Rafael Ops, em seu primeiro disco solo, manda a real: não, não tá tudo bem; ouça
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Rafael Ops, em seu primeiro disco solo, manda a real: não, não tá tudo bem; ouça

Pedro Antunes

24 Outubro 2017 | 09h25

“Tá tudo bem.”
É o que eu sempre digo.
Repito quase como um mantra
Algo para internalizar as questões corriqueiras, que não merecem preocupação.
Mas dizer isso olhar para o umbigo demais, não é?
Esquecer do resto do mundo.
A verdade é: não tá tudo tão bem assim.

Rafael Ops (Foto: Diego Bresani)

O tapa de realidade vem com Rafael Ops, ou somente Ops, artista, DJ e agitador cultural de Brasília, com seu disco de estreia, lançado com exclusividade aqui no blog Outra Coisa.

Não Tá Tudo Bem – o título pinçado de uma das músicas mais afiadas do trabalho – inicia o processo de “nãotátudobenzação” proposto por ele no álbum já no título.

E a verdade é que não está, mesmo.

Ops não pisa no freio, sem se apazigua ao apontar as feridas abertas, seja no consumismo (em A Sua Culpa), na apatia intelectual (em O Seu Remédio), sobre o aquecimento global (em Sobre o Fim do Mundo) e sobre a intolerância religiosa (em Não Tá Tudo Bem).

Os temas estão aí, no nosso entorno. O que Ops faz é abrir a cachola de quem o ouve e o coloca para pensar um bocado. O pessimismo é inerente e inevitável, mas não absoluto. Nem maniqueísta demais.

O álbum sugere o seguinte movimento: pare, pense, respire, dance, transpire. Em looping.

Rafael Ops (Foto: Diego Bresani)

As canções se constróem a partir das experiências sonoras acumuladas pelo artista ao longo da vida. Fora da caixinha, Ops ergue suas canções sobre bases de zouk e reggaeton.

Tum, tá tá, tum tá tá. 

E, com isso, dá um nó. Ué, é para dançar ou para pensar? As duas coisas andam juntas. Em sua estreia solo, Ops abre sua caixa de surpresas. Vomita seus versos feridos. Espalha-os e alonga-os nos beats acelerados. Deixa as fórmulas de lado.

Até o amor é descontruído. Reconstruído, reerguido. Neste caso, para o bem. Destrói o patriarcado vigente com sagacidade ao inverter os valores ultrapassados. É ele, o esposo, quem espera pela esposa em csa. Submisso, como um cão.

Pontaço para Ops.

Assista ao vídeo:

E Ops lança uma dobradinha aqui no Outra Coisa. Além do disco, que pode ser ouvido no player disponível fim do texto, lança também o clipe de Sobre o Céu, a canção responsável por encerrar o álbum.

No vídeo, um drone segue lentamente se aproximando de um prédio, de uma janela. Nela, Ops dança desengonçado, nosso Thom Yorke brasileiro. Confira – e repare nas últimas palavras ditas ao fim da música.

Quando flautas já adocicam o final da canção e do disco, surge uma voz:

“Amor. Somente o amor”.

É é o fim do ciclo, em um disco de 28 minutos.

Abre-se com “Olha a sua volta /Tem alguém aí?”, da primeira faixa A Sua Culpa. Uma experiência de tirar o olhar do próprio umbigo um pouco. 

E, no final de tudo, está o amor.

É a chave. A única solução possível.
É, não está tudo bem. Infelizmente.
Mas há uma saída.

Ouça o disco completo de Ops, Não Tá Tudo Bem: