Vitaminado por José Dumont, ‘Era o Hotel Cambridge’ inflama San Sebastián

Vitaminado por José Dumont, ‘Era o Hotel Cambridge’ inflama San Sebastián

Rodrigo Fonseca

19 Setembro 2016 | 10h33

Apolo (José Dumont) integra a ocupação de

Apolo (José Dumont) integra a ocupação de “Era o Hotel Cambridge”, destaque brasileiro em San Sebastián

RODRIGO FONSECA

Tema fundamental para redefinições (e inclusões) geopolíticas da contemporaneidade, abordado, este ano, como assunto central em festivais como o de Berlim, a questão dos refugiados políticos incendiou San Sebastián na manhã desta segunda, fazendo de uma São Paulo de mil desigualdades (e múltiplos combates) seu cenário ao longo dos 90 claustrofóbicos minutos de Era o Hotel Cambridge. Dirigido por uma Eliane Caffé (Kenoma) fiel à sua investigação autoral sobre figuras em deslocamento (em busca de um fixismo cômodo e protetor), o longa-metragem é a única produção nacional em concurso da seção Horizontes Latinos do evento espanhol – a mesma que premiou e revelou ao mundo Lobo Atrás da Porta em 2013. No novo (e, à primeira vista, o mais possante) filme da diretora paulista, imigrantes degredados do Congo, da Palestina, da Síria e da Colômbia se refugiam na hospedaria abandonada do título, em SP, ao lado de um grupo sem teto de distintos CEPs. Lá dentro, um agitador cultural com aptidões para o teatro, Apolo (José Dumont, de volta às telas com som e fúria, em uma atuação de gerar taquicardia), ajuda uma dirigente de movimentos de ocupação (Carmen Silva) a dar um norte para aquela babel de muitas línguas, capaz de fundir não-atores a grandes intérpretes (vide Dumont e Suely Franco, que ilumina a cena a cada aparição).

Longa de Eliane Caffé concorrerá no Festival do Rio

Longa de Eliane Caffé concorrerá no Festival do Rio ao Troféu Redentor

Diverso de tudo o que a realizadora de Narradores de Javé (2003) e O Sol do Meio-Dia (2009) fez até agora, trocando ambientes de um Nordeste profundo pela metrópole nº 1 do país, Era o Hotel Cambridge parece mais um exercício investigativo do que um ensaio propositivo, eletrizado por uma linguagem (bem) equilibrada no arame farpado entre fato e ficção. Tem um quê de arquivo, tem um quê de chat via Skype, tem perfil de rede social e tem um relógio que corre disparado, cronometrando o período que os personagens têm antes de uma possível expropriação. Fica-se pouquinho com cada um no roteiro escrito pela cineasta e por Inês Figueiró, com o aporte do dramaturgo Luiz Alberto de Abreu. Cada momento um refugiado ou um sem-teto nativo ganha a ribalta para si, o que é suficiente. O protagonismo é muito mais da situação – estrangeiros em degredo e brasileiros em condição de pobreza plena – do que desta ou daquela pessoa ou família. Claro que, com inteligência, Eliane nos deu Apolo (ou melhor Dumont) para ser um ponto de apoio, o “rosto amigo” entre anônimos.

 

Se o dispositivo é o da busca, e o ensejo é investigar, a montagem (feita por Marcio Hashimoto) precisa de atenção redobrada para que as idas e vindas e para que todo o vasculhar daquela “aldeia de cimento” tenham um sentido estético – e, por que não?, um calor político. Nesse ponto, o filme avança cinematograficamente em relação à bela contribuição de outros filmes brasileiros sobre o mesmo tema, como Dia de Festa (2006) e Estamos Juntos (2011), de Toni Venturi, e À Margem do Concreto (2005), de Evaldo Mocarzel. A recepção aqui foi traduzida em forma de discussão sobre o lugar dos refugiados no Brasil. E, em paralelo, houve muito riso, catártico, nas peripécias de Apolo, cantando “música de corno” e bebendo com os gringos.

 

Descrito aqui como um “poema da geopolítica”, Era o Hotel Cambridge se candidata à Eternidade de debates enquanto o expatriamento e o desterro forem temas do mundo e da Economia. Há um momento e outro de um didatismo exagerado (como na cena de Apolo lendo depoimentos racistas), e um ou outro clichês (como a situação da  jovem branca de classe média de paquera com um negro africano) mas nada que comprometa o vigor sensível e a relevância social desta produção com fôlego de trem-bala e com a retidão delicada de haical. Sua vinda para o Festival do Rio (de 6 a 16 de outubro) já está confirmada. A briga pelo Redentor será boa.

No dia 20, aqui em San Sebastián, é a vez da produção luso-mineira A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha (de Aboio), sobre o reencontro de duas amigas em Belo Horizonte. E embora seja falado em inglês, trazendo o hollywoodiano Greg Kinnear em seu elenco, o drama Little Men, de Ira Sachs, que anda bombando de público aqui na mostra Pérolas, teve produção brasileira. Produzido pela RT Features, ele é um dos mais fortes candidatos ao prêmio de júri popular de sua seção.

Virá da França, no dia 24, o longa de encerramento do festival: L’Odyssée, um drama sobre o mais pop dos oceanógrafos: o documentarista Jacques-Yves Cousteau, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes e o Oscar com seus filmes sobre o mar.