Leo Cavalcanti escorre como lágrima e busca por um amor em meio ao caos em ‘Ainda Aqui Sonhando’; ouça
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Leo Cavalcanti escorre como lágrima e busca por um amor em meio ao caos em ‘Ainda Aqui Sonhando’; ouça

Pedro Antunes

15 Março 2018 | 07h21

Amar quem ama um outro amor que não o seu.
Devastador. O chão que foge dos pés, que se choca contra os joelhos. As pernas bambas não suportam o peso do corpo.
Resta a dor. E a lágrima, que escorre sem ser convidada.

O grito se desgarra das entranhas, não tem jeito. Resta, a Leo Cavalcanti, deixá-lo fugir para onde quiser.

Leo Cavalcanti (Foto: Jonas Tucci)

“Eu achei que era amor”, canta ele (ou despeja).

Ainda Aqui Sonhando, lançada aqui pelo blog, é uma canção intermediária, daquelas que apenas deveriam existir, sem um disco para empacotá-la, guarda-la entre tantas outras, umas 10 ou 11 irmãs.

É única, de começo, meio e fim. É caos, explosão e desorientação.

O clipe da faixa tem direção de Ricardo China e Rafael Souza (e criação do primeiro) e entrou no YouTube nesta quinta-feira, 15 – você pode assisti-lo ao final do texto. A canção chega às plataformas digitais na sexta, 16.

“O mundo explodindo e eu ainda aqui sonhando em ter um amor”, diz ele, de início.

Poesia de um fim que já é passado, Ainda Aqui Sonhando parte de um lugar solitário e de observação. Foi composta em 2016, quando o Brasil e o mundo beiravam o caos, político, econômico, social, que se vê em 2018. É o tal “o mundo explodindo”, tão repetido na canção.

Capa do single ‘Ainda Aqui Sonhando’, de Leo Cavalcanti

A abordagem política da canção, tão necessária, latente e afiada, passa por uma outra perspectiva. “O mundo em pleno desamor”, lamenta Cavalcanti, que segue: “Medo, ignorância e dor”. “E o mundo em chamas por aí fascismo a todo vapor”.

O cenário do lado de fora está montado. Mas o interlocutor, o eu-lírico, filtra aquilo tudo pela perspectiva do que há dentro dele. E, ali, guardadinho, há só um vazio.

É a canção mais confessional de Cavalcanti, ele diz. “Ao mesmo tempo ela não fala exclusivamente sobre mim, ela fala de uma questão importante dos nossos tempos, que todos se relacionam de alguma forma”, explica.

Talvez seja a mais paupável. O buraco, a dúvida, é real.

E coloca, frente a frente, o dilema do individual versus o coletivo. O mundo ou eu? Qual cai primeiro na vala sem fundo?

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Ainda Aqui Sonhando é a última gravação de Cavalcanti em São Paulo. Em 2017, partiu para Salvador, onde vive bem, feliz, a absorver a nova musicalidade a ser exposta no terceiro disco, o sucessor de Religar (2010) e Despertador (2014), a ser gravado neste ano.

“Queria gravar essa música nas condições ideais”, explica ele, ao blog. E o fez, com a produção de Gustavo Ruiz (dono de uma “sensibilidade incrível e uma capacidade de fazer coisas simples se revelarem grandiosas”, diz Cavalcanti) e Guilherme Held (“meu musical de longa data e, pra mim, o maior guitarrista do Brasil”).

“Gosto da idéia de ser um single bem no meio desses dois ciclos importantes da minha vida: a saída da minha cidade natal e a chegada nessa cidade incrível”, conta.

Os arranjos de corda dão a dramaticidade necessária para a canção tão desoladora. São versos que se derrotam, um a um, em sequência. Dúvidas, angústias. Nenhuma resposta.

Porque, o mundo está em ruínas, mas a principal questão é a ruína interna, o coração em frangalhos, destroçado.

“Por que me sinto só assim? /
Ele já tem um novo amor /
Por que isso dói tanto aqui?’, pergunta Cavalcanti. Ou chora. Ou ambos.

O mundo em ruínas. Ele também – e, por consequência, a gente.

Ah, Leo Cavalcanti, porque você faz isso conosco, meu caro?

Assista ao clipe de Ainda Aqui Sonhando (abaixo, a letra da canção):