César Lacerda se norteia com ‘Me Adora’, da Pitty, e encontra a beleza na cura de dores de amor; ouça novo disco
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César Lacerda se norteia com ‘Me Adora’, da Pitty, e encontra a beleza na cura de dores de amor; ouça novo disco

Pedro Antunes

27 Outubro 2017 | 09h28

“Será que eu já posso enlouquecer? /
Ou devo apenas sorrir?”

A angústia está ali. A indecisão. O futuro, incerto, é claustrofóbico.

“Não sei mais o que eu tenho que fazer /
Pra você admitir”

Respirar parece impossível. “Calma”, diz uma voz interna, no fundo da cabeça – ou do coração. O fim está próximo demais. Que se dane. É hora de dizer:

“Que você me adora /
Que me acha foda /
Não espere eu ir embora pra perceber”

Fim.

Cesar Lacerda (Foto: Lorena Dini)

Talvez ele, ela, elx, nunca perceba. E se vai. Nós nos vamos. O que era preciso ser dito está lá, vomitado. Com ou sem choro, isso depende de quem diz. Se foi ouvido, compreendido, também é uma questão aberta.

O tempo, sempre ele, vai se encarregar de dar peso às palavras, de mostrar o que o coração tem a sentir. Por enquanto, assim ficamos. Um para lá, outro para cá.

Quando Pitty criou e gravou esses versos de Me Adora, em 2009, embalou amores (e desamores) adolescentes. Sabia-se pouco da vida, sentia-se tudo intensamente.

E o rompante, o vai ou racha intempestivo, dialogava com a falta de entendimento sobre o que é o sentir na tenra idade. Era um grito confuso.

Curioso, talvez, seja perceber. Oito anos depois, os versos soam tão fortes para essa mesma geração, hoje de mais ou menos 30 e poucos anos.

Muda-se o contexto, contudo. Evoluímos emocionalmente. Vivemos, sofremos, choramos com e por dezenas de amores.

O grito de Me Adora, na voz de César Lacerda, criado a partir da sugestão do diretor artístico Marcus Preto, não é mais inocente. Os corações que já não são translúcidos ou supostamente indestrutíveis.

Quando Lacerda canta, abre a porta da rua. Não é a primeira vez que um amor destrava a saída de emergência. A melancolia, inerente e dolorida, desses versos ressoam agora nos ouvidos de alguém que aceita.

De quem compreende.
De quem chora.
O fim. 

Não é o primeiro, não será o último. Talvez a maior dor seja perceber que aquele amor será só mais um a ficar para trás.

Ouça Me Adora, na versão de César Lacerda:

Me Adora foi o norte de Tudo Tudo Tudo Tudo, o novo disco de César Lacerda, o primeiro single, a estrela guia de um trabalho cujo título expõe uma vontade. O “tudo” é a direção. Não se quer meios amores, nem sentimentos pela metade. Que seja único, o tempo que durar.

E Tudo Tudo Tudo Tudo deixa seus sentimentos ali expostos. Na voz cristalina de Lacerda, que não se esconde mais nos ruídos lo-fi, nas harmonias excessivas e no próprio medo de mostrar quem se é.

Limpo e livre, ao longo de 10 canções, Lacerda vagueia por ritmos, por calmarias e tempestades, para atingir a cura. A cicatrização de um coração – mais uma, mais duas, mais três.

A bossinha  Isso Também Vai Passar, responsável por abrir o disco, deixa o recado claro. Tudo passa, o “nós” vai passar, o dia cinzento, o caos, o governo. Nada, garante ele, fica para sempre.

Capa de ‘Tudo Tudo Tudo Tudo’, de César Lacerda

Mais do que desencanto, Lacerda canta a compreensão a respeito do mundo ao redor. Por vezes soa desiludido, mas, na realidade, ele é otimista, mesmo diante das maiores dores.

Como diz a música O Fim da Linha:

“É o fim da linha, o fim da estrada /
É onde eu te esqueço /
Aqui, eu me acho”

Tudo Tudo Tudo Tudo é uma coleção de canções sobre fim e recomeços. Um movimento cíclico que acalma. Que só uma vida vivida é capaz de garantir. A segurança de que a dor vai passar, sempre passa.

Em 2009, com a Pitty, a gente não sabia disso.
Em 2017, com César Lacerda, a gente sabe.
Ainda bem.

Ouça Tudo Tudo Tudo Tudo, de César Lacerda: