Versátil De Palma

Versátil De Palma

Rodrigo Fonseca

27 Janeiro 2016 | 13h53

De Palma em filmagens dos anos 1970

De Palma em filmagens dos anos 1970

Convocado para filmar o thriller de artes marciais Lights Out na Ásia, usando verbas francesas e chinesas, o diretor Brian De Palma continua alijado da máquina industrial hollywoodiana, incapaz mesmo de arranjar uma colocação comercial digna para seus dois últimos longas-metragens: Guerra Sem Cortes (2007) e Paixão (2012). Tem sido alvo de documentários de seus conterrâneos, como foi o caso de De Palma, de Noah Baumbach e Jake Paltrow, e Phantom of Winnipeg, de Malcolm Ingram, e é citado sempre como um mestre por seus contemporâneos mais famosos, como Steven Spielberg. Mas nada disso dá a ele o espaço que precisa em sua pátria natal. Por isso, de certa forma, o pacote de DVDs A Arte de Brian De Palma, lançado agora pelo selo Versátil (sob a curadoria de Fernando Brito) tem um aspecto redentor, pelo menos aqui no Brasil, por oferecer uma chance a mais de recontextualização histórica e estética de uma das obras mais coesas (e arriscadas) do cinema americano.

No box estão Irmãs Diabólicas (1973), O Fantasma do Paraíso (1974) e a obra-prima Um Tiro na Noite (1981), com um jovem John Travolta. De lambuja, ganhamos como mimos do DVD making ofs e depoimentos sobre a artesania deste artífice da tensão.

“O Fantasma do Paraíso”: musical dos diabos

Nascido em 11 de setembro de 1940, em Newark, Nova Jersey, Brian Russell De Palma, um estudante de Física, estreou como realizador em 1960, ao rodar o curta- metragem Icarus. Filho de um cirurgião, a quem acompanhou em muitas operações, De Palma rodou 35 filmes nas últimas cinco décadas. Dirigiu sete curtas entre 1960 e 1966, além de um videoclipe para Bruce Springsteen, desenvolvido a partir da canção Dancing in the Dark. Na seara dos longas-metragens, contabiliza 29 produções, rodadas entre 1968, quando debutou no formato com Murder à La Mod, e 2012, quando lançou Passion no Festival de Veneza, em disputa pelo Leão de Ouro. Dublê de Corpo (1984), Scarface (1983) e Carrie, a Estranha (1976) são considerados obras-primas em sua carreira, cujos maiores êxitos comerciais foram projetos de “encomenda”: Os Intocáveis (1987), cujo faturamento
beirou US$ 76,2 milhões, e Missão: Impossível (1996), que registrou uma arrecadação mundial de US$ 456,7 milhões.

“Um Tiro na Noite” (1981): ecos de autoralidade

Controverso por excelência, classificado como misógino e voyeurista, De Palma foi, durante décadas, classificado como um pastichador de Alfred Hitchcock, até que uma retrospectiva realizada em 2002 no Centre Pompidou
repensou sua filmografia, buscando uma identidade autoral própria para além de suas referências. Em 2007, quando lançou Guerra Sem Cortes, usando elementos da linguagem digital retirados do YouTube, o cineasta
declarou: “Hitchcock é o maior mestre da arte contar histórias a partir de imagens e se eu uso alguma referência de sua gramática esses elementos complexificam o que eu conto. Mas acho que hoje, após quase 50 anos como
diretor, eu já tenho meus próprios métodos configurando um estilo”.

Obrigatório, para fãs ou leigos, o box da Versátil é um atestado de todo o potencial de surpresa que De Palma pode provocar em nós. Com prazer.