Cinnamon Tapes incentiva o olhar para dentro na busca por luz na estreia do clipe de ‘Sol’
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Cinnamon Tapes incentiva o olhar para dentro na busca por luz na estreia do clipe de ‘Sol’

Pedro Antunes

03 Agosto 2017 | 10h27

“Era para ser tão fácil”

Cinnamon Tapes (Foto: Valerie Mesquita)

A voz de Susan Souza, a cantora e compositora por trás do Cinnamon Tapes, é sorrateira.

Grave, ela reverbera, caminha sem floreios – surge acompanhada de voz e violão de Susan, bateria de Steve Shelley, dono das baquetas do Sonic Youth, e baixo acústico de Paulo Kishimoto.

Como um mantra, ela invade.

Te invade, me invade, nos invade.

“Era para ser tão fácil”

A melancolia é inerente, está lá. Há um ponto de escuridão, nela, Susan, e no ouvinte. A voz do Cinnamon Tapes só precisa de algumas audições para encontrar o ponto escuro de quem escreve e lê esse texto também.

Porque ela canta sobre algo que há em cada um, mesmo quando o processo de Sol, a primeira canção do disco de estreia do Cinnamon Tapes, tenha sido tão próprio.

Susan lutou contra suas sombras quando compôs essas canções.

Ao colocá-las para fora, com o álbum Nabia, ela se livra delas. E nos propõe a fazer o mesmo.

“Era para ser tão fácil”

Cinnamon Tapes (Foto: Valerie Mesquita)

Nabia é o primeiro disco da cantora e compositora, que também é jornalista e atriz, a ser lançado em setembro, pelo sempre esperto selo Balaclava Records.

Sol, cujo vídeo é lançado aqui no Outra Coisa, ergue-se sobre uma estrutura “minimalista”, como contou Susan. Da mesma forma foi construído todas as nove canções, produzidas por Shelley.

“A intenção nunca foi usar muitos recursos de estúdio”, ela explica, ao detalhar – e elogiar – a precisão do baterista do Sonic Youth nas baquetas durante o processo de gravação.

“A música ajuda a entender que, especialmente pelo clipe, trata-se de um disco liderado por uma persona feminina, muito forte nas sutilezas, afinal, ela encara as ondas por vezes violentas”, explica.

O vídeo, com direção e fotografia de Valérie Mesquita, encontra Nabia, a personagem nascida das ondas que dá nome ao álbum, interpretada por Susan, na beira do mar da praia de Itamambuca, no litoral norte.

Nabia, vinda do mar, encara sua origem. De onde veio. É quase como se ela olhasse para dentro de si, da essência, na busca por um caminho.

“Era para ser tão fácil”

Cinnamon Tapes (Foto: Valerie Mesquita)

Ela canta, lamuria-se, enquanto a bateria de Shelley, sem medo de soar bossa nova, pincela as cores da alvorada no litoral, colorido, em tons pasteis.

“A letra é uma compilação das primeiras expectativas frustradas da personagem, é como uma fotografia daquele instante em que você entende que não ter controle sobre nada é a essência da experiência humana”, Susan conta.

Sol é a estreia de Susan. Ela encara para o mar, que é o passado, as angústias e o processo pelo qual passou para chegar até aqui. A partir de 3 de agosto de 2017, sua Nabia ganhou o mundo.

Precisou olhar para trás para caminhar para frente, para o futuro. Liberta.

E seus fantasmas, que também são nossos, se dissipam aos pouquinhos, espalhados por aí, a cada audição.

“Era para ser tão fácil”

Por vezes, pode ser. Deixar sair o que angustia por dentro é um começo e tanto.

Assista ao clipe de Sol:

Diante de tanto esmero e dedicação de Susan ao responder as questões enviadas por este que aqui escreve, publico na íntegra a entrevista: 

Li no Trabalho Sujo que esse disco discorre a respeito dessa personagem, a Nabia, certo? Em que momento da narrativa está Sol, a música do clipe? Digo, começo, meio, fim? O que está sentindo ela, ao cantar versos desiludidos de “era para ser tão fácil” e “eu só queria nadar”?

As músicas foram nascendo antes da personagem. Quando cheguei na metade do trabalho entendi que tinha feito letras e melodias que conversavam entre si. Havia sempre um questionamento, uma dor que não cabia mais em mim e muitas referências ao mar ou a elementos místicos e simbólicos. Esse é um universo que me inspira, eu leio tarô, sou estudante de astrologia e pesquiso bastante esses assuntos. Quando o disco começou a tomar mais forma, o Steve me incentivou a procurar um nome pro álbum. Foi quando notei que seria interessante assumir uma personagem mesmo, meu lado atriz pulsou e comecei a ver que a personagem já existia em mim, vivíamos em simbiose desde a primeira etapa das gravações (que aconteceram nos EUA em abril de 2016 e fevereiro de 2017). São nove faixas, “Sol” é a segunda. A personagem morava no mar, onde era feliz, mas isolada. Decidiu ir para a terra e precisou “nascer”, simbolicamente sair do útero. Nessa música, ela só queria “nadar”, ou seja fluir dentro do que esperava como felicidade. A letra é uma compilação das primeiras expectativas frustradas da personagem, é como uma fotografia daquele instante em que você entende que não ter controle sobre nada é a essência da experiência humana.

– Como essa música ajuda a entender, seja em estética, seja em temática, o que teremos no álbum todo?

