Crítica: rapper Don L cria, em disco, roteiro para um filme de desamores, desilusões e doses de gim
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Crítica: rapper Don L cria, em disco, roteiro para um filme de desamores, desilusões e doses de gim

Pedro Antunes

14 Janeiro 2018 | 06h02

A câmera, na mão, persegue de perto o sujeito a caminhar vagarosamente pela Avenida Duque de Caxias, no centro de São Paulo.

Don L lança o disco ‘Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3’

Lente quase sobre o ombro do personagem. É noite e não há trilha sonora; ouvem-se os passos da figura de casaco de moletom cinza grafite, com o capuz a cobrir a cabeça, e sons da rua, carros, ônibus, conversas alheias. Luzes dos faróis cegam a câmera.

Corta. Clarão.

Estamos em um ônibus, ainda atrás do sujeito de capuz.

Corta.

Uma avenida movimentada, luzes trepidam, coloridas, o rapaz segue em movimento.

Corta de novo.

Vemos somente um copo de vidro transparente apoiado no balcão. Vozes invadem, gritam, riem e celebram. É um bar. Ouvimos o protagonista pela primeira vez. Pede por mais uma dose de gim e é servido rapidamente.

Com a câmera estática, posicionada em cima dos seus ombros, vê-se que ele mexe no celular. Visita o perfil de uma garota no aplicativo Instagram, corre pela linha do tempo dela, para em algumas imagens.

Busca a dose de bebida, vira o seu conteúdo goela abaixo, clica em bloquear o perfil da moça. Deixa uma nota de R$ 20. Dá pequenas batidinhas na mesa, para avisar o garçom que o dinheiro está ali. Vai embora e a câmera fica ali, a mostrar o copo e o dinheiro.

Último corte.

Na tela escura, surge o letreiro, em branco: Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3.

Roteiro de Don L.

Direção de Karim Aïnouz.

Começa o filme.

Don L lança o disco ‘Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3’ (Foto: Werther Santana/Estadão)

Com o título do seu segundo disco, o rapper Don L propôs uma forma de interpretar seu trabalho: se seus versos fossem parar na mesa do diretor de O Céu de Suely, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e Praia do Futuro? O que sairia dali se a ideia deixasse o calhamaço de papel e fosse para a tela grande?

A câmera treme porque ela precisa seguir o protagonista de perto. Daquelas que é importante ouvir a respiração do sujeito.

+++ Entrevista: Don L reafirma a existência de um novo rap

A narrativa autobiográfica de Don L, ao longo das nove faixas, traz o ouvinte para perto de si. É a trilogia iniciada ao contrário: do fim para o começo (quase como George Lucas fez com os seis filmes de Star Wars, iniciando a saga com os três filmes derradeiros, a partir de 1977, para voltar no tempo e contar como tudo começou em 1999).

No filme (ou disco), Don L já vive em São Paulo. Nascido em Brasília, criado em Fortaleza. Há, nos seus diálogos e no seu fluxo de pensamentos constante (representados ambos por um flow de incrível capacidade de produzir calma até mesmo nos momentos mais vorazes) um descontentamento.

É um rapper que carrega uma história que não conhecemos ainda – serão detalhados nos outros discos da trinca – a encarar o mercado e seu organismo, meio vivo, meio morto, viciado e podre. Aqui, ele encara de frente o preconceito. Bate. Rebate. Desvia da crítica, de quem quer vê-lo contra os rappers citados por ele por incapacidade de ler as entrelinhas.

A cena imaginada para a abertura do início desse texto vem de Se Num For Demais, a penúltima faixa do disco:

“Ok, aqui estou de novo /
Comprei uma dose de gim /
Deixei meu amor e o troco”, canta Don L – o resto ficou a cargo desse que aqui escreve.

A canção, no fim do disco e da história marca o reerguimento. Ele, o rapper ou personagem, já desceu até o inferno, viveu seus pesadelos, encarou decepções, fugiu para transas e encontrou seu lugar, seu espaço.

A vida no concreto de São Paulo lhe esbofeteou, tirou seu chão.

Mas Don sai dessa reerguido. Sem amor, sem troco, e uma dose de gim na cabeça.

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