Um dia de crítico musical: Tim Bernardes, d’O Terno, resenha o show do Fleet Foxes
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Um dia de crítico musical: Tim Bernardes, d’O Terno, resenha o show do Fleet Foxes

Pedro Antunes

09 Agosto 2017 | 10h09

O Terno está em Nova York para dois shows. O primeiro ocorreu no último domingo, 6, no Nublu, com participação de Liniker e os Caramelows. O segundo será realizado nesta quinta, 10, no lendário Lincoln Center. Em ambos, a participação da banda paulistana, cujo último disco se chama Melhor do que Parece, integra a programação do festival Brazil Summerfest.

Tim Bernardes, vocalista e guitarrista da banda, descobriu um apresentação do Fleet Foxes durante a estadia do grupo por NY e quis vivenciar o outro lado. Na noite de 2 de agosto, no Prospect Park, no Brooklyn, ele não era Tim, o artista. Era Tim, o crítico musical.

O Terno, em NY

+ Leia mais: há dois anos, Tim Bernardes e Guilherme D’Almeida resenharam o show de Mac Demarco, em São Paulo

Em tempo, no próximo dia 11, sexta, o Tim ainda faz um show solo (vem disco novo logo mais!) no Joe’s Pub, localizado na icônica Lafayette St.

Abaixo, as impressões de Tim Bernardes sobre o show do Fleet Foxes, cujo novo disco, o ótimo Crack-Up, foi lançado há poucos dias.

Fleet Foxes no Prospect Park
(Brooklyn, NY, 2 de Agosto de 2017)

por Tim Bernardes, d’O Terno

Meus amigos mais próximos sabem que são raras as bandas atuais que eu realmente amo e idolatro como é o caso dos Fleet Foxes. Pra um garoto que cresceu apaixonado por bandas e artistas dos anos 1960 e 1970, ser fisgado com a mesma potência por essa banda americana de Seattle, formada pra lá do ano 2000, é especialmente empolgante (pós-formação retrô, enfim viver a própria época!).

Os Fleet Foxes são um fenômeno interessante no indie atual. Numa cena de muita efemeridade, modismos, excentricidades, pose e superficialidade, eles construíram em poucos anos um público enorme com seu folk de letras existencialmente profundas, melodias maravilhosas e arranjos emocionantes.

Quando soubemos do show dos Fleet Foxes na mesma semana que estaríamos em Nova York para tocar com O Terno, logo garantimos os ingressos e fomos para o Prospect Park, no Brooklyn, assistir à apresentação da banda.

O local era uma antiga concha acústica no parque que já há algumas décadas recebe muitos grandes shows a céu aberto nos verões nova-iorquinos. Hoje, sob a concha, um enorme palco, moderno e bem equipado, foi armado para entregar um potente som para as mais de 5 mil pessoas que o espaço pode abrigar.

Então pensem nisso: os Fleet Foxes, banda de canção-folk-progressiva, com arranjos meio eruditos, meio emoção pura, de fora do mainstream, estavam ali esgotando ingressos de 50 a 150 dólares, em duas noites de parque lotado de gente atenta (mais de 10 mil pessoas, somando os dois shows), assistindo ao show de olhos brilhando.

Também não era por menos. Crack-Up, terceiro disco da banda, quebra o hiato de seis anos no qual ela se encontrava desde Helplessness Blues, o excelente álbum de 2011. Os fãs – eu incluído – já estavam desacreditados de que a banda fosse voltar algum dia.

Show do @fleetfoxes porraaaaa! EMOssaum!!! #oterno #fleetfoxes #ny

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Robin Pecknold, o cantor e compositor que lidera o projeto, sumiu dos palcos e da vida pública desde então, num processo interno e contrário ao movimento que a cena e o sucesso da banda lhe propunham. Nesse tempo, o compositor se mudou de Seattle para Nova York, onde voltou para a faculdade de música e se dedicou a outras atividades.

Chegar de volta, de repente, com esse disco que é uma pedrada sublime, foi uma volta comovente daquelas que só O Portão, do Roberto Carlos, sabe explicar. Esses dois shows foram os primeiros desta nova fase, na cidade onde ele morou nesse meio tempo, e onde parte do disco foi gravada.

