Errei? A nova música de Tim Bernardes é também sofrida que só ela – uma quase-errata sobre os tempos de ódio
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Errei? A nova música de Tim Bernardes é também sofrida que só ela – uma quase-errata sobre os tempos de ódio

Pedro Antunes

29 Agosto 2017 | 20h20

No Facebook, discutia com um desconhecido. Irritadiço, o sujeito soltava fogo pela boca, ou pela ponta dos dedos, contra Chico Buarque, Roberta Martinelli e tudo mais.

Respondi com a educação que dona Vera me deu. Questionei o discurso de ódio usado por aquele senhor. Vivemos em tempos cegos, enebriados pela disputa política. Transpiramos, pelos poros, nesse jogo de atacar e defender.

No ritmo do bate e apanha, não se analisa: afinal, para onde vamos com isso aqui?

Tim Bernardes (foto: Biel Basile)

E então chegou a música nova de Tim Bernardes, um dos três integrantes d’O Terno.

“Poder”, “lado”, “saiu”, “ficou”.

Palavras essas, esparramadas na canção Tanto Faz, levam a cabeça direto para a discussão na internet. Texto feito. Publicado. Postado nas redes sociais.

Corta a cena.  
O agora.
‘Tanto Faz’ de novo em looping no YouTube (o link está abaixo). 

Uma hora e sete minutos depois do primeiro post a respeito da canção de Tim, ela me acertou de novo. Uma segunda vez; desta vez, livre do ranço da peleja virtual.

Em outro contexto, ela bateu.
E bateu no coração. Direto.
Foi perfurante. 

Tanto Faz é descaradamente política, sim. É também descaradamente desamorosa.

A voz de Tim, que treme, que grita e sussurra, narra o término. Sobre caminho que, andado lado a lado com alguém, é interrompido.

Passa-se a faca, separa-se se as mãos. Do casal, cada metade segue para um lado. Caminham separados a partir daquele momento.

Sangra e dói.

Versos políticos ganham novos sentidos. “Tanto faz quem entrou e quem saiu”, canta ele, nada importa quando o fim chega, não é?

“Ninguém é capaz de opinar se ouvir só um lado” – aí, olhe como o tom pode ser político ou romântico? Como entender o que aconteceu com um casal se só um da dupla for ouvido?

A narrativa a respeito de um par em extinção está toda ali. Ora escancarada, ora maquiada. Mas está lá também.

Esperto, Tim dá pano para o ouvinte se agarrar da forma que quiser. As pistas para as duas interpretações estão descaradas – e a mágica é permitir que isso seja decidido pelo filtro interno de quem a ouve.

Na fúria política, a voz de Tim é um canto pela paz.

Na fúria amorosa, a voz de Tim é um choro de adeus.

Depende de mim. De você.

Do lado de cá, prefiro o amor.

Mesmo que doa. Mesmo que sangre. Mesmo que acabe.
Tanto Faz, a música de Tim, estará lá para embalar o sofrimento, fazer cafuné e dizer que, logo mais, a ferida fechará.

E choro será riso. Até se tornar choro de novo.

Tanto faz
Eu vou sempre perder, canta Tim Bernardes.
Como não notei isso antes?

Para ler a análise política de ‘Tanto Faz’, clique aqui.