Exclusivo: OQuadro pinta a realidade áspera com pinceladas trovejantes no disco Nêgo Roque; ouça
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Exclusivo: OQuadro pinta a realidade áspera com pinceladas trovejantes no disco Nêgo Roque; ouça

Pedro Antunes

09 Novembro 2017 | 11h13

“Pode vir”.
“Pode vir”.
“Pode vir”.
Sim, pode vir.

Porque OQuadro está de volta, cinco anos depois.

OQuadro

De Salvador, com um gancho no queixo chamado Nêgo Roque, o segundo disco de Jef Rodriguez (voz), Nêgo Freeza (voz), Rans Spectro (voz), Ricô (voz/baixo), Rodrigo DaLua (Guitarra e Synth), Vic Santana (bateria), DJ Mangaio (programações) e Jahgga (percussão).

Com a música Pode Vir, eles encerram o novo trabalho, lançado com exclusividade aqui no blog Outra Coisa (ouça no player abaixo) e realizado com o auxílio do Natura Musical.

Que petardo!

Desde Duas Cidades, álbum dos também soteropolitanos BaianaSystem, lançado no ano passado, não surgia um disco nacional com corpo tão robusto e mensagem tão certeira assim.

É disco para caixas de som com bons alcances para os graves, daquelas que sustentam as vibrações a ponto de causar tremedeira no peito.

Álbum pronto para o palco também. Para rodas de pogo furiosas, para reboladas até o chão, para se ouvir a mensagem.

É guitarra deslizando pelos graves, num diálogo apocalíptico com a percussão e as rimas, como em Muita Onda, faixa com participação de Emicida e DJ Gug.

“Eu sou a volta que o mundo dá”, diz o refrão.

Nêgo Roque é isso.
É a resposta.
É reativo.
É o conta-ataque.

Não é por acaso que esse zouk fundido com a guitarra abra o álbum.

“Eu acho que ainda é cedo ói /
Mas os calos são os mesmos que doem /
Tem que andar direito ói /
E arrancar do peito essa voz /
Eles são os mesmos ói /
E tudo ao redor que destroem /
Mais forte que os playboy /
Eu sou mais um negão de dreadlocks”, diz a primeira estrofe de Ainda é Cedo.

É a voz de quem luta para garantir os mesmos direitos daqueles que já nasceram com eles. É um álbum sobre diminuir as distâncias sociais entre aqueles que seguem a escalada degrau por degrau e enquanto outros nascem com espaço na escada rolante.

OQuadro não canta com discurso de vítima. Sua voz é combativa, incendiária.

É a experiência própria, a vivência dos integrantes d’OQuadro, a ganhar pinceladas em Nêgo Roque. Por isso, a potência.

Beats, samba, soul, trap, rap, rock. A embalagem é fusion, é a fusão, como o Brasil, um pedação de terra colonizado por todos os lados, social, cultural e economicamente.

Dessa união de estéticas, nasce um híbrido, uma linguagem própria. O quadro pintado pelo OQuadro.

Dentro da moldura, a aridez cotidiana é retratada sem concessões.

“Você não sabe o esforço aqui /
E me julga como se fosse um qualquer /
Se fosse tu, dava o fora daqui (vaza!) /
Dois mil e tantos, cê batendo em mulher /
Que você diz que é sua, mas não é /
Acorde pra vida, seu mané”, diz Me Diz Quanto Vale.

Nêgo Roque traz também as participações finíssimas de BNegão (em Nêgo Roque), e Indee Styla e Raoni Knalha (em Luz). 

E chega ao fim com o queixo erguido. Como escrito lá em cima, com Pode Vir.

A narrativa, cíclica, de início, meio e fim, se encerra com um: “estamos prontos”.
E pode vir.

Ouça Nêgo Roque, d’O Quadro (se preferir o YouTube, clique aqui):