Com esse ânimo e carga emocional a plateia recebeu, com o sol se pondo, o show nesta quarta, dia 2 de agosto. Um quarteto de metais (dois trompetes e dois trombones) – o mesmo que gravou Crack-Up – entrou sozinho e começou a introdução para a primeira música, feita especialmente para o show.

Fleet Foxes por O Terno

Os Fleet Foxes entraram aplaudidíssimos e se juntaram ao naipe para começar o show com as três primeiras músicas do novo disco: “I Am All That I Need”, “Arroyo Seco” e “Thumbprint Scar”. “Cassius, –” e “Naiads, Cassadies” vieram emendadas.

Impressionante como a banda bombardeia a plateia com uma potência sonora chocante; dez músicos jogando uma parede sonora sobre o público. Ao mesmo tempo, quanta beleza e minúcia melódica existem em cada detalhe do som que a banda constrói…

O show foi música boa de cabo a rabo, com duas horas de duração, e ainda teve hit que ficou de fora do set list. “Grown Ocean”, single que encerrava o segundo disco e de alguma forma anunciava o possível hiato da banda que logo se concretizou, foi dos momentos mais emocionantes do show, ainda no início do set.

As pessoas cantavam comovidas todas as letras a plenos pulmões. Era também bonito de ver o silêncio e a atenção de todos entre as músicas. Pessoas da plateia (com quem Robin conversava quase como se estivessem numa casa de show para 50 pessoas e não num parque lotado) às vezes gritavam pedidos de músicas ou frases carinhosas para receber a banda de volta.

A mixagem do som no P.A. por vezes deixava a desejar quando a banda crescia a pontos que engoliam o volume da voz, o que não deixava de destacar a dinâmica da banda e a beleza dos volumes mais baixos. Destacaram-se, também, os momentos em que a banda saiu do palco deixando apenas Robin para cantar algumas músicas só voz e violão.

Isso não é linguagem jornalística, mas esse mano canta para caralho (nota do blog: hahaha, sim!). Os reverbs maravilhosos, marca da banda, estavam brilhando ali, engrandecendo o som das vozes e deixando tudo daquele jeito sagrado e dos anjos bem como a gente gosta quando ouve discos do Clube da Esquina.

O show é um espetáculo impecável: cenografia, luz, som, projeções, roadies completamente ninja e ensaiadíssimos nas diversas trocas de guitarras (comentário de guitarrista: uma mais velha e maravilhosa que a outra, show à parte).

A plateia estava muito inteira e entregue à música. Era divertido ver grupos de patricinhas americanas cantando canções de oito minutos lado a lado com grupos de meninos hipsters de NY que fariam qualquer hipster de São Paulo parecer um escoteirinho careta. Enfim, bonito de ver como uma banda que constrói sua música e seu trabalho com carinho, esmero e amor acaba gerando uma audiência especialmente carinhosa e musical.

Depois de uma bela seleção de músicas de toda discografia, os Fleet Foxes encerraram o bis com a complexa e exuberante faixa-título, “Crack Up”, que fecha também o novo álbum. Inclusive, acho que esse é um bom jeito de definir o som dos Fleet Foxes hoje: complexo e exuberante.

Fleet Foxes por Gabriel Basile

Nesse nosso momento e geração como jovens no século 21, no qual tudo está muitas vezes no registro do superficial, rápido, raso, polarizado e simplificado, os Fleet Foxes estão soando e falando nessa complexidade do que se sente no meio de tudo isso. E de uma maneira tão profunda quanto lindamente assimilável.

Os Fleet Foxes e a multidão que os acompanha mostram que estão aí pra ficar. Que nossa geração não é simplesmente “millenium e líquida”, que existe muita complexidade e beleza nos sentimentos, sonhos e vontades desse pessoal que está amadurecendo nesse tempo maluco e conectado, tentando criar o próprio rumo e uma própria história no meio de tudo isso.

Robin Pecknold comunica muito disso muito bem, e não é pouca gente se identificando. Bonito de ver; são os maiores.