A estrutura toda do álbum é muito minimalista e a intenção foi exatamente não usar muitos recursos de estúdio. A gravação é sutil, eu quase não usei efeitos na guitarra, violão ou piano, gravei os vocais duas vezes e só. A bateria do Steve é bem precisa. O Emil Amos e o Paulo Kishimoto acrescentaram instrumentos seguindo a mesma receita do “menos é mais”, então cada inserção foi muito pensada para ser leve. As músicas são lentas, os instrumentos são limpos, estamos muito expostos e essa era a ideia. Quanto à temática, eu gostaria que soasse como um disco de entendimento de processos de amadurecimento, superação de traumas e empoderamento. A temática feminista permeia a concepção do trabalho e, sobretudo, a expressão da personagem. “Sol” ajuda a entender que, especialmente pelo clipe, trata-se de um disco liderado por uma persona feminina, muito forte nas sutilezas, afinal, ela encara as ondas por vezes violentas. O clipe tem uma estética poética, simbólica, e o olhar da Valérie Mesquita casou perfeitamente com o roteiro que propus a ela. Ela entendeu que eu não queria afirmar que a Nabia é uma criatura mitológica, – porque isso talvez a deixasse distante -, mas sim uma mulher que agora vive na terra. As conchas aparecem como referência e homenagem ao feminino.

Vamos voltar um pouco no tempo, a respeito dessa ideia de um disco com um conceito, um ponto de partida e chegada. por que a construção dessa narrativa te interessa? que tipo de possibilidades ela abre? ou como isso facilita no processo de composição quando você entende qual é a história que quer contar?

Existe um conceito que une as faixas, mas elas funcionam de modo independente também. O tema apareceu espontaneamente a partir de uma investigação pessoal solitária e eu procurei me prender menos aos resultados e mais à vivência do processo musical. No teatro, achava que não podia errar e isso atrapalhava minha vivência. O mesmo acontecia na dança flamenca, acreditava que não podia decepcionar as pessoas, e isso sim é um erro. Neste processo da Nabia, não tentei fazer um disco “correto”, mas sim viver uma experiência artística completa e essa mudança de atitude foi libertadora — apesar de exigir um treino diário para ser mantida. Deixar que a narrativa me guiasse me botou a serviço da minha criatividade e eu fui obrigada a parar de julgar minhas ideias como “certas ou erradas”. Isso só foi possível depois de alguns anos em um processo terapêutico que agora me faz capaz de validar melhor quem eu sou. O processo narrativo desse disco já me abriu ideias de tornar este o primeiro trabalho de uma trilogia. Quem sabe o segundo possa ser bem mais brasileiro, fincado na minha origem baiana e mineira, e o terceiro possa ser o disco de uma flamenca. Vislumbro essa trilogia conduzida por três mulheres e já me empolgo com as possibilidades, mas gostaria de pesquisar mais. De qualquer modo, a arte é mutável e eu não vou me punir caso mude de ideia no meio do caminho.

Pelo o que eu entendi, você e a personagem partilham algumas sensações, emoções ou histórias. como  enxerga essa separação entre você e o você-Nabia?

Comecei a compor como eu mesma e, aos poucos, fui notando a necessidade de deixar que o alterego assumisse a narrativa. A personagem é bem representada quando ao vivo. Estou desenvolvendo os shows com um leve pensamento de peça de teatro, especialmente os shows solo que tenho feito para me aproximar mais da essência das canções e quero que com banda também tenha essa dinâmica. O show já mostra a Nabia bem mais confortável no palco, tanto que existe um figurino próprio, o batom azul, as conchas no microfone, o véu azul que vai caindo até o chão e agora estou tocando um ocean drum, que é um instrumento de percussão que imita sons de mar, para abrir e fechar as apresentações. São performances que estão mais para um ritual da Nabia, um culto às figuras do mar que são os antepassados dela, uma referência espiritual e ainda uma homenagem ao feminino.

Ainda sobre a questão de apresentar letras que são pessoais, olhar para suas próprias questões, a partir dos olhos da Susan compositora, ajudou na forma de lidar com com elas?

A Susan compositora é a responsável pelo conteúdo, a Nabia é a porta-voz. Eu tive de, primeiro, olhar para minhas sombras e me organizar, cuidar da minha saúde, reconstruir minha espiritualidade e então deixar que a personagem conduzisse o disco. Nabia ficou à vontade mesmo quando tudo já estava bem mais resolvido internamente, quando eu já tinha conseguido driblar alguns dos piores anos da minha vida.

Sobre o Shelley. Ele ouviu as versões das músicas em voz e violão, é isso? Como vocês construíram a sonoridade que você queria carregar no álbum depois disso?

Sim, enviei três demos gravadas em casa tocando violão ou guitarra e cantando, gravadas de um jeito bem simples. Uma delas era “Sol”. Ele disse que gostou justamente da minha simplicidade, da minha voz e disse que as demos que eu mandei expressavam bem a minha essência. Continuamos nessa linha de sonoridade sempre procurando pelo mais simples para somar ao minimalismo inicial das minhas composições. Em nenhum momento ele quis me mudar e o processo de gravação no estúdio do Sonic Youth fluiu como um sonho. Nós viramos amigos, ele é uma pessoa muito sensível e o processo todo foi muito leve e respeitoso. Não consigo expressar o tamanho da minha felicidade, o disco ficou exatamente do que jeito que eu intuía. Foi uma parceria e tanto e estou bem feliz por não ter desistido quando as ondas foram desfavoráveis.