Lara Aufranc, ex-Ultraleves, masca chicletes, pensa na vida e pede passagem; ouça o novo disco
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Lara Aufranc, ex-Ultraleves, masca chicletes, pensa na vida e pede passagem; ouça o novo disco

Pedro Antunes

23 Outubro 2017 | 09h00

Não há matemática, não há astrologia.
Não há o que explique.
Em algum momento, de uma hora para a outra, o chamado chega.
Pede passagem.
É preciso atendê-lo. 

“Às vezes, eu como chicletes e penso na vida, que anda tão corrida, mas ainda quer muito mais”, canta Lara ex-Ultraleves.

Hoje, Lara Aufranc – cujo sobrenome lê-se “Ôfranc”.

Lara Aufranc (Foto: José de Holanda)

Esse tempo, tão corrido, segue seu rumo implacável. Corre mais rápido do que corremos nós. Vencê-lo é impossível. A vida tem seu fluxo próprio, pulsa adiante, nos leva, queiramos ou não. 

É mais fácil ser carregado pela inércia, como um corpo a boiar na correnteza de um rio caudaloso.

Segurar-se na margem, fincar os pés no chão, sentir o puxar e decidir seguir por outro rumo é árduo.

Lara fez isso. Colocou-se firme, no chão. Mascou seus chicletes, pensou na vida – como diz a canção – e no que via diante dela.

Nasce daí Passagem, o segundo disco da artista, o primeiro no qual assume o nome e sobrenome. Tomou o controle para si, agora, como Lara Aufranc.

O disco estreia com exclusividade aqui no blog Outra Coisa – e pode ser ouvido no player abaixo. Solta-se da estética que lhe prendia conceitualmente aos Ultraleves. Deixa as referências antigas, a soul music, no subtexto harmônico para se ver livre a cantar o que e quem é. 

Principalmente, Passagem é um disco de reflexão, de uma artista capaz de brecar o movimento irrefreável da vida. De quem puxou o freio de mão, deixou o fluxo seguir e, a partir de uma clareza e calmaria incomum, encontrou um novo rumo.

Se era um projeto próprio, por que seguir como Lara e os Ultraleves? Foi o que questionou Alexandre Matias, do Trabalho Sujo. Pergunta simples e, ao mesmo tempo, forte o bastante para dar força frente inevitável.

Passagem, o disco, é um trabalho que dialoga com as forças externas que nos puxam pela vida. Passagem, a canção que dá nome ao álbum, discute a essência da vida urbana.

“A vida vem e a gente vai / Vai lutando para viver / A gente vai e a vida vem / Vai passando à nossa volta / Vai levando sem notar”, diz o último verso da música.

O eu-urbano tem pouco controle sobre si. Lara, agora abastecida e esclarecida, é capaz de expressar isso. E cantar sobre o ambiente hostil que é a cidade.

“Sou puro osso, meu bem, e sangue quente”, canta ela, em Sangue Quente, ao se ver envolvida em um relacionamento que não é seu.“A culpa é dele, é dele, é sua / Não tenho nada a ver com isso”.

Porque a vida, oras, é rude, espinhosa. Refletir sobre ela é duro. Ao vê-la passar, Lara encontra a fonte para suas canções. São milhares de histórias a cruzar por ela no metrô, a caminhar pela avenida movimentada na hora do almoço.

Vidas tantas, como a dela, como a minha, como a sua. Todas com suas angústias e dramas particulares.

Como em Duas Mulheres, cuja guitarra de Allen Alencar é tão espinhosa quanto os dois retratos do feminino que se cruzam pelo caminho – e pelo de Lara.

Sem pressa, ela veste sua armadura para enfrentar as lanças e espadas que têm seu corpo como alvo. Agora, poderosa, canta a força recém-encontrada .

Contra o ameaçador ambiente machista e violento, ela rebate: “Não dá para viver com medo, não dá”, canta em Vem Rodar. Sua força nasce do medo e vai combatê-lo até se livrar dele.

Na luta contra a aspereza do mundo, Lara se reergue. Finca os pés. Não vai mais para a direção que não quer. Contesta a correnteza, contesta o mar de gente, discorda o que se espera dela.

Lara Aufranc é, com Passagem, o disco, quem quer ser. Está pronta para revidar caso digam o contrário.

Ouça Passagem e, abaixo, o depoimento escrito por ela para o blog sobre a retomada na carreira:

“Sabe quando a gente se acostuma tanto com alguma coisa que para de questioná-la? Pra mim foi assim com Lara e os Ultraleves. Eu já estava gravando o disco quando o Alexandre Matias me perguntou: mas é uma banda? Se não é, por que esse nome? E eu não soube responder. 

Quando Lara e os Ultraleves começou, eu ainda precisava me proteger. Queria cantar mas tinha medo do palco, e era insegura como compositora. Foi jeito que encontrei para me sentir menos sozinha. 

Só que eu mudei muito nos últimos anos, do primeiro disco pra cá. Hoje me sinto totalmente livre para compor e cantar do jeito que me der na telha. Sem medo ou coerência, só tesão. Desci do salto alto, passei a cantar descalça. Deixei de usar os figurinos glamourosos do soul e finalmente me senti à vontade. Retomei contato com a dança contemporânea e encontrei o meu lugar no palco. O corpo livre. O som reverberando como um líquido.

Só faltava cair a ficha a respeito do nome. A mudança interna, como pessoa e como artista, já tinha acontecido. E ironicamente, a parceria com os músicos da banda é muito mais forte hoje do que era com os Ultraleves na época do primeiro disco.”