar assim”, disse ele, ao microfone antes de Impossible Germany, canção de Sky Blue Sky.

É costumeiramente o grande momento de Cline. E assim foi mais uma vez. E foi melhor do que o que foi visto na noite anterior. Com a guitarra, Cline prendeu aquelas 800 pessoas em uma cápsula temporal na qual minutos e segundos deixaram de correr e tudo entrou em transe. Por um tempo impossível de determinar, ele esmigalhou o instrumento com destreza, enquanto contorcia o próprio corpo, a dançar com as melodias criadas por ele mesmo. Ao fim da canção, os 800 assentos do Auditório estava sem as respectivas bundas coladas neles. Todos em pé, ovacionando o músico. “Esse é o público brasileiro que conheci ontem”, brincou Tweedy, com um sorriso no rosto.

Não muito depois, o baterista Kotche, outro que brilha intensamente no show o tempo todo, levantou-se e pediu para que o público fizesse o mesmo. Muitos desceram as escadas e se amontoaram em frente ao palco do Wilco, outros permaneceram nos seus lugares, mas se mantiveram em pé. Ninguém mais sentou.

Wilco, dia 2 ❤️️

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Tweedy conversou bastante com o público, soltou piadas e educadamente negou os pedidos de músicas feitos pelos fãs. “Provavelmente vamos embora sem tocar algumas músicas”, disse ele. “Mas é porque temos um milhão de canções e as pessoas não parecem concordar sobre quais são as melhores. Essa aqui, as pessoas costumam gostar bastante”, disse, antes de dar início a Heavy Metal Drummer, do clássico Yankee Hotel Foxtrot.

O vocalista também pediu desculpas por estar avoado naquela noite. Em algumas horas, começaria um novo debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton e Donald Trump. “E isso tem me atormentado”, explicou. Seguiu-se uma tentativa de gritos de “Fora, Temer” por parte do público paulistano. “Sei que vocês têm problemas aqui também. Mas estamos aqui reunidos pela música e isso é bonito. Só queria mesmo dizer que estou com essa bola laranja ocupando o fundo da minha cabeça.” A bola laranja era Trump.

“É uma pena que estamos indo embora, mas voltaremos em breve. Não demoraremos 11 anos de novo”, disse Tweedy. “Voltem no próximo mês!”, gritou um fã. “Se você conseguir organizar tudo, é claro! Mas provavelmente será um caro.” Todos riem da piada – mas certamente sentiram uma pontinha de tristeza por saber que, infelizmente, o Wilco não passará um novo fim de semana em São Paulo tão cedo. 

Por conta do espaço mais intimista, Tweedy foi capaz de mostrar canções mais singelas e menos carregadas de distorções. Kamera, Radio Cure e Reservations, trio melancólico do Yankee Hotel Foxtrot, e Hate it Here, de Sky Blue Sky, foram algumas delas.

Wilco, parte 2.1 ❤️️

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Com o público cantando junto com ele, o músico abre as portas do seu mundo sem reservas. Deixa todos entrarem nesse universo sombrio no qual seus  versos habitam, onde ele se transforma num sujeito de coração partido, olhos marejados por lágrimas e cabelos ao vento enquanto dirige em alta velocidade para lugar nenhum.

Tweedy gosta de se distanciar da persona criada para narrar essas canções cinzentas. Nem sempre consegue.

“I’ve been puking”, o verso que abre esse texto, é real.

Jeff Tweedy, que já precisou lidar com seu vício em medicamentos prescritos, sente ânsia de vômito todas as vezes em que se vê em uma situação tensa e precisa correr para a privada mais próxima e colocar o que tem dentro de seu estômago para fora.

Setlist da apresentação:

Via Chicago

If I Ever Was a Child

Cry All Day

Company in My Back

I Am Trying to Break Your Heart

Kamera

You Are My Face

Misunderstood

Someone to Lose

Radio Cure

Bull Black Nova

Reservations

Impossible Germany

Whole Love

Passenger Side

Locator

We Aren’t the World (Safety Girl)

Box Full of Letters

Heavy Metal Drummer

I’m the Man Who Loves You

Hummingbird

The Late Greats

Primeiro bis:

Jesus, Etc.

Hate It Here

I’m Always in Love

Random Name Generator

Spiders (Kidsmoke)

Segundo bis:

I’m a Wheel