‘Yank!’ é o mais corajoso musical do ano no Brasil

‘Yank!’ é o mais corajoso musical do ano no Brasil

Rodrigo Fonseca

25 Junho 2017 | 12h08

Hugo Bonemer e Betto Marque são soldados às voltas com um interdito de amor em “Yank”, versão brasileira do musical dos irmãos Joseph e David Zellnik

RODRIGO FONSECA
Às vésperas do lançamento do conto bélico náutico Mister Roberts (1955), o diretor John Ford, o Homero do Velho Oeste, declarou: “Todo faroeste é uma cartografia de mundo que mapeia a realidade pela ação, enquanto filmes de guerra… ou sobre as guerras… cartografam melancolias e nostalgias de causas alimentadas a perdas”. É essa a lógica que levanta, de quinta a sábado, no Teatro Serrador, no Centro do Rio, o espetáculo Yank!, um dos mais tocantes e, incomparavelmente, um dos mais corajosos musicais encenados no país desde o boom do formato, em 2000. Corajoso pela causa – a tolerância, que transcende sua ambientação LGBT- e pela perspectiva financeira de crowdfunding com que foi levantado, na raça, pelo ator Leandro Terra (numa atuação cítrica e crítica, capaz de evocar o espanhol Javier Cámara, de Fale com Ela, em sua comicidade fora do armário). A direção é de Menelick de Carvalho, que mantém a peça em cartaz até o dia 1º julho, necessitando de lotação da casa para o abrir das cortinas. Uma vez abertas, desvela-se diante de nós uma história de amor impossível – portanto, inesquecível – entre dois soldados americanos no auge do engajamento dos EUA contra o Japão na II Guerra Mundial, em águas do Pacífico. Não há um trecho que não exale um cheiro de A Um Passo da Eternidade (1953), com um inspirado Hugo Bonemer se candidatando ao posto de Montgomery Clift. As fotos de divulgação são de Bernardo Santos.


Regado a influências hollywoodianas em sua versão para o Brasil, a montagem tem como base Yank! A WWII Love Story, musical de 2005 com libretto de David Zellnik e melodias de seu irmão, Joseph. O título faz referência ao pasquim que alimentava de notícias os soldados do front, levando, em paralela, notícias das zonas de guerra para o Ocidente. O protagonista, Stu, vivido por Bonemer, vai ser correspondente da revista, com a ajuda de um fotojornalista militar de homossexualidade bem resolvida (taí o papel de Leandro, digno de prêmios). Mas a saudade que tem por um colega de caserna de seu batalhão de origem, Mitch (Betto Marque, impecável), vai levar Stu de volta à sua gênese, em nome de sua identidade e de seu desejo. E escorrerá mel na relação que se estabelece, em sigilo, entre os dois. Num simples abraço, os dois sintetizam a ideia (ou ideal) de abrigo inerente ao verbo “amar”.

A tropa em formação: Denis Pinheiro vive o negro do Harlem que injeta ginga na farda dos soldados americanos

Há uma luz feminina que incendeia a tela com o desempenho de Fernanda Gabriela, cujo sorriso homicida garimpa espaços de respiro numa narrativa de resfolego. No elenco de coadjuvantes, um jovem mineiro ilumina a cena com sua máscara cômica de tom cartunesco: Denis Pinheiro. Astro de uma recente encenação de Sweeney Todd por aqui, ele dá uma injeção de riso a uma narrativa de dor e suspiros românticos no papel de um soldado do Harlem buscando seu lugar no que existe de inútil nos confrontos armados. É dele o melhor trabalho de corpo em cena, num jogo plástico com o espaço que leva ao humor sem diluir a gravidade ali retratada na recriação dos fronts dos anos 1940. Lembra o gingado de Harry Belafonte em Carmen Jones (1954).

Ginga é uma pimenta nesse quitute, que amacia nosso paladar por invenção ao fazer uma viagem cardíaca por nosso histórico audiovisual de paixões, reciclando o valor da love story como instância de resistência.

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