Psicodália 2018: Luiz Gabriel Lopes faz colcha de retalhos dos seus ‘moments’ do festival
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Psicodália 2018: Luiz Gabriel Lopes faz colcha de retalhos dos seus ‘moments’ do festival

Pedro Antunes

22 Fevereiro 2018 | 01h17

Artista instigante e sempre atuante na cena independente, em Belo Horizonte e em todos os cantos do País, Luiz Gabriel Lopes esteve presente na edição 2018 do festival Psicodália, com sua banda Graveola,  entre os dias 9 e 14 deste mês.

Luiz Gabriel Lopes, do Graveola (Foto: José Tramontin)

Realizado em uma fazenda de 500 mil metros quadrados em Rio Negrinho, em Santa Catarina,  o Psicodália tem história no circuito alternativo desde 2006 como um festival multicultural, com shows, oficinas, teatro e cinema.

Entre as atrações deste ano, estavam Zé Ramalho, Jorge Ben Jor, Arribo Barnabé, Lô Borges, Tutti Frutti, Francisco, El Hombre, Bixiga 70, Mundo Livre S/A, Tulipa Ruiz, Daniel Groove, Ema Stoned, Ventre, Beach Combers, Carne Doce, Boogarins, Graveola (é claro) e mais um monte de artista massa.

Na volta para casa, Lopes passou a escrever suas memórias sobre a estadia no Psicodália, momentos pessoais, êxtases e muitas coisas lindas que viu por lá. Ele iria publicar o texto no Facebook, mas perguntou ao blog se poderia mandá-lo para cá. E seus “moments”, como ele mesmo diz, são muito bem-vindos.

Graveola (Foto: José Tramontin)

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O Luiz Gabriel Lopes, além do trabalho com o Graveola, tem um lindo percurso como artista solo. Em agosto do ano passado, ele lançou Mana, seu terceiro disco, um álbum de encontros, de distâncias percorridas, de vivências intensas. O disco pode ser ouvido abaixo:

+++ Luiz Gabriel Lopes, do Graveola, lança o disco Maná, um álbum de experiências e vivências

No fim de semana de 17 e 18 de fevereiro, Luiz Gabriel lançou Mana no MAM, em São Paulo, e logo mais voltará a cidade para um show no Sesc – logo que tivermos mais informações, atualizamos aqui.

Coletânea de ‘moments’ do Psicodália
Por Luiz Gabriel Lopes 

Milhões de reflexões brotam em caleidoscópio na minha mente cansada & feliz enquanto tento processar a crazy sensation de ter sido abduzido do meio da última festa da Rádio Kombi, cujo baile, aliás, estava uma uva, direto para uma sequência de sincronias que me trouxe são e salvo (e no horário!) até o busão da Viação Cometa, onde nesse momento me dirijo de volta pra São Paulo, ao lado da minha querida parceirinha de aventuras  ~Luiza Brina~ que ronca ao lado de maneira amável.

Sim, é difícil começar do começo, mas façamos esse esforço. Como diz a canção: “tudo começou há um tempo atrás”.

Já faz uns anos que insistentemente marcavam o Graveola em posts de um tal festival de ares psicodélicos que acontecia no sul do Brasil, durante o carnaval. “Pô, vocês tem que tocar aqui, venham para o festival”, era o que sempre nos diziam.

Eis que vários caminhos cruzados finalmente nos levaram ao match final & finalmente fechamos o show pra domingo de Carnaval. Ihuuuu! Sim, a gente já ouvia falar muito da atmosfera mítica e libertária do rolê, um revival setentista despudorado que além de produzir um mapa curatorial finíssimo e diverso da música brasileira atual, atravessado – mas não limitado – pelos amplos reflexos dessa vibe, proporciona também um mergulho imersivo num ambiente regido por leis suficientemente utópicas no que tange ao campo amplo da #vivência.

Público durante o show do Graveola, no Psicodália (Foto: José Tramontin)

Tudo sem extremismo: tem a rootzera do acampamento no mato & com chuva mas tem banho quente pra quem quiser; tem expansores conscienciais a rodo sim, mas é good vibe, familiar & baby friendly; tem vegetarianismo, mas tem opções pra quem come carne; não pega celular nem internet direito mas se precisar tem uma tendinha lá com um wi-fi para comunicações básicas; tudo numa costura sutil e harmônica, conduzido por uma equipe incrível com a doçura de quem faz as coisas por puro tesão.

Aliás, a equipe do festival, essa merece um ~alerta de highlight~ pois realmente eu nunca tinha tocado num festival no Brasil com esse grau de profissionalismo relaxado, galera curtindo diboas e fazendo tudo acontecer sem stress e com elegância e maestria técnica & logística.

Não teve pressão nem pagação de pau em momento nenhum, foi tudo um axé infinito e isso me impressiona particularmente em comparação com um cenário onde muitas vezes ser o artista do meio do cartaz num festival é sinônimo de abandono da produção e até um certo desprezo. Aquele lance meio mistura de fila do INSS com “tô te fazendo um favor”.

Público do Psicodália (Foto: Ana Quesado)

Nesse quesito, o Psicodália brilha reluzente e absoluto pelo contraponto oposto, na qualidade do atendimento ao artista, sem luxo (pois de fato exige um grau de ~ser roots~) mas com muita classe e astral. A luminosa sensação de ser bem-vindo, bem-quisto, bem-tratado.

Subimos pra tocar às 2h20 da manhã da madrugada de domingo pra segunda, e foi um lance maluco. Não passamos som, fizemos um checkline de 30 minutos. A equipe de palco era bem grande e atenta, desembolando lindamente. Galera do som foi impecável, fiquei impressionado com a qualidade dos sistemas, tanto de monitor quanto de palco, alto nível. Outro highlight que tem que mencionar é o trampo cenográfico e de design de luz dos palcos muito foda e fundamental para compôr a parada toda. E detalhe que nego leva todo esse equipa pro meio de uma fazenda no interior de Santa Catarina. Ou seja, #missão

Em termos de vibe, nosso show foi muito impactante. Galera muito aberta, muito linda. E, aliás, todos os outros shows que eu vi também foram. Isso porque rola um acolhimento lisérgico muito fraterno por parte do público: as pessoas não estão ali pra julgar, mas pra se jogar de corpo e alma. Rola uma confiança muito forte na curadoria. Pode ir sem medo que não vai ter som ruim, vai na fé. Daí a resultante é aquela agradável soma de fã que já conhece o trampo astralizando com conhecimento de causa & cantando (gritando) junto, mais uma massa de gente louca afim de curtir seus best moments. Uma resposta imediata muito calorosa e gostosa de sentir.

Muitos retornos positivos depois do show, galera vindo conversar e querendo compartilhar a experiência, muita gente dizendo que esperava há anos pra ver o Graveola no Psicodalia – sim, porque um perfil muito comum de público é aquele que vai todos os anos, há anos. Rola essa onda tribal, real oficial. #Intrigante, #instigante um rolê #comunidade mesmo.

Escoteiro fajuto que sou, tive algum trabalho com questões básicas tipo ~não deixar a barraca ser inundada~ e acabei perdendo alguns shows por estar garrado nessa função, mas a parte boa é que rola um sistema de som integrado: a maravilhosa ~Rádio Kombi~, que além de transmitir os shows tem uma programação musical lindassa & recadinhos astrais & entrevistas & aquele gostoso sabor radiofônico de se sentir ligado a uma comunidade pelos falantes do acampamento.

Público do Psicodália (Foto: Ana Quesado)

Daí o show do Zé Ramalhopor exemplo, eu perdi, pois estava justamente me engalfinhando com lonas e varetas da barraca, mas ouvi de longe e cantei todos os greatest hits com emoção e vigor. No fluxo contínuo da errância pelo pasto enlameado, junto dos migue ou sozinhão pela quebrada, assisti também alguns vários pedaços de show de bandas que não conhecia & sobre as quais me quero me informar melhor logo mais.

Todos essenciais para formar o borrão multi-sensorial que paira sobre mim nesse momento, ectoplasma de alegria e delírio que vou guardar na memória com muito gosto. Muita informação.

Porém, três shows que assisti mais de perto me saltam como highlights inevitáveis por sua contundência e simbologia.  

O mano André Prando, que apoiado por sua linda caravana familiar capixaba (mais de 20 nego vieram junto na excursão) fez um concerto memorável no palco do lago (melhor rolê), destilando sua lavra de hits com gostinho blues rock antigo & outras trips, e uma singularidade vocal e melódica digna de deixar o povo com a cara quente.

O Jorge Ben, que apesar de ter balangado umas bobagens no final do show naquele registro homem-hetero-cis-pride que (felizmente) não cola mais, proporcionou uma viagem interplanetária gritada a plenos pulmões pela massa, pela simples força de seu cancioneiro, sua presença e tudo o que ela representa para a história da psicodelia brazuca.

E o Arrigo Barnabé, que entra ano sai ano, continua de fato no páreo das coisas mais extraterrestres da música. Bomba de emoções, o show revivia a era Clara Crocodilo, aquele lance meio história em quadrinhos, com destaque incontornável para a comitiva de poderosas minas super-heroínas, Joana Queiroz e Maria Beraldo Bastos rasgando buracos negros com seus sopros e backing vocals absurdos, Ana Karina Sebastião esbanjando groove e simpatia pelos vales dodecafônicos do sub-woofer e Mariá Portugal edificando o bate-cabeça em compasso composto com sua lírica crueldade nas baquetas.

Perdi o show da Tulipa, ouvi dizer que foi bafão, queria ter visto Boogarins mas cheguei um dia depois, enfim, há que se considerar que a #vivência também envolve muitos outros moments que não só o de assistir aos shows, daí abrir-se pra isso é também uma credencial importante pra mergulhar afetivamente na doideira sem sofrer demais nos cronogramas.

Um esquema meio “dia total”, muita conversa foda, confabulação e análise com os parça de cena indie, rachação boêmia e gastação de onda noite adentro, muitos abraços, inauguração de amizades, promessas de #vaidarcerto. Tudo muito inspirador e bonito, sincrônico com a grande mudança que está pra acontecer, a transformação planetária que começa pela reunião dos interessados na pauta e a misteriosa alquimia de encontros e discursos que isso gera.

Em tempos de descrença e individualismo, acampar na lama durante o carnaval junto com mais 5 mil pessoas é um exercício político de grande potência. A sensação de uma comunidade por vir que nasce e se desenvolve a partir de gestos poéticos como um festival de música.

Psicodália é das coisas que renovam nossa esperança no rolê. Vida longa e que venha um 2018 abençoado por esse astral, pois finalmente agora o ano já pode começar.