[Outra história] Meu nome é Blood on the Tracks
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[Outra história] Meu nome é Blood on the Tracks

Pedro Antunes

14 Outubro 2016 | 13h18

Ouça enquanto lê:

Sim, sou um disco do Bob Dylan, caso você não tenha reconhecido a ilustração dele na minha capa.

Como todo disco, não nasci, necessariamente. Fui aberto.

E logo por um daqueles cabeludos que definitivamente não gostam de Bob Dylan. Fui um presente de natal de um tio que sabia que o tal sobrinho “gostava de música”.

Lembro-me até hoje do sorriso amarelo do guri ao olhar para mim pela primeira vez. Ele detestava Bob Dylan e me jogou no meio da coleção de álbuns de heavy metal, com aquelas capas horríveis de monstros e cenários pós-apocalípticos.

Há uma fixação desse tipo de banda com cenários com fogo para todos os lados e bichos chifrudos que nunca entendi direito. Os discos eram caras legais, alguns meio agitados, outros caladões, tímidos e tal. Mas confesso que não sinto muita falta deles.

Certo dia, a mãe do cabeludo juntou todos nós, os discos, e nos levou para um lugar com outros milhares de discos usados. O meu dono cabeludo foi para a faculdade no interior e uma senhora mais velha, a mãe dele, suponho, resolveu limpar o quarto do moleque.

Queria só ver a cara dele agora que Bob Dylan tem até um Nobel de Literatura. Sou chique, rapaz.

Blood on the Tracks

Blood on the Tracks

Eu, novinho em folha em meio àquelas velharias, conheci uns sujeitos bem desgastados pelo tempo. Tínhamos muito tempo livre, afinal, nenhum de nós era tocado, então batíamos papo. Aprendi muito sobre a vida dos humanos. Eu não sabia nada até então, mas fiz uma amizade muito grande com um velho Let it Be, dos Beatles, que sabia de muitas coisas. Ele me contava das suas aventuras por diferentes casas, diferentes donos. Era sempre fascinante.

Ele me explicou que vocês, humanos, são movidos pelo amor – ou desamor, tanto faz, um sempre vira o outro, que volta a ser amor de novo, e por aí vai. Achei um pouco brega, mas tudo bem.

Nós, discos, contamos o tempo através das rotações. Isso mesmo. O que torna tudo mais difícil de explicar para vocês quanto tempo passei naquele lugar. Passou de dois milhões de rotações, se é que você me entende. Até o dia que o meu humano me encontrou, na caixa com os dizeres Bob Dylan, ao lado de um Highway 61 Revisited e um Street-Legal em estado deplorável, coitado.

Lembro-me do sorriso do humano ao me tirar dentre os meus e me separar entre os discos que ele compraria naquela tarde. “Você não vai acreditar no que eu encontrei num sebo hoje”, disse ele, mais tarde, ao me retirar de uma sacola onde fiquei confinado por algum tempo ao lado de um choroso The Queen is Dead, do Smiths.

Fui o primeiro escolhido para rodar. Ele queria impressionar aquela garota. E ela ficou bastante impressionada com o meu som. Estava novinho, afinal de contas. Tangled up in Blue, minha primeira faixa, é uma das mais famosas do tal Dylan. Daquelas que ele ainda toca nos shows, mesmo tendo sido lançada há 41 anos.

Para nós, discos, é difícil diferenciar homens e mulheres. Passei a adotar a estratégia contada pelo meu amigo Powerage, do AC/DC. Garotos têm cabelos curtos. Mulheres têm cabelos mais longos. A distinção não é sempre tão fácil, mas isso ajuda a ter alguma ideia.

Vi uma série de garotas em casa com o humano. Nunca soube direito o nome dele, mas ouço elas chamando-o de “amor”. Imagino que seja algo carinhoso e já que nunca fomos apresentados formalmente, chamo-o de humano, mesmo.

Quando a garota era especial, eu era seu truque. Ele me tirava de perto dos meus e me colocava para girar. Com uma taça de vinho na mão, contava como Bob Dylan cantava sobre a dor própria – algo que Dylan, mesmo, já negou. Lá vai o humano a explicar como Dylan passava por problemas no relacionamento com a então esposa Sara Dylan, como ele estava machucado e como aquelas canções sangravam.

Bob Dylan

Bob Dylan

Ele gostava particularmente de If You See Her, Say Hello, provavelmente a mais melancólica das canções que eu trazia comigo. Era a faixa seguinte a Lily, Rosemary and the Jack of Hearts, a minha favorita.

O humano não tocava essa canção para qualquer uma. Pelo contrário, ele tentava não ouvir essa música quando estava feliz. É uma canção muito triste, daquelas que esfacelam a alma por dentro em um moedor de carne que não está muito bem afiado. Ou seja, é bem dolorida.

Por muito tempo, o humano ficou sem ouvir essa canção. Uma daquelas garotas para quem ele me mostrou chegou com algumas malas e um gato. Por muito tempo, permaneci na prateleira, enquanto eles preferiam ouvir jazz. Ganhei uns irmãos de Miles Davis, Dave Brubeck e John Coltrane, essa lenga-lenga jazzística. Nunca suportei essa fase do humano, mas aceitei. Ele estava feliz.

Mas se meu amigo Let it Be me ensinou algo naqueles dias em um sebo, nome que ouvi o humano dar para aquele espaço, é que as coisas realmente não duram para sempre. Logo, o humano e a garota começaram a brigar.

Ele passou a dormir no sofá. Vi ele ficar noites em claro, olhando para nós, a coleção de discos, enquanto fumava um cigarro atrás do outro. Até que ela se foi e eles não se despediram direito. Nunca entendi direito esses relacionamentos humanos. Antes tão próximas, as duas pessoas simplesmente param de se tocar, param de fazer coisas juntas. Não ouvem mais discos, isso é o mais triste.

Ela foi embora, levou as malas, uns discos e o gato que vivia tentando pular na vitrola quando eu ou outro disco estava lá, girando e sendo feliz. Ainda bem que o gato foi embora. Vou sentir falta dos discos de jazz. Blue Train era um ótimo contador de piadas.

Assim que ela fechou a porta e levou consigo suas últimas coisas, o humano olhou para a gente. Sabia que seria minha hora de brilhar de novo.

Ele me tirou da prateleira, assoprou a poeira acumulada na minha capa e me colocou para tocar. Foi direto para o lado b, direto como If You See Her, Say Hello. Ai, humano, você é tão previsível.

Sentou-se no sofá que havia se tornado sua cama pelo último mês, sacou um cigarro do maço e ficou olhando para mim enquanto girava na vitrola.

Fique tranquilo, humano. Mesmo antes do meu Nobel de Literatura, eu já era capaz de cuidar de você.

“If you see her, say hello…”

(Todas as sextas-feiras o Outra coisa tem o Outra história, uma tentativa de fazer com que o inferno astral acabe mais rápido do que de costume)