Análise: Chico Buarque, em ‘Caravanas’, é um retratista para os anos de extremos, de amores e ódios
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Análise: Chico Buarque, em ‘Caravanas’, é um retratista para os anos de extremos, de amores e ódios

Pedro Antunes

22 Agosto 2017 | 11h55

Bate. Assopra.
Bate de novo. Ama.
Ajoelha-se. Clama e chama. Implora.
Odeia. Morde. Morte. O soco. Sangue.
“Picas enormes”, como ele canta, e amores impossíveis.
Tão distantes – e, é claro, tão próximos.

Chico Buarque (Foto: Leo Aversa)

Chico é calor e frio, é Tua Cantiga, uma canção de amor singela, e As Caravanas, o beguine, um jazz latinizado dos anos 1930, transmutado em funk. Opostos que se unem, se alinham e costuram, do início ao fim. Um retrato de um artista que já foi à frente de seu tempo, foi ultrapassado por ele e hoje flana, livre, por um espaço no qual sabe o que faz, sem correr riscos.

Sem avançar demais. Nem de menos.

São seis anos desde Chico, o álbum, seu até então último disco. Rumores para lá, rumores para cá. Chico está gravando um disco? Estava. Desde 2015, pingava, com mala, cuia e banda para gravar um ou outra canção.

Construiu Caravanas, lançado nesta sexta-feira, 25, em plataformas digitais e lojas físicas, aos pouquinhos, em visitas periódicas ao estúdio da gravadora Biscoito Fino. Sob a direção e produção de Luiz Claudio Ramos, ergueu seu 23º trabalho de estúdio. Seu disco para tempos extremos e divisórios. O Chico, de seus 73 anos, que canta o hoje. O louco século 21.

Um Chico que, décadas atrás, já disfarçou as críticas sociais e aos militares, já escancarou-as. Defendeu seus interesses políticos, apunhalou o “cale-se” e, agora, é um retratista da sociedade ao seu redor. Apaziguado, talvez. Mas calma é a voz da idade.

Não há pressa, vividez, como no Chico que batia com Construção e avançava enfurecido com Calabar. Caravanas é, portanto, o retrato do Rio de Janeiro – e do Brasil – que Chico vê quando pode ao caminhar pelas praias da zona sul carioca. É o amor efêmero de A Moça do Sonho, parceria com Edu Lobo, vagarosa, de voz, violão e violoncelo, e a guerra de classes eclodida durante os verões no Rio de As Caravanas – essa, o grande momento do disco. Quente, fatal.

Um homem que encara a idade também, cujo corpo é incapaz de desenvolver passes e dribles com as bolas nos pés dos tempos outros, cantado em nostalgia Jogo de Bola, composição de Chico só. Um compositor que traz os netos para o estúdio. Moço e moça crescidos, Clara Buarque e Chico Brown, que atuam em Dueto e Massarandupió, respectivamente.

Acima de tudo, Chico é esse homem frágil. Ciente que é quebrável e não imortal. Por isso, a deixa chegar a fragilidade do gogó. E a adorável. Não se engane, contudo, nada é fora do lugar. Até quando o está, é proposital. Porque Chico quer, descaradamente, duvidar de si, dele, o compositor, o cantor, o amante que não tem sua contraparte.

Sofre o velho Chico, machucado por amores não correspondidos, proibidos ou mesmo impossíveis. Coloca-se para baixo, como um jovem a sofrer uma fossinha de uma paixão que nunca ganhou sabor. Nem beijo, nem gozo. Ficou ali, distante, no fértil campo das ideias do compositor.

“Fico admirado por incomodar-te assim. Jamais pensei que pensasses em mim”, canta em Desaforos, a oitava das nove de Caravanas. Tão cabisbaixo, um dos maiores compositores do País se posiciona no personagem falho, capenga. “Custo a crer que meros lero-leros de um cantor possam te dar tal dissabor”. Lero-leros, Chico? De alma devastada, ele segue, de cantarolar em cantarolar.

Tua Cantiga foi a primeira canção a ganhar o mundo. Foi alvo. É um mundo de extremos o que vivemos, caro Chico. Se não se está num canto nem no outro do córner, o lado oposto te empurra para o canto rival.

Foi chamado de machista. Foi defendido com o mesmo fervor. Foi teorizado: “estaria ele falando de um amor ou da política brasileira?”.

Chico canta, ali, acamado dos arranjos mais clássicos e quadrados do disco, assinados por Cristóvão Bastos. Belos, puros e cristalinos, mas só; E fala (à superfície) do amor dos mais puros. Daqueles que preenchem o coração e, enraizados, não se vão. Mesmo se outro alguém estiver do seu lado.

Quando se dispõe deixar a companheira e filhos (aí está o nervo exposto da canção), Chico escancara seu eu-romântico.

Enciumado, cala-se.
Exagerado, ajoelha-se.
Desesperado, pede.
Sem saída, vai-se embora com a promessa do retorno imediato.

“Deixa cair um lenço que eu te alcanço em qualquer lugar”, avisa.

Amores. Chico, esse romântico danado, é quase inteiramente amores. Fez, em Blues pra Bia, uma tentativa de conquistar aquela que não lhe quer, chora pelo sonho de um amor que não existe como na parceria com Edu Lobo. Evoca Cuba, num momento tão político quanto romântico. Promete, em espanhol na canção composta com Jorge Helder, voltar a ilha por ela – e não é justamente o que bradam por aí aqueles que criticam as posições políticas dele?

Das caravanas migratórias do Oriente Médio para os ônibus que saem das periferias e dos morros cariocas até as praias da zona sul. Chico vê a guerra nas areias claras e no mar azul do Rio de Janeiro. Repete, com muita ironia, o discurso de elite. “A culpa deve ser do sol”, justifica ele, sarcástico, às ideias preconceituosas e lamuriosas da elite carioca.

Caravanas é o retrato de tempos nos quais a opinião pública não permite meios-termos. É ódio e é amor. O calor do verão carioca e o frio de um coração esvaziado. Ele goza a paixão e o chora o lamento solitário. É Chico, de um canto a outro do ringue, quando ninguém mais se arrisca a ser.

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