Tribalistas voltam depois de 15 anos – e o presente, o hoje, é bem menos animador do que 2002
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Tribalistas voltam depois de 15 anos – e o presente, o hoje, é bem menos animador do que 2002

Pedro Antunes

25 Agosto 2017 | 00h15

Segundo disco do trio formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown chega às plataformas nesta sexta-feira, 25

Tribalistas (Foto: Fábio Motta)

O teste é interessante e válido. A partir do primeiro minuto desta sexta-feira, 25, chegou às plataformas o novo disco dos Tribalistas. Ouça, contudo, o primeiro álbum do trio formado por Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, lançado em 2002, antes de cair no segundo trabalho deles.

E, então, volte a esse texto.

Percebe o impacto da transformação? Os Tribalistas de 15 anos atrás vislumbravam um mundo mais colorido. Cantavam, no fim daquele álbum, como os “saudosistas do futuro”.

A partir do novo Tribalistas, o disco, o caminho é perigoso. Atormentado. Claustrofóbico. O futuro promissor se tornou sombrio.

É inevitável. O artista, como comunicador, filtra o exterior. E o que vomita, no formato de música, é apenas o retrato, o reflexo daquilo que se vive. 

 “Tudo o que compomos é o resultado de conversas que temos entre nós”, explica Marisa Monte, ao blog, em entrevista realizada em um hotel de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Ela continua: “Não é que planejamos os temas. Mas isso são diálogos. Algo que estamos todos vendo. E são essas coisas que nos levam a escrever. Fazem parte da nossa relação. Das nossas vivências.”

Tribalistas (o segundo disco, que a partir de agora será chamado de Tribalistas 2 para evitar confusões) é mais um retrato, tal qual foi o primeiro álbum. Se cantavam sobre saber namorar em 2002, agora, as três vozes se misturam e se conectam a respeito de um mundo muito mais perturbado.

Diáspora (que pode ser ouvida no player acima) é um grito. Um desespero sobre os muros erguidos para separar o mundo. “Vivemos o fim do muro de Berlim”, analisa Arnaldo Antunes, sobre a queda da parede erguida para separar as cidade de Berlim e dividia, metaforicamente, o mundo entre os aliados dos Estados Unidos e da União Soviética.

E são vários os gritos de ajuda em Tribalistas 2.

Diáspora, faixa que abre o álbum, pede pelo fim dos limites. “Temos o sonho de sermos todos cidadãos do mundo”, diz Arnaldo – que não tem qualquer vínculo de parentesco com esse que aqui escreve, é bom dizer.

As ocupações nas escolas inspira Lutar e Vencer, uma canção direta, que diz a que veio. “Não temos líderes”, clama o trio. Há, na canção contestadora, um pedido pelas revoluções. Pequenas ou enormes.

Tribalistas (Foto: Fábio Motta)

Vive-se num mundo “binário”, como diz Marisa. “Mas não é bem assim que as coisas funcionam”, ela diz. Daí, desse cotidiano de extremos, contra o tal “nós versus eles”, nasce Um Só. No discurso, os Tribalistas clamam pela aceitação.

“É um disco de amor!”, exclama Brown.

E de fato é. Até quando Tribalistas 2 é mais agudo, sua mensagem é clara. Somos, como eles dizem, um só.

São três temáticas principais aqui. O “nós”, sobre questões coletivas, o “eu”, com mensagens a respeito de quem somos, como a a balada Ânima, e o “dois”, que descaradamente trata do sentimento colorido que é amar.

Feliz e Saudável é uma grande canção dessa última parte da tríade temática de Tribalistas 2. Separa-se da dor e, livre, aceita o fim do relacionamento. O tempo, às vezes, é nosso amigo. E ele, com seu passar irrefreável, às vezes é bom.

Tribalistas 2 foi, como Tribalistas 1, um disco de surpresa. Com um live de Facebook, Carlinhos, Arnaldo e Marisa confirmaram o que era só rumor: os Tribalistas estão de volta, 15 anos depois. Tal qual ocorreu no primeiro lançamento do trio, não há previsão de turnê.

O mundo pode não ser o mesmo. Nem mesmo a ferramenta de transmitir um vídeo ao vivo pelo Facebook existia, veja só.

Fruto desse mundo de hoje, Tribalistas 2 é um canto.

Sobre o hoje.

E, infelizmente, o hoje e grande parte do disco pede por ajuda.

Ouça ‘Tribalistas’, o novo disco de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown: